A trafulhice fiscal das Holandas desta vida

TH

Panama Papers, Swiss Leaks ou o famoso “double Irish, Dutch sandwich” (se não estão familiarizados com a expressão, sugiro que a pesquisem e se maravilhem com os embustes que são o milagre irlandês e ética financeira holandesa), existem esquemas para todos os gostos e à medida de cada evasor fiscal. E todos eles, sem excepção, contam com a participação de “respeitáveis” instituições financeiras europeias e norte-americanas. E de estados-membros da União Europeia. E com a inércia e o silêncio cúmplice da Comissão Europeia. Ou não estivessem, todos eles, nas mãos dos principais beneficiários dessa trafulhice. Sim, trafulhice. Deixem-se de politicamente correctos e chamem os bois pelos nomes. É trafulhice, sim. E é trafulhice feita à custa de milhões de pessoas, que pagam a factura em doses cavalares de austeridade, independentemente do nome que se decide, em cada momento, dar a essa austeridade.

Vem isto a propósito da recente tomada de posição do governo holandês, através do seu ministro das Finanças, que gerou divisão no seio da União. Ou do que resta dela. Ironicamente, esta mesma Holanda, que recusa o alargamento dos mecanismos de solidariedade para lá da pseudo-caridadezinha dos empréstimos bancários, e que não quer sequer ouvir falar em eurobonds (ou coronabonds, se preferirem), lesa anualmente os seus parceiros europeus em cerca de 10 mil milhões de euros, devido às suas práticas fiscais que, sejamos sérios, fazem da Holanda um paraíso fiscal. Uma fraude legal, legitimada e mantida por um poder internacional não-eleito, que, insisto, é o principal beneficiário desta trafulhice.

Um relatório da Tax Justice Network, publicado na passada semana, fez as contas e demonstra que são precisamente os países mais prejudicados pela Covid-19, como Itália ou Espanha, os principais prejudicados pelos esquemas de invasão fiscal facilitados pela Holanda. As contas feitas pelos economistas desta organização apontam para perdas de 2,7 mil milhões para França, 1,5 mil milhões para Itália e Alemanha, e 1000 milhões para Espanha.

Em Portugal, o mesmo estudo aponta para perdas anuais de receita fiscal na ordem dos 258 milhões de euros. Em termos comparativos, falamos de um valor com o qual poderíamos construir 10 alas pediátricas no Hospital de São João, e ainda sobravam uns trocos para comprar computadores portáteis para todas as crianças que estão agora fechadas em casa e não têm possibilidades de os comprar. É este o valor da ganância e do egoísmo dos evasores fiscais portugueses. E estamos a falar apenas da Holanda, não dos restantes paraísos fiscais que usam para os seus esquemas engenharia financeira. Se, só na Holanda, nos são anualmente subtraídos 258 milhões, imaginem o valor total do saque protagonizado pelo conjunto de todos os paraísos fiscais, valor esse que poderia e deveria estar a ser canalizado para a Saúde, para a Educação ou para a redução de impostos sobre as famílias e as empresas.

Os beneficiários desta fuga aos impostos são facilmente identificáveis. Basta percorrer a lista de empresas cotadas no índice PSI-20. GALP, Mota-Engil, EDP ou Jerónimo Martins são algumas das empresas que recorrem à engenharia financeira dos paraísos fiscais para escapar ao pagamento da totalidade de impostos no país onde realizam o grosso das suas actividades, neste caso Portugal. E é por estas e por outras que não vou na cantiga da caridadezinha de instituições como o Pingo Doce. Não precisamos de caridadezinha. Precisamos que paguem os impostos em solo nacional. Nada mais. Não nos podem dizer que “a nossa força vem de dentro” para depois pagarem impostos lá fora. Mas “sabe bem pagar tão pouco”, não é mesmo?

Infelizmente, pouco ou nada se tem avançado nesta matéria, no que a corrigir estes desequilíbrios no seio da União diz respeito. Graças aos milhões de euros que os beneficiários destes esquemas investem anualmente nos centros de poder europeus, contratando empresas de lobby que arrebanham políticos de todas as nacionalidades, e à colaboração e/ou silêncio das duas maiores forças políticas europeias, o PPE (PSD, CDS-PP) e o S&D (PS), que detém poder suficiente para virar este tabuleiro desigual, não se vê luz ao fundo do túnel. Serão eles, os que roubam e os que ficam à porta, os coveiros desta União ligada ao ventilador.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Exemplo nº 3249 de como a economia não tem nada a ver com o senso comum, ou como a virtude é uma farsa, explicado aqui:
    https://threadreaderapp.com/thread/1248357608886501376.html

    O casino rende mais, é para onde vai o investimento. Tão simples como isto.

  2. Hugo Filipe Alexandre says:

    O que nos impede de criar condições fiscais iguais as Holandesas e assim impedir a saída desses milhões?

    • abaixoapadralhada says:

      Outro trafulha liberoide !

    • Abstencionista says:

      A pergunta é pertinente, mais a mais depois de se conhecerem as conclusões da Taxe Justice Network citada no excelente post do João Mendes.

