Oito apartamentos e um sótão (6)

Terceiro esquerdo

 

Vou matá-lo, caralho, eu vou matá-lo, não vou ficar fechado aqui em casa com um filho da puta de um bêbado que ainda acha que me pode bater. Ou fujo, que se foda o vírus, ter um pai assim é que é um vírus e não há vacina para esta merda.

A minha mãe pirou-se desta merda, não quis saber, puta do caralho. Eu, se fosse a ela, também fugia, não sei porque é que não fujo, há tanta gente que devia fugir e fica e outros que deviam ficar e fogem. Anos desta merda!

Já na outra casa, o meu pai metia-se nos copos e gastava tanto dinheiro em vinho que tem uma cirrose. É tão bêbado que nem chega a saber que é bêbado. Pelo meio, batia em toda a gente, porque tinha mau vinho ou porque era mau e estava cheio de vinho, um gajo não chega a saber. A minha mãe ainda pegou numa faca, mas não conseguiu fazer o que tinha a fazer. Pôs-se a chorar, ainda foi pior, apanhou mais. A puta da cirrose é que não há maneira de o levar. O gajo é tão ruim que até pode apanhar quarenta vírus que não morre. Mato-o eu, filho da puta.

O dinheiro sempre foi como o meu pai: pouco e chega tarde. Tantas vezes, já não havia para comprar comida e ia para a cama com tanta fome que nem tinha sono, à espera que o meu velhote chegasse.

Quando ele entrava em casa, tentava não respirar, a ver se me tornava invisível e fechava os olhos com muita força. Quando corria bem, o velho resmungava um bocado, chamava nomes a deus, ao diabo e à virgem maria e lá ia dormir. Quando corria mal, ouvia-o aproximar-se de mim, com a respiração cada vez mais próxima, vinho e cigarro a centímetros de mim, e eu a fechar os olhos ainda com mais força, a prender a respiração, fartinho de saber que ia apanhar ou que alguém perto de mim ia apanhar, mas, mesmo fartinho de saber, tinha sempre esperança, fartinho de saber que não havia hipótese, porque o velho já não era uma pessoa, em vez de cérebro tinha aguardente e no lugar do coração tinha um tonel cheio de vinho carrascão. E, com os olhos tão fechados que até me doía a cabeça, sentia mesmo em cima de mim a respiração cheia de vinho, assim mesmo, aqui no pescoço.

Sonho com o filho da puta a ser enterrado e sonho que a minha mãe volta, muito gira, e somos todos muito felizes outra vez. Outra vez o quê? Somos felizes. Estamos os dois agarrados na sala, no sonho, a ver televisão, até sinto o cheiro dela. De repente, até parece que vem uma trovoada, fica tudo escuro e a minha mãe já lá não está. Tudo o que é barulho me faz pensar que o bêbado, que eu vi ser enterrado, volta para casa. Quando o gajo morrer, quero que seja cremado e quero vê-lo a arder e ir espalhar as cinzas na Austrália.

É como agora, quando ele não está, parece que está tudo bem. Mas é o vento, é uma porta a bater, é o clique do frigorífico, é com cada cagaço, a pensar que é ele a chegar a casa. No outro dia, o caralho do gato apareceu-me no escuro, ia-me cagando todo, mandei-lhe um pontapé que o ia fodendo, pensei logo que era o velho a rastejar para me apanhar.

Depois ainda querem que estude e a vaca da directora de turma anda a ligar a dizer que tenho de fazer os trabalhos que os profes mandam. Queria vê-los aqui, aqui fechados com um filho da puta que nunca mais morre. Eu mato-o, caralho, quero que a escola se foda.

A porta está a abrir, vou para o quarto, vou fechar a porta, tenho lá uma faca. Não consegue meter a chave na fechadura, o bêbado de merda. Anda ali a arranhar, a arranhar. É hoje!

Comments

  1. Manuel Matos says:

    Foda-se!

  2. César P. Sousa says:

    Boa malha Nabais. Ficamos a aguardar a sétima temporada.

  3. fmart@sapo.pt says:

    Continuo a gostar.