Política aos pontapés

As autarquias portuguesas estão cheias de favores nem sempre indirectos a clubes de futebol da terra, com actuais e antigos autarcas em mesas de assembleia geral ou, até, em altas instâncias do futebol nacional, histórias de empreiteiros que tinham de dar dinheiro ao clube concelhio para terem direito a aprovação de obras, cedências de terrenos municipais em condições muito vantajosas para o usufrutuário e às custas de dinheiros públicos e um larguíssimo etc. de corrupção ilegítima e ilegal. O leitor pode divertir-se e aprender, fazendo, no dr. Google, buscas como “Presidente da câmara de (nome do concelho) futebol”.

A presença de António Costa na comissão de honra da candidatura de Luís Filipe Vieira é, apesar do contexto escandaloso, uma melancia do Entroncamento no cimo de um bolo já demasiado azedo. O primeiro-ministro tem, naturalmente, direito às suas preferências clubísticas, mas não pode tomar partido nem que seja na associação de chinquilho mais obscura, por mais honrada que seja.

O percurso de vida de Luís Filipe Vieira é, ainda, um melão de Almeirim em cima da melancia do Entroncamento, tornando aconselhável um afastamento diplomático da terceira figura do Estado e figura máxima do poder executivo do país.

Fica, no entanto, a ressalva relativamente a argumentos e comportamentos costumeiros: entre os críticos de Costa, há os que se esquecem dos pecados dos outros clubes e/ou dos outros partidos. O exercício da crítica, nestes casos, é só descaramento, mas a democracia também existe para os descarados.

Felizmente, este caso já não vem alterar o meu voto: em Costa, nunca votei; em Luís Filipe Vieira, também não. No primeiro, por opção; no segundo, porque, felizmente, sou só adepto – e não sócio – do Benfica, não de Vieira. Parafraseio, portanto, o cartaz que ilustra este texto: não tenho culpa. É fraco consolo, eu sei, mas sempre é um copo meio cheio. À vossa!

Comments

  1. João Paz says:

    E vergonhosa de facto a promuscuidade entre quem decide oferecer milhares de milhões aos banqueiros fraudulentos P”S” e P”S”D e quem recebe (perdão de dívida) do Novo Banco. Isto para não falar de outras investigações em curso em torno de Luís Filipe Vieira. A pouca vergonha impera.

  2. Rui Naldinho says:

    Uma das razões pela qual Portugal nunca sairá deste registo medíocre em que se encontra desde a sua fundação, tem muito a ver com a forma como os portugueses reagem a estes fenómenos, incluindo os da corrupção desportiva, os quais o autor aborda no seu texto.
    Para o comum adepto da bola, «o teu corrupto é sempre pior do que o meu». Este fenómeno é também recorrente na política com especial incidência na troca de galhardetes entre o PS e PSD/CDS, sobre os casos de corrupção, peculato, favorecimento, evasão fiscal, falências fraudulentas que envolveram gente de ambos os partidos, de forma directa ou indirecta.
    Tenho lido allumas explicações perfeitamente deslumbrantes, sobre este apoio de António Costa a Luís Filipe Vieira. A mais comum é, sendo todos os Presidentes de Clubes de Futebol gente pouco recomendável, estarão deste modo em igualdade de circunstâncias para serem criticados ou desculpabilizados.
    A outra é a de que já outros políticos de renome e ocupando altos cargos de magistratura fizeram o mesmo que António Costa.
    Ha muita mentira e desfaçatez nestes argumentos, querendo tomar-nos todos por parvos.
    Quando Ramalho Eanes apoiou Jorge Nuno Pinto Da Costa para Presidente do FC Porto, aparecendo na Comissão de Honra da sua lista, já não era Presidente da República. Tal como Marcelo Rebelo De Sousa não era ainda Presidente da República quando apoiou Salvador para Presidente do SC Braga. Logo esse argumento é falso. Mas mesmo que fosse verdadeiro, em nada desculparia o actual PM.
    Quanto à teoria assente no princípio do qual todos usam as mesmas armas nos bastidores, incluindo a corrupção desportiva e os favores, até seria capaz de aceitar uma generalização, não fosse o caso de Luís Filipe Vieira, para além disso, ser um dos muitos responsáveis pelo grande buraco financeiro no Novo Banco/BES, a par de outros galácticos nos negócios obscuros da banca. Isso faz toda a diferença.
    Eu estou para ver num próximo debate sobre o estado da nação, ao ser abordado o assunto Novo Banco/Fundo de Resolução aquilo que António Costa vai dizer sobre o assunto.

    • Filipe Bastos says:

      Quando Ramalho Eanes apoiou Jorge Nuno Pinto Da Costa…

      Não tem nada que apoiar. Como político em funções muito menos, mas ainda que nunca tivesse ocupado um cargo público ‘apoiar’ um cacique futeboleiro é algo rasca e deprimente.

      Temos é de acabar com este circo de ganância, carneirismo e corrupção a que chamamos futebol profissional. O Pintinho Mafioso era logo dos primeiros a ir.

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