O Mecenato Científico: Leilão Europeu

A União Europeia aconselha todos os seus Estados-Membros a administrarem a vacina da gigante farmacêutica AstraZeneca.

Ora, segundo notícias vindas a público, a farmacêutica registou, no último ano, lucros de 2.592 milhões de euros, naquilo que representou um crescimento de 159% em relação ao período homólogo do ano passado. O lucro baseado nos males é bala do capitalismo, sabemos. Por tal, não é a AstraZeneca a parte culposa. Esse papel está reservado, nesta situação, à UE, que se apresenta como um meio para chegar a um fim – o lucro dos seus parceiros económicos.

Tendo por base estes dados, concluímos que as desigualdades se manifestam, também, no acesso à vacina. A monopolização da vacina, em que uma das produtoras enriquece em larga escala graças a essa mesma monopolização, tendo como braço armado a UE na sua defesa e adjudicação, não beneficia nem os cidadãos europeus dos países pertencentes à União, nem o resto do Mundo (ao qual a UE também tem de saber chegar, no sentido de esbater as desigualdades existentes).

Fica provado, mais uma vez, o carácter neo-liberal da UE, que comanda e impõe, estando mais interessada em enriquecer poderes alheios, em vez de chegar a todos os seus cidadãos de igual forma sem olhar aos lucros. É, também nisto, que se vê o carácter capitalista e pouco humanista de uma “união” que me parece cada vez mais afastada de si mesma.

Se para o comum cidadão os anos de 2020 e 2021 ficarão na memória como um dos piores do novo milénio, para a farmacêutica britânica estes anos serão, citando Bryan Adams em Summer of ‘69, “the best days of my life”.

Foto: Dado Ruvic – Reuters

Comments

  1. Luís Lavoura says:

    Claro. É evidente desde o primeiro instante que a União Europeia pretendeu usar a epidemia para fomentar as empresas farmacêuticas ocidentais, em detrimento de potenciais concorrentes. É por isso que nunca se pôs em questão adquirir a vacina russa ou a vacina chinesa, ou apoiar a investigação e desenvolvimento de vacinas noutros países que não os ocidentais.

    • Rui Curado Silva says:

      A primeira vacina validada, a da BioNTech, foi desenvolvida graças a uma bolsa europeia, uma ERC, que usa o método no RNA mensageiro e não o próprio vírus (envolve mais riscos) como a vacina chinesa. A BioNTech era uma pequena empresa de um casal de imigrantes turcos na Alemanha. A BioNTech, desde a primeira hora foi a escolha privilegiada da Comissão Europeia. As vacinas russas e chinesas aqui referidas só muito tardiamente disponibilizaram a informação necessária para que se iniciasse o processo de validação nos restantes países do mundo. Não se validam vacinas por palavra de honra.

    • Paulo Marques says:

      E bem, não viu a Rússia, China ou EUA a fazer diferente, a auto-suficiência é importante. O problema foram as garantias nulas.
      Agora não adianta, é esperar que a produção aumente.

  2. Antonio Patricio Rodrigues says:

    A fuçanguisse com que a firma AstraZeneca trabalhou para impor a sua vacina aos europeus, é indigna e bem reveladora dos objectivos da empresa em realizar acima de tudo lucros enormes em detrimento de ajudarem os europeus a ultrapassar uma crise grave. O governo português devia ser suficientemente digno de se opor a esta barbárie colonizadora e rejeitar a vacina britânica. Há outras mais baratas e melhores.

    • Rui Curado Silva says:

      A vacina da Astrazeneca foi o último lixo que o Boris Johnson impôs à UE antes do Brexit. Enganaram os restantes europeus quanto à sua real capacidade de produção e até os dados científicos quanto à eficiência foram proclamados acima da sua real prestação.

  3. Filipe Bastos says:

    Infelizmente, a carneirada viu esta vacina como mais um triunfo do capitalismo; não como mais uma demonstração da absurda e indecente privatização do que devia ser um património e uma causa comum – a saúde pública.