      Cito: (trad. google)

      “…Para impedir a perda de bilhões de impostos para empresas que transferem lucros para paraísos fiscais como a Holanda, os governos da UE devem mudar para uma abordagem tributária unitária que faça com que as empresas paguem impostos com base onde seus funcionários trabalham de verdade, e não onde seus contadores ocultam seus lucros . As receitas tributárias devem surgir onde está a atividade real – exatamente como as necessidades de saúde. ”

      Depois desta conclusão só há uma resposta para a pergunta do Hugo Filipe Alexandre: O extraordinário poder dos “facilitadores” dessas empresas que corrompem os governos dos países mais prejudicados.

      Vejam só o “dream team” de “facilitadores” da EDP espalhados por tudo o que mexe nessa empresa!!!

    • Paulo Marques says:

      O facto de eles puderem baixar mais até sermos os primeiros a violar as regras que eles escreveram para o Euro, sendo depois sujeitos a cortes que cortam a procura, que corta impostos, que aumenta o défice, etc.
      É tão básico que dói.

  3. JgMenos says:

    258 milhões?
    Fico transido com tantos milhões, e logo esses que iam pela certa para as criancinhas depois de abocanhados pela legião de mamões e incompetentes e suas clientelas.

    • anticarneiros says:

      JgMenos

      De vez em quando podias dizer alguma coisa relevante.
      Assim ninguém te liga

    • POIS! says:

      Pois é!

      Até porque nos Países Baixos não há mamões! Só mamas, segundo parece.

      Mas quando eventualmente quiserem importar algum V. Exa. tem grandes hipóteses. Mande-lhes alguns dos seus comentários antigos a defender os banqueiros contra os treteiros esquerdalhos. Fica logo contratado.

  4. Abaixo os Parasitas says:

    Os comunas sonham sempre com mais impostos e mais regulação. É da própria ideologia. Por vontade do comuna os meios de produção devia pertencer ao estado ao comandada pela aristocracia dos gordos dirigentes do partido único. Issi só não é assim porque estes finórios já perceberam que eles não conseguem fazer porra nenhuma quando nacionalizam as empresas ( ver o ultimo exemplo a Venezuela) e por isso querem que os empreendedores façam o trabalho se sapa e depois através de impostos apropriarem-se do cracanhol… bem pensado mas felizmente para a Humanidade esse plano falha e falhará sempre , trabalhem filhos da puta , paguem salários em vez de viverem á custa do suor alheio…

    • Democrata_Cristão says:

      Chega de conversa,demagógica

    • POIS! says:

      Pois aqui está um ótimo apelo!

      “trabalhem filhos da puta , paguem salários em vez de viverem á custa do suor alheio…”.

      Certamente destinado aos empreendedores liberaleiros de todo o tipo que querem que o Estado lhes resolva agora os problemas causados pelo covide. Sim, porque são esses que devem “pagar salários” e “trabalhar” não é?

      Sim, senhor tem razão! Abaixo os parasitas!

      Há muito que não se via uma carga tão fora de tempo!

    • Paulo Marques says:

      Pois, há quem prefira a aristocracia gorda que não responde a ninguém com os seus mono/oligopólios, quanto mais ao voto, desde que atire uns brioches de vez em quando.
      Mas nem assim escapam à nacionalização, só que desta vez chinesa, que vai comprando a Europa que acha que o dinheiro nasce nos ricos.

  5. JgMenos says:

    Ser grande em Portugal é quase ter um funcionário das finanças residente.
    Ser multinacional com sede em Portugal é pura estupidez.

    • abaixoapadralhada says:

      Sa Lazarento repugnante

      Claro que achas bem que o Pingo Doce, pague miseravelmente aos empregados, e aos fornecedores, para ir pagar impostos aos Holandeses

      • JgMenos says:

        Ó atrasado mental!
        O grosso do negócio e do futuro do Pingo Doce está na Polónia e na Colômbia, e noutras partes que não nesta pocilga povoada por idiotas raivosos e chulos.

        Ser multinacional com sede em Portugal é pura estupidez.

        • abaixoapadralhada says:

          Repugnante nazi

          Quando dizes “pocilga povoada por idiotas raivosos e chulos.”, estas a falar da tua família salazarenta, não é ?

          Mas é claro que achas bem que o Pingo Doce, pague miseravelmente aos empregados, e aos fornecedores, para ir pagar impostos aos Holandeses.

          És um Nacionalista de merda. Até o Botas se vira na tumba.

          Mas na realidade não és nada, limitas-te a reproduzir cassetes

          • JgMenos says:

            Nacionalismo e parasitismo são sinónimos para escumalha verrinosa que que vive de tiradas pseudo justiceiras sem nunca se questionarem sobre qual seja o valor acrescido pela sua indigente acção.

            Lamentosos explorados que sempre se escusam a medir o que vale o seu trabalho, permanentemente reconfortados com a sua condição de coitadinhos.

