Contra o Orçamento do Estado para 2020

Ora, questa frenesia dell’apparire (e la notorietà a ogni costo, anche a prezzo di quello che un tempo era il marchio della vergogna) nasce dalla perdita della vergogna o si perde il senso della vergogna perché il valore dominante è l’apparire, anche a costo di svergognarsi?

Umberto Eco

Foto: Tiago Petinga/Lusa [http://bit.ly/36HQkRp]

É impossível alguém rever-se no OE2020, a não ser que ande a espalhar o caos ortográfico. Efectivamente, a mixórdia de 1990 tem um dos seus pontos altos anuais no momento em que o ministro das Finanças entrega ao presidente da Assembleia da República um texto que o primeiro obviamente não escreveu e o segundo certamente não lerá. Baseio esta minha hipótese num facto: estes são exactamente os mesmos protagonistas dos momentos simbólicos do OE2016, do OE2017, do OE2018 e do OE2019. Se Mário Centeno e Eduardo Ferro Rodrigues tivessem escrito ou lido as propostas de 2016, 2017, 2018 e 2019, provavelmente não teríamos o caos de 2020 que aqui vos deixo, sob a forma de pequena amostra:

caráter geral (p. 231) e carácter geral (p. 123);

setor público (p. 194) e sector público (p. 188);

atualizações dos escalões (p. 249) e actualizações salariais (p. 62);

despesa efetiva (p. 73) e despesa efectiva (p. 70);

Programas Orçamentais e Políticas Públicas Setoriais (p. 61) e Programas Orçamentais e Políticas Públicas Sectoriais (p. 61): sim, na mesma página;

setores e funções (p. 84) e entre sectores (p. 136);

acordos coletivos (p. 17) e serv. colectivos (p. 91);

exigência da fatura (p. 197) e remanufactura (p. 198)- sim, rimavam: mas isso era antigamente;

eletricidade (p. 194) e electricidade (p. 207);

largo espetro (p. 157) e espectro internacional (p. 211);

gestão de ativos (p. 292) e gestão de activos (p. 294);

proteção social (p. 170) e protecção social (p. 114);

ação social (p. 100) e acção social (p. 91);

Direção (p. 224) e Direcção (p. 220).

Como este exercício de entrega e recepção é meramente simbólico, pois as personagens deste ritual (já interpretadas por duplas como Vítor Gaspar e Assunção Esteves, Maria Luís Albuquerque e Assunção Esteves ou Centeno e Ferro Rodrigues) não dão o devido valor ao texto (o valor intrínseco de qualquer texto só pode ser extraído se ele for de facto lido), não vale a pena insistir no exercício de leitura e de escrita.

Portanto, convém que o poder político dê o único passo lógico para termos uma ortografia clara, sem ambiguidades, uma ortografia com carácter, com sector, com sectores, com facturas, com protecção, com acção e com direcção. Como o Acordo Ortográfico de 1990 falhou (cf. 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2019 e 2020), regressemos à ortografia de 1945, sff.

Obrigado e até para o ano.

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Comments

  1. Mr José Oliveira Oliveira says:

    A conclusão óbvia é a que desmente o axioma filosófico de que uma coisa não pode ao mesmo tempo ser e não ser. Neste caso, o AO é e ao mesmo tempo não é. Aqui entramos claramente no terreno do vale tudo. O AO veio tentar destruir a norma e constituir-se a ele próprio como norma. Não só não conseguiu, mas pior ainda, instalou o caos, como os exemplos indicam. E se há coisa de que a norma escrita não precisa mesmo, é de caos. Os autores e defensores do AO agradecem reconhecidamente.

  2. Elisabeth Henriques says:

    Excelente, Francisco Miguel Valadas! Inteiramente de acordo. “Regressemos à ortografia de 1945, sff”!

    • Carlos Almeida says:

      Curioso. Eu nunca a deixei. Alias ando por cá antes dela aparecer.
      Na assinatura dos meus emais escrevo:

      Quando escrevo, os meus emails são redigidos em profundo desacordo e intencional desrespeito pelo novo Acordo Ortográfico.

  3. João Barroca says:

    Imagine um “escritório” medieval com duas dezenas de copistas. Todos eles usam a mesma ortografia?

  4. Patrícia Gunther says:

    Estou tão preocupada com os erros ortográficos que nem me importam os erros económicos nem com o aumento de imposto que vamos pagar. Este pessoal é mesmo socialista, pensa que o governo sabe melhor gastar o seu dinheiro que eles próprios.

    Patrícia Gunther

    • POIS! says:

      Ora pois!

      Mas olhe que, se paga impostos é porque tem rendimento para isso. Se quiser deixar de pagar, é fácil: deixe de trabalhar e de consumir. Não paga mais. Tá a ver que há livre escolha no nosso país?

      PS1 – E, por favor, se tiver o azar de apanhar com um cancro não apareça no IPO. Aquilo é do Estado e muito mixoruca. Vá até uma clinicazinha privada que eles, por uns meros 10 euritos de seguro de saúde, fazem-lhe a quimio, que custa no IPO 5000 euros por mês. Isto porque no Estado se esbanja muito. Na clinicazinha a gestãozinha privada faz milagres.

      PS2 – O Pai Natal existe.

    • Paulo Marques says:

      Ora diga lá qual é o partido que não quer que pague mais todos os meses, pelo menos dentro dos constrangimentos do mercado único. E pagar menos impostos para pagar mais de seguro de saúde (e de serviços de saúde), por exemplo, não conta, nem pagar menos pelo RSI para pagar mais à PSP e cadeias.
      Quando muito, pode pagar menos de SS para deixar de ter reforma; é uma opção.

  5. Joao Pinto says:

    Uns escrevem uns itens, outros escrevem outros. Depois, junta-se tudo num documento único.
    Como este tipo de documento é feito em cima do joelho e sempre no limite do tempo, não só não há hipótese de se rever a informação financeira como também não dá para se fazer a revisão ortográfica.
    E, claro, dá bostada. Nas 2 vertentes.
    E a desculpa é sempre a mesma: “é um esboço”, “é uma proposta”, “ainda não está fechado, agora vai ser discutido na especialidade”,…