Oito apartamentos e um sótão (9)

Sótão

 

Ando há muitos anos na construção civil, gosto de participar na construção de prédios, gosto de ver nascer apartamentos, imaginar que ali vão viver pessoas, comparar os espaços vazios com a decoração escolhida e confirmar que somos todos diferentes ou que somos previsíveis. Conheço os prédios melhor do que as pessoas que lá vivem, conheço cada canto dos apartamentos.

Este sótão, por exemplo. Ninguém vem aqui. É preciso saber que há uma escada escondida que é preciso puxar, fixar, subir sem apoios, realizar acrobacias que já não são para todos. Mesmo eu, que ainda não sou propriamente velho, sofri para chegar aqui.

Confesso que também tenho chaves que abrem as portas dos apartamentos. Muitas vezes, entro nas casas, quando não está ninguém. Também entro quando sei que as pessoas têm um sono mais profundo. Eu sei que seria o suficiente para ir preso, mas juro que nunca roubei nada, juro que nunca me aproveitei de ninguém. Talvez seja mais correcto dizer que não roubei nada que faça falta ou que seja material. Sim, tiro uma ou outra fotografia, anoto frases nuns cadernos velhos, colecciono sons que vou gravando, guardo pequenos vídeos.

Às vezes, faço consertos que não dêem muito nas vistas, que é uma maneira de pagar o espectáculo da vida alheia. Já lhe aconteceu a torradeira avariar de manhã e funcionar à tarde ou a chave entrar melhor numa fechadura que só estava a precisar de um bocadinho de óleo (ou de azeite, como me ensinou o meu avô, que era marceneiro)? Posso ter sido eu. Não tem nada que agradecer.

Não preciso de arrendar ou de comprar casa. Vou mudando de sótão. Um colchão, um fogareiro eléctrico, umas conservas e aqui está o porto de abrigo, a torre de vigia, a vida dos outros como minha.

Tenho esta mania desde pequeno: ver sem ser visto. Em casa, gostava de me esconder dos meus pais e compreendi que é tanto o que escondemos que só podemos ser verdadeiramente conhecidos por quem nos espiar. Há coisas que preferia não ter sabido e outras que me foram muito úteis.

Nessa altura, enquanto me escondia em casa, mostrava-me na rua: contava aos meus amigos as minhas façanhas de espionagem caseira. Quando me lembro dessas narrativas, apercebo-me, no entanto, de que não lhes contava verdadeiramente aquilo que via, preferindo romancear. Curioso: tinha acesso à verdade e preferia contar mentiras.

Depois de ter participado na construção deste prédio, instalei-me, então, aqui, neste sótão, como já disse. Quando o vírus se tomou conta do mundo, já eu estava confinado a maior parte do tempo. É certo que passei a ter o cuidado de me desinfectar e de usar máscara quando passeava pelo prédio, porque não queria contaminar ninguém.

O facto de toda a gente passar mais tempo em casa também fez com que redobrasse a minha invisibilidade, aumentasse o silêncio. Pude, então, ver ainda mais, conhecer melhor todos os vizinhos. Enchi os cadernos de vícios e de virtudes, fragmentos, pedaços, fatias de pessoas, juntei memórias e impressões, emocionei-me com gestos, senti vontade de intervir, mas isso está vedado a fantasmas ou a viajantes do tempo.

Não se passa impunemente por uma quarentena, mesmo aqueles que, como eu, já a praticavam. Senti-me outra vez criança e preciso de contar, de dar forma a estes apontamentos, de mostrar as pessoas de quem me escondi, as pessoas que se escondem.

São tantas as histórias que tenho pena de não ter contado: Beto Estrela, o artista pimba que obrigou a rua a ouvir o grande sucesso “Cor no cotovelo”; a mulher com fama de ninfomaníaca e tanta falta de proveito; o pintor impedido de ir ao estúdio que descarregou as tintas e as ideias na parede de casa e que continuou pelo interior do prédio; o homem que descobriu que era marido e pai, depois de estar adormecido tantos anos. Tudo nos obriga a esconder ou a revelar qualquer coisa.

Decidi escrever estas oito histórias. Se me perguntarem se são verdadeiras, não saberei responder-vos. O prédio existe, os apartamentos também, as pessoas de certeza.

Estou de saída. Há outra obra a começar. Meto tudo na mochila e sacudo o pó. Olho para as calças. Nunca se consegue sacudir o pó todo.

Comments

  1. Vila do Conde says:

    Foi pena acabado…

  2. Manuel Matos says:

    Não foi, já se sabe, quem faz casas quem fez estas histórias.
    As histórias, no entanto, também, por vezes, são como as casas. A gente mora, por instantes, ou por mais do que isso, ou até por muito mais do que isso, nelas. Numas, mais do que noutras casas ou histórias, entramos e custa a sair. Parece que algo nos prende lá dentro. Parece que já antes de a gente as ler, ou de nos as contarem, nós já estávamos lá e depois apenas nos reencontramos. Isso, por vezes, é triste. Muitas vezes ser triste não é tão triste assim.
    É nessas alturas que ser triste é bom. Quem já viveu, tal como com a Mãe, muitos anos numa casa onde já não vive(m), sabe como a suave tristeza de a (casa/Mãe) recordar por vezes, fazendo, muito tranquilamente, chorar, faz um doce chorar…

  3. Eucleto Artemidoro says:

    Apreciei o Relatório do Condomínio.
    Completo ? Tanta dedicação e sacrifício, nas águas furtadas ,
    produziriam um quase quasimodo mancando um pouco por mor da tal escada.
    Avante com as obras,sem desânimo, à cautela instale-se na 2ª sub-cave.


  4. Gostei muito destas crónicas. Oxalá tenham continuação, quem sabe se após conhecermos o prédio, iremos ler sobre o bairro. Final surpreendente, muito bom.

  5. Elvimonte says:

    Se o pano já desceu posso aplaudir. De pé.

  6. fmart@sapo.pt says:

    Felicitações pela qualidade da sua narrativa.

  7. César P. Sousa says:

    Nalguns momentos destes “apartamentos” senti que algo do Garcia Marquez ressuscitou através da sua imaginação.
    Obrigado António Nabais.

  8. Carla Romualdo says:

    Bravo! Venham mais.

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