            E se o capital de escassos descontos sempre será capital a reproduzir-se milagrosamente em longas e desproporcionadas reformas, o capital dos outros sempre há-de ser posto a trabalhar para eles à borla.

            Imbecis palavrosos e convenientemente indisponíveis para fazer contas!

          • Paulo Marques says:

            Nem toda a gente pode acrescentar tanto valor como Zeinal Bava, Oliveira e Costa, Tomás Correia ou Paula Brito da Costa, é um facto da vida.

        • Paulo Marques says:

          Os chulos raivosos que não passam sem subsídios, descontos nos impostos, requisição civil proibições de greves e coisas semelhantes de “estado mínimo”? Só para a gente saber.

          • JgMenos says:

            Blá, Blá, balbucia quem procura refugio nas orações do catecismo dos imbecis esquerdalhos.

    • POIS! says:

      Pois fica claro!

      Que JgMenos não suporta a estúpida concorrência e qualquer ocasião lhe serve para a tentar mandar embora. Anda com aquela ideia estúpida de ter o monopólio da coisa.

  6. anticarneiros says:

    JgMenos

    “Nacionalismo e parasitismo são sinónimos para escumalha verrinosa que que vive de tiradas pseudo justiceiras sem nunca se questionarem sobre qual seja o valor acrescido pela sua indigente acção.”

    Continuas sem dizer nada. São frases feitas que resolves emitir sem nexo algum.
    Carneiro

    • JgMenos says:

      «sem nunca se questionarem sobre qual seja o valor acrescido pela sua indigente acção»

      Carneiro como és, nunca tal te passou pela cabeça, nem sabes do que se trata.

      • anticarneiros says:

        “«sem nunca se questionarem sobre qual seja o valor acrescido pela sua indigente acção»”

        Cassete nº 238 do carneiro JGMENOS

        • abaixoapadralhada says:

          Ena tanta cassete Sa Lazarento menor

          Isto para um guarda livros é demais

  7. JgMenos says:

    Trabalhadores!
    Consumidores constrangidos a cumprir horário a troco de um salário…a CGTP bem podia ser uma extenção da DECO.

    • Democrata_Cristão says:

      JgMenos

      “Trabalhadores!
      Consumidores constrangidos a cumprir horário a troco de um salário”

      Tens mesmo ódio a quem trabalha, grande chulo contabilista

      • JgMenos says:

        És uma besta armada em desentendido.

        O trabalhador, faça o que fizer, tem que conhecer a profissão, saber o valor do que faz, exigir ver esse valor reconhecido e pago, não essa cambada de coitadinhos, queixosos, lamentosos, invejosos, sentados em direitos, sempre prontos a invocar a máxima ‘tal dinheirinho tal trabalhinho’, sem ambição outra que não a do decreto que lhe dê mais umas migalhas.

        • JgMenos says:

          Uma cultura objectivamente promovida por ‘queridos líderes’ medíocres e manipuladores do culto da vitimização e da igualdade, único caminho seguro de não se verem contestados como pastores de rebanho, que é tudo que querem e podem ser.
          Verdadeiros imitadores de padres em tempo de religião fundamentalista, invocando o ódio ao Capital em substituição do temor a Deus.
          E como sempre, a insuportável hoste de imbecilizados auxiliares do culto…

          • Democrata_Cristão says:

            “O trabalhador, faça o que fizer, tem que conhecer a profissão, saber o valor do que faz, exigir ver esse valor reconhecido e pago”

            E conhece e sabe o valor do que faz,

            Tu como contabilista chulo, é que consegues enganar os teus cliente otários, que dão trabalho a um incompetente

          • JgMenos says:

            +…sabe o valor do que faz»

            Dá-me um exemplo de um contrato de trabalho em que haja prémios de produçao regulamentados, e transcreve o bastante para que se veja que sabes do que estás a falar.

          • POIS! says:

            Pois temos que dar razão a JgMenos!

            Pois tem um saber de experiência feito que lhe permitiu aprofundar ao nível do Canhão da Nazaré a novel Teoria Menista que vai revolucionar as Ciências da gestão a tal ponto que nada do passado restará.

            A ideia central é a de acabar com isso de trabalho assalariado, até porque é perfeitamente dispensável. Os empresários é que sabem o que custa a vida e chegam perfeitamente para a produção. Tem havido é alguma preguiça por parte dos mesmos, o que só tem alimentado um sistema de inúteis a que chamam “trabalhadores”, “funcionários” e até – pasme-se- “colaboradores”.

            Os “auxiliares de empresários”, designação a partir de agora, deveriam apenas receber os salários a partir do momento em que os produtos fossem vendidos, porque só nessa altura é que o empresário arriscante sabe quanto vale o produto. Nessa altura chamaria os auxiliares para lhes dar um óbolo -um prémio de produção – se o produto tivesse sido vendido ou umas valentes chicotadas se tivesse ficado em stock.

            Só há uma dúvida neste caso: o de quem iria comprar a produção. mas se isso hoje não é problema nenhum para JgMenos muito menos o será em tal revolucionário sistema..