Mania das Grandezas

Portugal, tal como o resto do mundo, está a atravessar uma pandemia. Devido à mesma, teremos enormes consequências na vida das pessoas, principalmente pelo abalo que a economia levou. Talvez algumas pessoas agora percebam que não é a economia que mata. Durante os últimos meses, os profissionais de saúde têm sido bastante elogiados pelo combate ao vírus. Chega a ser comovente a entrega destes profissionais que têm vidas humanas nas suas mãos. Em França, o Governo garantiu dar até 1500 euros de bónus a profissionais de saúde. Na Alemanha, vai ser aumentado o salário aos mesmos. Mas, comparando com Portugal, estes países estão muito atrasados no que diz respeito a valorizar o trabalho das pessoas. Em Portugal, sim. Em Portugal, o Governo conhece o real desejo dos profissionais de saúde: receber a Liga dos Campeões! Ouvia-se imenso pelos corredores de hospitais, em cafés e até nas redes sociais. Aliás, o desejo era tanto, que até já havia quem passeasse pelos corredores do Santo António a assobiar o hino da Champions. Cheguei a ouvir uma confissão de uma enfermeira que chegou estafada a casa e disse “Que dia cansativo. Bom era se recebessemos a Liga dos Campeões”. Porque isto de aumentos de salário é totalmente materialista. De valor é receber algo com tanto impacto neste jardim à beira mar plantado. Estou ansioso pelo dia que me falte dinheiro para pagar um jantar e perguntar se posso recompensar com uma Liga dos Campeões de xadrez no nosso país.

Além desta tentativa falhada de apelar ao sentimento, vemos a falta de noção que o Governo tem, assistindo às suas prioridades. Somos o segundo país europeu com mais casos na última semana. Continuamos com escolas fechadas. Continuamos com pessoas que não podem trabalhar normalmente. E a preocupação é receber a Liga dos Campeões para dar a ideia de que somos grandes. Receber esta edição da Liga dos Campeões é o equivalente a meter um guarda-redes jovem, mas sem braços, a titular, porque os outros disponíveis tinham ido para a noite no dia anterior.

Esta materialização de algo tão popular como o futebol para engrandecer a Nação acontece em 2020. Sim, eu sei. Se fosse há 50 anos, era uma história de fachos. Mas não, foi há dois dias. Com um Governo Socialista, comandado pelo otimista e humanista António Costa.

Como estamos a meio de uma época festiva, deixo aqui uns dísticos que podem decorar qualquer manjerico. São todas da autoria de profissionais de saúde que se emocionaram com esta prenda do Governo.

Não importa se há Covid
Desde que possamos ver uma equipa de Madrid

Mais do que quaisquer aumentos
Nós queremos um jogo da Juventus

A competência do governo é tanta
Vejam lá, vou ver um jogo da Atalanta

Saio às 19h do São José
E vou ver o meu PSG

Não importa se salvo vidas no S. João
Desde que possa torcer pelo Lyon

Comments

  1. Jose Oliveira says:

    Pão e circo para ludibriar o pagode… e venham mais cinco!!!

  2. Fernando says:

    Ainda bem que a utilização do futebol para ludibriar o povo não é populismo e demagogia.

    Até porque se fosse populismo e demagogia certamente a comunicação social e os seus comentadores já teriam cascado no Presidente Marcelo…

    Felizmente temos uma comunicação social independente, com instintos jornalísticos muito apurados…

  3. POIS! says:

    Pois, mas não entendo Sr. Figueiredo!

    O Estado, o Governo e isso tudo nem deviam estar a tomar conta disto. Os cidadãos, livres e responsáveis, por sua liberal iniciativa, é que deveriam determinar, em cada momento, o que poderia ou não ser feito! Parem de se intrometer na esfera privada! Se eu quiser ficar cheio de covides é o Estado que me impede? Friedman nos livre!

    E os ordenados do pessoal de saúde deveria ser determinado pelos empreendedores das clínicas e tal em contratos coletivos e seguindo a sacrossanta regra da oferta e da procura, que também se aplica aos mercados de trabalho!

    O Estado a pagar mais aos médicos e enfermeiros? Por alma de quem, santo Hayeck? E os nossos impostos? Então anda aqui um tipo a trabalhar para sustentar médicos e enfermeiros? E o défice zero? Haja tino!

    Quanto ás quadras, isso gostei! Aliás, só na obra do o saudoso espadachim zarolho e na da alentejana atrevidota vi tão boas rimas (já que o bêbado da Brasileira rimava pouco). É pena que faltem, aproximadamente, dois versos em cada quadra mas combimnam bem com qualquer mangerico, desde que seja azul às riscas.

  4. Paulo Marques says:

    Não é a economia que mata pessoas, são as escolhas político-económicas.

  5. Julio Rolo Santos says:

    Aproveitar a pandemia para os profissionais de saúde exigirem tudo é mais alguma coisa é demagogia barata e inaceitável. Os médicos e enfermeiros divulgam ordenados que dizem receber mas que não correspondem a realidade. O sol quando nasce é para todos e todos estamos pobres e mal pagos. Haja coerência.

  6. Julio Rolo Santos says:

    Os de bata preta souberam passar uma rasteira ao governo e conseguiram obter beneficios que não mereciam mas, já se viu, que. num país de cegos, quem tem olho é rei.

  7. anticarneiros says:

    Mas é bom que a malta esteja de olho nos meritíssimos.
    Há por lá muitos como o Moro

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