Oito apartamentos e um sótão (5)

Terceiro direito

João e Maria já tinham tudo combinado para se divorciarem, quando o vírus os obrigou a adiar os planos, fechando-os dentro da mesma casa durante mais uns tempos. A família de Maria viu nisso um sinal de que Deus queria a reconciliação. A mãe de João, viúva recente, também louvara a quarentena, porque tinha uma verdadeira paixão pela nora, ao ponto de culpar o filho pelo divórcio – talvez tudo isto o fizesse pensar, talvez se perdoassem um ao outro, porque há muito quem pense que um divórcio resulta necessariamente de uma culpa.

Depois de um namoro apaixonado, o casamento fora um passo tão claro como um degrau. Subiram juntos. Ora, o casamento, como se sabe, é mortal, porque mata ou porque morre ou porque todos temos de morrer. Explicar o fim de um casamento pode ser tão simples como comentar um jogo de futebol depois de ter terminado. Nem sempre é assim, no entanto.

No caso de João e Maria, houve como que um desgaste de material, um bocado de estuque que caiu, um ligeiro problema de humidade no canto mais fundo do corredor, pequenos desencantos que vão alastrando até atingir os alicerces. Os especialistas e os autores de frases ou de livros de auto-ajuda diriam que tinha de ser assim, porque não estavam feitos um para o outro ou porque não souberam trabalhar a relação, criar o diálogo, manter a chama viva. Todas essas frases foram ditas por alguns amigos e, por momentos, chegaram a ser sentidas por ambos.

Num momento tão raro que parecia ficção, durante um jantar cujo silêncio era falsamente cortado pela televisão, Maria começou a frase que João terminaria, concluindo ambos pela necessidade de se divorciarem. Houve só melancolia, porque qualquer amputação, por mínima que seja, é sempre dolorosa, mas o acordo estava atingido, para alívio e tristeza de ambos.

Era tanta a concórdia, que foi possível preparar calmamente a separação. A casa seria posta à venda, João passaria a dormir no escritório, evitar-se-iam o máximo possível. De repente, a tempestade perfeita: com o vírus, vieram os despedimentos e foram desmarcadas as visitas dos potenciais compradores da casa.

A convivência forçada transformou-os em colegas, as poupanças comuns passaram a fundo de maneio, voltaram a conversar, cozinhavam juntos.

Certa noite, João foi à sala. Abriu a porta de um armário, procurava uma extensão eléctrica e encontrou um envelope com fotografias. Sentou-se e começou a vê-las.

Eram eles. Maria a olhar para a câmara. Maria a exagerar uma pose sensual, como se fosse preciso. Ele a olhar para a câmara, com a língua de fora. Os dois juntos, testa com testa, nariz com nariz. Num grupo de amigos, num piquenique. A felicidade e a paixão apanhadas num segundo, o milagre da fotografia que usa o corpo para mostrar a alma.

Não se apercebeu da entrada de Maria.

  • Fotografias em papel, que coisa estranha.

João concordou e não conseguiu olhar para ela. Maria pousou-lhe a mão no ombro e, em segundos, estavam com a boca na boca do outro, com as mãos a agarrarem-se e a despirem-se, regressados ao tempo das fotografias, numa viagem ao passado feita dos mesmos suspiros, a novidade de um hábito perdido. Enquanto faziam amor no sofá da sala, esqueceram-se do mundo, do divórcio, eram náufragos e salvação um do outro.

Quando acabaram, ficaram a recuperar o fôlego, olhando para o vazio. Para o vazio.

Maria levantou-se, pegou na roupa.

  • Até amanhã, dorme bem.
  • Tu também.

João ficou mais uns minutos na sala. Depois, arrumou as fotografias e levou a extensão para o escritório. Já podia ligar o computador e ver um filme até adormecer.

Comments

  1. Ana A. says:

    Pobres de nós, sempre às voltas com a libido…que nos tolda a razão!


  2. Quem pode viver sem um amor? É assim a natureza. É algo que nos dá força para a vida.

  3. Pantanal says:

    Pois nem uma arma branca,de fogo,um golpe de fujitsu,corda,barbital. Calhou ele ser despedido e ela no teletrabalho.Nem .divergência quanto à propriedade privada e governo financeiro. Vai-se usando.Eu sei, no fassismo só havia acidentes.
    Na véspera do grande abalo reinava a calma em todo o país.

  4. Manuel Matos says:

    Se bem percebi, divorciar-se pode ser como deixar de fumar. Há quem o faça vinte e tal vezes por dia.

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