Nenhuma nação foi bem-sucedida pondo em prática políticas de esquerda, excepto todas as que foram

Sempre que alguém ousa tecer uma crítica aos abusos do capitalismo, na sua forma mais selvagem e desregulada, rapidamente surge alguém que nos recorda uma de duas coisas (ou ambas): que 1) Cuba e Venezuela existem e que 2) nenhuma nação foi bem-sucedida pondo em prática políticas de esquerda.

Sobre o primeiro ponto, é interessante verificar que raramente se traz a China para esta equação, apesar de se tratar de um regime que monitoriza, persegue e oprime os seus cidadãos como nenhum, talvez com a excepção da Coreia do Norte. Imagino que tal não seja alheio a uma das características desse incriticável capitalismo, na sua forma mais selvagem e desregulada: a China é o seu motor. E porque, é bom dizê-lo, não faltam governos e governantes, no ocidente democrático, a sonhar com um poder (proporcionalmente) igual ao de Xi Jinping. Erdogan, Orbán, Bolsonaro, Borisov ou Morawiechi, os candidatos acumulam-se e já nem se dão ao trabalho de dissimular.

Contudo, é no segundo ponto que se encontra a grande falácia que importa desmontar. A ideia de que nenhum Estado prospera com políticas de esquerda. E essa ideia esbarra imediatamente nos países nórdicos, a total antítese do culto do Estado mínimo, onde um vasto e sustentável Estado social fornece serviços essenciais gratuitos, ou sujeitos a taxas irrisórias, e preenche praticamente todas as lacunas sociais, assente numa receita fiscal elevada, o maior pesadelo dos partidários de um certo liberalismo hardcore.

E quem fala do Estado-providência, fala no sector publico. Outro papão que não pode ter outro fim que não seja a privatização. Na Suécia, o Estado tem e controla na totalidade empresas públicas nas áreas dos caminhos-de-ferro, da farmacêutica, logística, jogo online, bebidas alcoólicas, para não falar na gigantesca eléctrica. O cenário não difere muito na Noruega, Dinamarca e Finlândia.

Muitos defendem, e imagino que com razão, que as economias escandinavas são mais competitivas porque o Estado intervém menos do que em países como Portugal. Tal não impacta, a meu ver, o essencial: que a base sobre a qual assentam as sociedades sueca, dinamarquesa, finlandesa e norueguesa é ideológica e estruturalmente de esquerda, filha do socialismo e neta de tipos ainda mais perigosos como Owen ou Marx. Não é um modelo comunista, ou sequer socialista, mas partilha com eles a mesma árvore genealógica.

Aliás, se olharmos para os 100 últimos anos, verificamos que o centro-esquerda governou ou liderou governos na Noruega durante 49. Na Finlândia durante 58. Na Dinamarca durante 60. Na Suécia durante 75. Governos que construíram, expandiram e ajudaram a conservar um estado social enorme, assente numa tributação fiscal pesada, e com mais funcionários públicos, face ao total da população empregada, que qualquer outro país europeu. Vão me desculpar, mas “ter uma economia mais liberal” não chega para reescrever a história. A prosperidade decente, aquela que permite que a economia seja livre o suficiente para prosperar, sem se transformar num eucalipto que seca tudo á sua volta, através da regulação e da redistribuição, veste esquerda. O que não invalida que a direita conservadora e liberal não tenha contribuído para o sucesso destas e de outras sociedades geridas de forma idêntica. Mas importa desmistificar esse papão chamado esquerda. Até porque, se noutras paragens a coisa poderá parecer não funcionar, tal deve-se mais às pessoas e à sua gestão, do que à eficácia das ideias e das políticas em si. Mas isso não se resolve com esquerdas nem direitas. Resolve-se com Educação e Cidadania.

Comments


  1. Faltou dizer que os relativos insucessos de Cuba, Venezuela ou Grécia, etc, têm muito a ver com as pesadas sanções e bloqueios que o amigo americano+UE não se cansam de impor a todos os que rejeitem a subserviência ao american way of life.

