A minha social-democracia é melhor do que a tua

Vejo por aí muita indignação com a afirmação de Marisa Matias, que se autoproclamou social-democrata. Vinda dos lados do PSD é irónico, visto tratar-se de um partido que, de social-democrata, tem apenas o nome. Poderá até tê-lo sido até ao início da década de 80, mas fechou a social-democracia numa gaveta, há muitos anos, e nunca mais de lá a tirou.

Vamos a factos: o PSD é um partido de direita conservadora, cada vez mais liberal no que toca a políticas económicas, característica que se começa a evidenciar com Durão Barroso e que atinge o ponto alto com Passos Coelho. Já a social-democracia, ideologia progressista que se situa no centro-esquerda do espectro, é filha do socialismo e neta do marxismo.

Outro facto: o PSD está filiado no Partido Popular Europeu, que agrega conservadores-liberais e democratas-cristãos, ocupando um espaço que vai do centro-direita à direita. Já os partidos social-democratas, todos eles, estão filiados na S&D (Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas, na tradução portuguesa) que ocupa o espaço do centro-esquerda.

Mais um: a social-democracia defende um Estado forte, interventivo e regulador, que impõe cargas fiscais relativamente elevadas (com nuances, é certo, mas sem fugir muito a esta lógica) com o propósito de financiar o Estado Social e redistribuir rendimentos, promovendo, desta forma, a redução das desigualdades e o acesso ao famoso elevador social. É isto que o BE defende, pese embora defenda um Estado ainda mais forte, mais interventivo e mais regulador que os social-democratas clássicos. Não obstante, o PSD, em particular nas duas últimas décadas, é um partido que defende um Estado mais fraco, menos interventivo e menos regulador, que deve entregar parte desse poder ao sector privado e que defende privatizações em sectores-chave do Estado-providência, como ficou bem evidente durante os anos do passismo.

Resumindo, o BE está, hoje, muito mais próximo do ideal e das políticas da social-democracia do que o PSD. E se o BE é um partido de esquerda, e o PSD um partido de direita, perceber qual dos dois está mais próximo do centro-esquerda parece-me bastante óbvio. Por outro lado, e com uma ou outra excepção, como é o caso do PCP, cuja ideologia, sem grandes desvios, está cristalizada há um século, partidos como o PSD, o PS, o CDS ou o BE não são ideologicamente homogéneos. PSD alberga liberais, conservadores e liberais sociais. O PS socialistas, social-democratas e progressistas. O CDS liberais, democratas-cristãos, conservadores e ultraconservadores. O BE socialistas, socialistas democráticos, trotskistas e, sim, social-democratas.

Eu sei que a ideia de uma aproximação do BE à social-democracia apoquenta muitas pessoas no PSD. Porque essas pessoas sabem bem que o PSD é, essencialmente, um partido conservador, onde a boa velha social-democracia começou a falecer no dia em que Sá Carneiro partiu. E se o PSD pôde fazer o seu percurso político-ideológico, afastando-se da social-democracia e aproximando-se do conservadorismo e do liberalismo, porque motivo não pode o BE afastar-se do socialismo trotskista e aproximar-se da social-democracia? A resposta é simples: porque esta possibilidade faz cair a última grande lengalenga político-partidária deste país, que reside na nomenclatura de um PSD que tem tanto de social-democrata como a Coreia do Norte tem de República Popular Democrática.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    O PSD nunca foi social democrata em toda a sua existência.
    Durante o PREC vestiu essas roupagens, mais por instinto de sobrevivência do que por razões ideológicas. Terminado o período revolucionário e estabilizado o regime, começou logo a pôr tudo em causa, até as nacionalizações, por exemplo, da Banca, que tinham votado favoravelmente. À seguir foi o Conselho da Revolução. Depois foi o próprio Presidente Ramalho Eanes. Extinto o Conselho da Revolução com a Revisão Constitucional de 1982, foi criado o Tribunal Constitucional, mas até esse foi posto várias vezes em causa, como aconteceu no tempo de Cavaco Silva como Primeiro Ministro, e pior ainda, como Presidente da República.
    O PSD tentou por diversas vezes entrar na Internacional Socialista, mas sem sucesso.
    O PSD formou-se na base a ala liberal da antiga Assembleia Nacional, cujo partido dominante, do regime, era a ANP ( Acção Nacional Popular). Ali pontificaram Francisco Sá Carneiro, Miller Guerra, Magalhães Mota, Pinto Leite e Mota Amaral.
    Para mim, caricato é André Ventura ter saído daquele partido que se intitula de Social Democrata. Partido esse que albergou até hoje quase todos os presidentes das Confederações Patronais, mas nunca nenhum secretário geral das duas Centrais Sindicais.

    • Pimba! says:

      Por acaso durante o PREC ainda era PPD, era “popular” e näo “social”. Mas isso de popular é do povo e os ricos que lá estavam näo gostam de misturas , gostam é de eventos sociais… “olha, muda o nome para este, que já nos apraz”!


