Obrigado aos Professores

Ninguém estava à espera de uma pandemia, mas ela chegou e tivemos de reagir. Os estudantes e os professores não são exceção. Por um lado, os professores tiveram de se adaptar a maneiras de ensinar que nunca tinham testado. Do outro, alunos tiveram de mudar radicalmente o modo de aprender. Em semanas, passaram de salas de aula para um ecrã. A situação já não é fácil para ninguém, mas ainda ficou mais difícil com as soluções arranjadas. Com o prosseguimento das aulas, ficaram alunos para trás. Tanto os que têm computador como aqueles que têm e não se sentem confortáveis a aprender assim. Sim, porque nenhum aluno (ou professor) aceitou, em qualquer altura, ter aulas por vídeo-chamada. Logo, qualquer aluno que tenha mais dificuldades em aulas deste género está prejudicado.

Na semana passada, começou a escola na RTP Memória. Uma iniciativa louvável. Mas alguém acredita nas vantagens de lecionar tantos níveis de escolaridade numa grelha televisiva? É um projeto condenado à partida. Irreal e que apenas serve para atenuar o problema.
É necessário haver medidas para que não fiquem pessoas em situações desiguais. Neste momento, temos escolas com aulas e outras sem. Temos alunos com computadores e alunos sem. Temos alunos sem dificuldades e outros com maiores dificuldades. Ninguém assinou no início do ano letivo que estava preparado para isto. Então não tratem os alunos como se estivessem preparados.

Que esta situação nos ensine a valorizar mais os professores, que tanto estão a fazer pelos seus alunos, ao usar plataformas que nem sonhariam necessitar para ensinar. É triste que ainda haja quem sinta prazer em fazer pouco destes mesmos, invadindo aulas online e prejudicando essas mesmas aulas. Por outro lado, há que dar valor à revolta geral dos alunos contra esses que decidiram fazer essas anormalidades. Sim, anormalidades. Não tem outro nome.

Comments

  1. Julio Rolo Santos says:

    Não sei se, com o recurso á tele-escola, se os alunos ficarão prejudicados. Através deste método, os alunos podem rever a matéria o número de vezes que quiserem, gravando as aulas, enquanto na sala de aulas, as aulas normalmente são dadas em passo acelerado e os alunos, por vezes, não chegam a acompanhar os conteúdos dados. Vamos esperar para ver os resultados. De uma coisa é certa, já começaram a surgir críticas a este sistema e aos respectivos professores mesmo antes de se conhecerem os resultados, o que é de lamentar.

    • Paulo Marques says:

      E desde quando é que (a generalidade d)os alunos querem rever alguma coisa? Mesmo com salas a abarrotar, a presença de um adulto na sala sempre ajuda a levar a coisa mais a sério. Ou que alguém pergunte dúvidas.

      • Paulo Marques says:

        Como me lembrou a prof Helena abaixo, isso também é assumir que o modelo correcto de ensino é decorar um monte de coisas para a produção, como se o século 19 fosse igual a este.

  2. helena paula vicente ramos says:

    sou professora há 34 anos
    vim e o que me fez ficar foi o facto de, sentados à minha frente, estarem jovens. O que eu ensino pouco relevo tem se comparado com a possibilidade de fazer alguma diferença para melhor na vida de quem se cruza comigo. Não sou o paradigma do professor exemplar. Sou alguém que continua a achar que as casas construídas pelo teto resistem pouco… Estas medidas são tão, mas tão forçada que só são entendidas se tentarmos MUITO ver nelas um regressa a uma pretendida normalidade. Como se houvesse normalidade começar uma aula a descobrir que, em 30, 10 alunos não têm suporte informático para estar numa das milhentas plataformas usadas… e a perguntar: está tudo bem convosco e com as vossas famílias?
    Quanto se os alunos querem ou não aprender… isso é outra história: aprender nunca foi uma atividade lúdica, por mais estratégias lúdicas que se empreguem… se perguntarem aos alunos se vão para a escola para aprender… o argumento primordial é o de que vão para estar com os amigos. A escola é o nosso reduto primeiro de socialização – e isso não há realidade alternativa que a substitua. Não esperamos que eles aprendam com toda esta enormidade de recursos onde nos dispersamos. Tentamos, isso sim, manter o contacto entre realidades mas sabendo que uma não substitui a outra e que apenas em casos excecionais ( como este) podes sobrepor os dois.

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