    • xico says:

      Os insucessos de Cuba e Venezuela devem-se unicamente ao totalitarismo dos seus governos e ao desprezo pelas suas populações de onde fogem os melhores quando podem. Qualquer comparação com os países nórdicos é um insulto. Não sabia que a UE tem sanções e bloqueios contra Cuba.

      • Paulo Marques says:

        Sim, claro, só precisavam de se tornar auto-suficientes para não dependerem dos estados-clientes nem de passar bloqueios navais. Coisa pouca.

  2. JgMenos says:

    Ampla demonstração de quanto a esquerdalhada é um pântano ideológico.
    Não me consta que nos países nórdicos tudo que é patrão seja ostracizado como facínora explorador como faz a cretinagem esquerdalha lusa.
    Não me consta que os chefões cubanos tenham menos poderes que o cacique chinês, e o Maduro só se queixa de não ter confiança nos vizinhos.

    A esquerda indígena só tem por caraterística fundadora ser ora estúpida ora corrupta, sem rumo nem credo permanente outro que não o da gritaria de palavras-chave propostos para consumo externo por defuntos impérios socialistas.

    Mais do que papão a esquerda lusa é um incómodo, um aborto operativo, uma nódoa persistente, um desincentivo constante.

    • Paulo Marques says:

      Se calhar porque o patrão nórdico concorda com os direitos laborais invés de passar o dia a queixar-se de quanto custam e porque é que não recebem mais subsídios para “criar emprego”.
      O que vale é que a direitola tuga nem é burra e prevê perfeitamente o efeito de uma quebra na procura, nem é corrupta ao ponto de se associar à banca estável e colocar facilitadores em tudo que é empresa a viver de rendas e monopólios. E coerente, o que ontem era uma aposta essencial na Flórida da Europa, hoje foi um devaneio socialista.

    • POIS! says:

      Pois claro! Aqui vai a resposta, vagamente inspirada num comentário de um conhecido salazaresco:

      “A direita indígena só tem por caraterística fundadora ser ora estúpida ora corrupta, sem rumo nem credo permanente outro que não o da gritaria de palavras-chave propostos para consumo externo por supostos prósperos impérios capitalistas.

      Mais do que papão a direitrolhada lusa é um incómodo, um aborto operativo, uma nódoa persistente, um desincentivo constante”.

      Diga lá que não ficou bem! Fui eu que inventei!

    • anticarneiros says:

      “um aborto operativo”

      Um aborto ideológico, a falar de abortos.

      És um masoquista menor, repugnante criatura

  3. POIS! says:

    Quando alguém se intitula de esquerda está lixado. Carrega imediatamente milhares de anos de história. Torna-se logo instantaneamente responsável por tudo o que de mal aconteceu, desde as grandes pragas do Egito até à Revolução Cultural.

    Já a direita é mais fina: corta ás fatias. Quando não convém, não esteve lá, esteve mas enganada, não podia antecipar circunstâncias. E, se não chegar, há sempre mais um argumento: foi há muito tempo, o líder era outro.

    O PSD teve alguma coisa a ver com a criminosa invasão do Iraque? Ora essa! E a bomba de Hiroshima? Já foi há muito tempo. Foram só meia dúzia de pessoas que houve que sacrificar para acabar com a guerra.

    E o golpe do Chile? Foi pena, era para “restaurar a ordem”, só que “houve abusos”. E a ditadura no Brasil? Foi transitória. E os massacres na Indonésia para evitar que a esquerda chegasse ao poder por vias pacíficas? E a invasão de Timor Leste? Foram “acidentes”.

    Ultimamente, e para desculpar o carinho com que tratam o “Chega”, os delírios aumentaram. Morais Sarmento viu o Bloco dar vivas à Coreia do Norte. O Albuquerque da Madeira viu-o adorar Fidel de Castro. Outros tentaram até colá-lo ao regime angolano do MPLA desconhecendo que, historicamente, as forças políticas que deram origem ao Bloco nunca se deram com o MPLA, apoiando ativistas angolanos de diversas tendências que foram ferozmente perseguidos. Ao contrário do PSD e da Direita em geral que, quando lhes farejou os petrodólares, se marimbou na falta de democracia.