  2. É muito curioso ver que o PSD está a ser abocanhado à sua direita por CH e IL (ainda que somadas os votos sejam os mesmos) e agora, não sei se de forma inteligente ou não, a ver-se atingido na sua ideologia aparente pelos partidos de Esquerda como o BE e PCP a dizerem-se sociais democratas. Caso para dizer “Social Democracia”, quem vai ao ar, perde o seu lugar.
    Como eu digo muitas vezes, nem o PSD é social democrata, nem o PS é socialista. No entanto, no espectro político, aos poucos, e quase sem se dar por isso, os partidos rumam todos para a sua direita.


  3. Sá Carneiro no seu tempo já dizia: “Menos estado e melhor estado”. Para um SD de gema, nem está muito mal….

    • POIS! says:

      Pois foi!

      É uma obra inigualável desse memorável fadista que foi Sá Carneiro. Antes só Marceneiro se tinha atrevido a cantar o tema, mas numa versão diferente: “Menos estado em mau-estado”.

  4. Filipe Bastos says:

    Ah, a velha guerra de etiquetas: quem é social-democrata, quem é socialista, comunista, maoista ou trotskista, quem é mais liberal…

    A ideologia do PSD é ter poleiro e tacho. É essa a prioridade nº 1, nº 2, nº 3, até à 145. Garantido o poleiro e o tacho, em 146º lugar são sociais-democratas light: querem menos Estado, sim, mas também não a selva ‘neoliberal’.

    Aceitam que a ralé tenha Estado Social, para não faltar ao trabalho e para não furar os pneus ao BMW do patrão. No resto, como toda a direita, enchem mamões e veneram o ‘mercado’. É para lá que vão mamar após o tacho pulhítico.

    Já o PS vende-se ao mercado, mas venera o Estado: alguns xuxas vão para mamões privados, como o Pinho dos cornichos, o Pina ‘Teta Eléctrica’ Moura ou o Amado Mão-Estendida, mas 95% da mama xuxa é pública. Daí o amor estatal.

    Será mais social-democrata? É como discutir as subtis diferenças de tom, cor e cheiro numa latrina. Um dúbio entretém.

    • JgMenos says:

      Só o comunismo é puro e límpido como os fdp que o pariram lá no ano de 1917, e dele fizeram bandeira se sangue e opressão que faz do Hitler um menino-de-coro.

      • Burro mais burro não há! says:

        Só mesmo um asno para dar uma de intelectualoide e falar de social democracia.
        O burro mistura a Social Democracia com o comunismo. Está-se mesmo a ver a analogia.
        È bem verdade que os estalinistas e maoistas mataram muita gente. Da mesma forma que os nazis fizeram coisa parecida. Isto já para não falar dos europeus que no continente Americano reduziram os indígenas à insignificância. Aquilo a que o Ocidente nunca reconheceu, o genocídio das populações nativas, vulgarmente conhecidos por índios. Sejam eles Sioux, Comanches, Apaches Navajos, na America do Norte, os Aztecas na América Central, os Incas, Guaranis, etc, etc, na América do Sul. Europeus, que no século XVI e XVII transportaram milhões de escravos africanos para o novo continente.
        Em matéria de genocídios venha o diabo e escolha.
        Menos, burro mais burro do que tu, não há!

      • POIS! says:

        Pois e já para não falar de um tal Salazar.

        Que não era menino para coros. Era antes um orgulhoso solista. Quem não se lembra do célebre faduncho “Orgulhosamente sós”, que cantava na sua linda voz de soprano, acompanhado à guitarra pelo Toino Peniche, à viola pelo Zé Tarrafal, com o Alfredo Caxias no baixo?

        Às vezes lá ia um terno dueto com o fadista Manel Cerejeira, mas coros, nunca.

      • Paulo Marques says:

        Não se esqueça da opressão de Sykes-Picot, da fome na Índia, do apartheid ou do genocídio palestiniano. Mãos cheias de sangue não faltam.

    • Filipe Bastos says:

      Para seu alívio e alegria, Jg, e o alívio de todos os fãs do capital, sejam mamões ou carneirinhos otários que esperam vir a sê-lo.

      Já imaginou o horror se corresse bem? Se uma alternativa à ganância e egoísmo do capitalismo fosse boa e se espalhasse? Se a malta começasse a reclamar mais poder, mais igualdade, mais redistribuição, menos mama?

      Deusnoslivre, nem pensar. Que isso continue uma utopia; que ditadores assassinos continuem a chacinar russos, chineses, coreanos, cubanos, cambodjanos e quem mais se atreva a contrariar a hegemonia capitalista.

      Querem lá vocês saber dos russos ou dos chineses. Fingem-se chocados, mas adoram que corra mal. E vai correr sempre mal. A canalha americana certifica-se disso.

    • Paulo Marques says:

      Olhe que não, a intenção de vários membros do PSD não é tacho, são reformas que só por acaso beneficiam quem lhes vai oferecer emprego, seja pelos serviços prestados à nação ou pela posição monopolista, sem esquecerem de manterem a porta giratória e o acesso privilegiado aos decisores futuros.
      Eficiência de mercado.

  5. JgMenos says:

    A social-democracia na mais explícita versão ‘dá cá o teu’.

  6. Tal & Qual says:

    Sá Carneiro era um social-democrata que se inscreveu no partido único de uma ditadura fascista para mudar o regime por dentro rumo à social-democracia, modelo corporativo.

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