Empresarialização do ensino público: um país desigual


A reportagem só está acessível, para já, em papel ou num online exclusivo para assinantes. O título aí está, à vista de todos, como muitas das coisas que, no fundo, não vemos.

O excerto que pode ser lido por qualquer navegante virtual é revelador de que o inaceitável acaba por ser aceite como normal.

É uma realidade que escapa a quem vive nos grandes centros urbanos, mas há 61 secundárias onde os alunos não podem escolher o curso que querem, porque não há estudantes suficientes para abrir mais do que uma área de aprendizagem, no 10.º anoO número foi enviado ao JN pelo Ministério da Educação, mas uma busca feita no portal Infoescolas indica que, em mais de uma dezena de casos, essa Secundária é a única do concelho. É o caso de Pampilhosa da Serra e de Oleiros, cujas histórias pode ler ao lado.

O que está a negrito define de que modo o Ministério da Educação toma decisões há muitos anos: para abrir turmas e/ou disciplinas é necessário um número mínimo de alunos. Isto refere-se a escolas públicas, claro, ou seja, a instituições cuja função, entre outras, é a de oferecer aos alunos aquilo que não podem alcançar de outra maneira, a não ser que as famílias tenham dinheiro e/ou (in)formação suficientes.

Assim, em concelhos com poucos habitantes, e de acordo com as directivas do Ministério da Educação, os alunos não podem escolher a área que queiram frequentar no Ensino Secundário, sujeitando-se a um controlo apertadíssimo. Mesmo nas escolas de concelhos mais povoados, as minorias que queiram estudar latim ou alemão não são protegidas, com o próprio Estado a contribuir para o empobrecimento cultural de um país.

Tudo isto acontece, não por razões pedagógicas e sim por motivos financeiros, o que poderia ter piada, se o Orçamento de Estado não andasse a sustentar a incompetência de banqueiros e do respectivo supervisor, entre outras parcerias público-privadas em que público é o risco e o lucro é do privado. Por esta razão e por muitas outras, uma expressão como “liberdade de escolha” não passa de um chavão ultraliberalóide, típico dos que pensam que o país pode estar melhor, mesmo que as pessoas não estejam. Traduzindo: o Ministério da Educação continua a reduzir os gastos à custa da vida dos alunos, o que, sendo inaceitável, é normal.

Comments

  1. ramila says:

    Quantas vezes não são as próprias direcções das escolas a forçar a matrícula em determinadas disciplinas (refiro-me às opcionais), conforme a capacidade de influência, ou não, dos grupos disciplinares…

  2. JgMenos says:

    Pois o estado não assegura tudo a todos?
    Por razões economicistas?
    Porque perfere ter um banco público?
    Fico horrorizado!!!!

  3. Rui Mateus says:

    Situação velha e lamentável.

Trackbacks

  1. […] e “que hoje são consideradas fundamentais e que são aquilo que as empresas procuram.” Ah, as sacrossantas empresas, as únicas entidades que servem de referência a todos os discursos sobre Educação ou sobre a […]

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