    Mais uma pergunta: quem é que andou aliado aos maoistas reconhecidos pelo regime de Pequim (o PCP-ml/AOC) em 1975? O PCP? O PSR? A UDP? Nada disso! Foi o…PPD, agora PSD! E também o PS, este mais com o MRPP. Eu vi, pessoalmente, os sindicalistas da UGT sentados ao lado de Arnaldo de Matos durante um congresso de Comissões de Trabalhadores em 1975 e a aplaudi-lo entusiasticamente nas suas diatribes anti-capitalistico-social-fascistas, pela ditadura do proletariado e a revolução operária. Estava lá porque o acesso era público, acrescento.

    As origens do “bom tratamento” dado ao regime chinês vem, aliás, daí. Os “excessos maoistas” estão perdoados. A China é um exemplo para o Mundo! Vivam os negócios! O liberalismo floresce no Vietname! Viva o Partido Único!

  4. JgMenos says:

    Saem periódicamente da toca os esquerdalhos ‘moderados’.
    Estão de acordo com todos os princípios da esquerdalhada radical , mas apelam ao voluntariado: distribui o que tens, vê a tua empresa como uma cooperativa, junta-te a nós os da sensibilidade social, professa a crença da igualdade, essa bem-aventurança de homem-novo que conhecerás logo que te despeças dos teus bens.
    São tempos de pausa, amordaçam a sanha predatória preparando nova vaga de medidas justas e urgentes…

    • joão lopes says:

      Olha o Diogo Pacheco de Amorim,vê la se as antigas bombas do MIRN não te rebentam nas fuças.

    • POIS! says:

      Pois temos que reconhecer!

      Que profundidade! Que desencantado libelo acusatório da sociedade esquerdizada e esquerdizante, sufocada e sufocante, voluntariada e voluntariante, rumo ao fatal destino a que não pode escapar e que nos cairá em cima, não tarda nada, após esta breve pausa com que nos adormecem de cansaço para nos entorpecer de sono e letargia.

      Mas V. Exa, ao Menos, resiste! Ninguém o fará despedir-se do seu modesto pechiché e do seu vaso de noite que acompanham a sua existência desde os tempos imemoriais das saudosas vacas obesas, mas belas, quando, à luz do petróleo, devorava literatura de Soares de Passos, Feliciano de Castilho e Odette de Saint Maurice. Que não lhe falte a força, ó Menos!

    • José Peralta says:

      João Mendes

      Excelente o seu artigo com o qual concordo totalmente !

      Quanto ao JgMenos :

      “Saem periódicamente da toca os esquerdalhos ‘moderados’.

      Como eu sou um esquerdalho moderado, faço “copy-paste” deste fragmento do meu comentário no post de João Nabais sobre o “Tino de Rans” :

      Vejam lá ! Acham que JgMenos, um personagem que mesmo que não o conheçamos pessoalmente, alguns dos Democratas que aqui vêm, pensam que ele tem alguma c “preocupação” com a defesa e preservação da Democracia ?

    • Paulo Marques says:

      Além de confundires a esquerda com a Isabel Xonet, ainda fazer de conta que as cooperativas não são um modelo empresarial; e de sucesso, de resto.
      São posts como este que me fazem acreditar que és a Maria da Luz recauchutada.

  5. Filipe Bastos says:

    O modelo escandinavo é algo difícil de replicar: não tanto pela dose certa de esquerda e de direita, mas pela conjunção de factores que tornam os escandinavos… escandinavos.

    Por várias razões – geográficas, históricas, até genéticas – os povos têm certas qualidades e certas lacunas. Não indivíduos; povos. Um português pode ser frio, um cigano pode ser probo, um sueco pode ser baldas. Mas não é essa a regra.

    A homogeneidade racial e cultural da Escandinávia, a pequena e esparsa população, a entreajuda racional, são factores que não se encontram, pelo menos juntos, noutros lados.

    Outro factor é a condenação social de quem transgride e abusa do sistema. Compare-se com Portugal, ou o Aventar, onde chulos e trafulhas são alegremente tolerados. Quem se opõe é visto como justiceiro, como “taxista”. Depois admiramo-nos.

    • joão lopes says:

      Os taxistas é que dizem que as “leis são como as virgens,servem para violar”.Pois é ,a conversar é que a gente se entende,mas as pessoas não sabem sequer falar, é fascistas,ele é comunas,ele é chulos,ele é pulhas.Olhe leia o Eça.

    • POIS! says:

      Pois é! Tem razão!

      O Sr. Bastos é, por aqui, alegremente tolerado.

    • Paulo Marques says:

      Como se há 80 anos não estivessem cheios de fachos a quererem aliar-se ao bigodinhos. Gostas é de louros altos e fortes.

      • Filipe Bastos says:

        Todos os países tiveram simpatizantes nazis, até a Inglaterra e os EUA, a Irlanda ou Portugal.

        Os países escandinavos foram ocupados ou compelidos, nunca aliados nazis. Até os finlandeses, com boas razões para se vingarem dos russos, ficaram muito aquém do que podiam ter feito.

        Aprecio o bom humor, mas sabe que isso é disparate.

        • Paulo Marques says:

          Não foram, mas era uma possibilidade bem real, e não só pela posição geográfica.
          Mas pronto, sendo sérios, uma coisa é unidade cultural, outra é unidade étnica; misturar as duas é preguiça intelectual. Basta andar pelo minúsculo Portugal e ver enormes diferenças culturais, mesmo ignorando as zonas “diversas”. O que é necessário é vermo-nos como pessoas, a quem exigimos e apoiamos, e isso vai morrendo em todo o lado. Outra vez. Mesmo havendo ciência a dizer que é mau para a economia.

  6. Filipe Bastos says:

    Para mim, a eterna discussão esquerda/direita é sobretudo moral. Tendemos a fugir a questão morais, pela sua subjectividade e pela habitual ligação a religiões e outros tabus sociais.

    Há que tocar na ferida, nas motivações de cada lado, incluindo as do nosso. Ganância, inveja, egoísmo, a ânsia de ter razão, o desejo de controlar ou moldar os outros à nossa vontade, são forças que existem dentro de todos, mas que todos fingem ignorar.

    Isto traz questões que são inevitavelmente morais e exigem juízos de valor. A igualdade é algo bom e desejável? A ganância é má e condenável? Pode-se ter muito mais que os outros? Alguma inveja pode ser justificada? O que pode ser sacrificado para obter um mundo mais justo? E o que é mais justo?

    A discussão centra-se geralmente no que funciona; daí ambos os clubes reclamarem a Escandinávia: é rica, limpinha, organizada. Funciona. Mas não devia ser essa a questão. A questão devia ser que mundo queremos ter. Se não funciona, tem de funcionar.

    • Paulo Marques says:

      A questão esquerda/direita é sobretudo sobre quem tem poder, quem trabalha e cria riqueza, ou quem manda porque nasceu na família certa, bem como da subsequente ordem mais horizontal ou vertical.
      Sei que é difícil numa altura em que a “esquerda” “responsável” cede em tudo e mais alguma coisa há longas décadas, mas a realidade nunca mudou. Nem o falhanço, a todos os níveis, da desregulação. Com o azar de, desta vez, nem o clima se safar.

    • Filipe Bastos says:

      O pior inimigo da esquerda tem sido a esquerda. Entre tanta ditadura e desgraça pseudo-comunista, bastava ao capitalismo ser um bocadinho melhor, bastava os mamões mamarem um bocadinho menos, e já nem havia esquerda.

      O último tiro no pé: a histeria woke.

      • Paulo Marques says:

        A história foi o que foi, e o que era uma boa ideia no início manteve o apoio muito depois de ter apodrecido. O mesmo acontece a fases do capitalismo, mas esse sabe-se que inevitavelmente leva a intra-conflito graças ao decrescimento da taxa de lucro, por isso, não, não “bastava ao capitalismo ser um bocadinho melhor”, era impossível. Pelo menos sem grandes intervenções musculadas de poder público.
        Quanto aos preconceitos, pá, continua ninguém a impedi-lo, continua a ser produzida inúmera cultura a denegrir todos os grupos; se ignorar as redes sociais, pode continuar a ser tão discriminatório quanto quiser. O que muda é que tem mais pessoas a rir-se de si, porque é mais fácil às pessoas decentes ouvir as experiências de quem passa por coisas impensáveis todos os dias.

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