    Em vez de se questionar este retrocesso civilizacional que é a saúde privada e a big pharma, a dúzia de mamões que prospera com os males do mundo ainda saiu reforçada disto.

    São vistos como nobres heróis que – em troca de lucros obscenos, é verdade, mas ‘também têm de ganhar a vida’, pensa o homem da rua, o carneiro da rua, encolhendo os ombros – trabalharam non-stop, coitadinhos, para nos salvar do terrível covidas.

    E sem o capitalismo e a mamona big pharma, conclui o carneiro vacinado ou por vacinar, jamais teríamos vacina! Deusnoslivre.

    Após décadas de propaganda capitalista e histeria anti comuna, com numerosos e escabrosos exemplos pelo mundo fora, é muito, muito dífícil levá-lo a pensar de outra forma. Ou sequer a pensar.

    • João L. Maio says:

      A carneirada faz “mééé”, não vocifera contra o capitalismo.

      “(…) não como mais uma demonstração da absurda e indecente privatização do que devia ser um património e uma causa comum – a saúde pública”. Se o capitalismo prolifera é óbvio que a saúde pública sai enfraquecida. É mesmo esse o perigo e a putrefacção do capitalismo.

      O que vale é que a carneirada está a dormir, em vez de balir. Ou assim acha o Filipe.


  4. Não me custa ver pessoas ou empresas ganhando milhões desde que seja honestamente. O mesmo não posso dizer quando são fortunas ganhas (roubadas) com esquemas fraudulentos do tipo short selling destruindo empresas ou do tipo fuga a impostos usando paraísos fiscais.
    Se eu fosse dono da AstraZeneca, só vendia vacinas já acabadas de fabricar e a entrarem para o avião. E só vendia por leilão.
    Quem chora pelos cantos por causa das vacinas não chegarem a preço social aos países mais pobres é, costuma ser, um defensor da economia de mercado. Portando um defensor da venda, a privados, de bens e empresas estratégicas que são do Estado.

    • Paulo Marques says:

      Pois, só há um probleminha, sem vendas antecipadas (ou outro tipo de financiamento estatal), não havia financiamento sequer para testes, quanto mais produção – quer na vacina, como qualquer outro medicamento.
      Enquanto se quiser a “eficiência”, também temos o lucro desnecessário. Não temos é um mercado livre, mas isso não existe.

  5. abaixoapadralhada says:

    Galvão

    “Não me custa ver pessoas ou empresas ganhando milhões desde que seja honestamente”

    Define honestamente !


    • “abaixo…”, eu dou um exemplo. Trabalhei numa empresa que produzia materiais de construção que lançou um produto copiado de Itália, mas não protegido por patente. A capacidade de produção foi baixa de início e a procura era enorme. Todos os arquitetos punham em seus projetos aquele produto.
      Muita procura e pouca capacidade de produção, resultou em negociarmos o produto 5 (cinco) vezes acima do preço “justo” de mercado. Isto é, o preço atual. Foram 3 gloriosos anos até que as outras fábricas começaram a fazer esse produto, até que o preço baixou. Lei da oferta e da procura.
      Só em situações de combinação de preços ou de monopólio é que devemos considerar que preços altos são desonestos.

      E se houve estados que financiaram o desenvolvimento da vacina deviam tê-lo feito salvaguardando a capacidade desses estados de controlarem a produção e as vendas do produto, com investigadores seus no interior do laboratório, em lugares chave, mandatados para isso pelo estado, e aceites pelo laboratório.

      A Senhora Van der Leyen quis dar-se ares de grande filantropo mas, na verdade, deve ter mentido em toda a linha. E se pagou a totalidade do produto antes de o receber, cometeu um erro ridículo, que nem uma criança de 20 anos comete.

      • Paulo Marques says:

        Os estados têm sempre investigadores dentro do laboratório, é a maravilha da criação de emprego neoliberal…
        No caso da sra, e de muitos outros eurófilos, a navalha de Occam a esta altura sugere que são completamente incapazes de entender que o mundo não funciona nada como a finança lhes continua a vender, ano após ano após ano. Mas não acho que tenha havido possibilidade, na altura que foi, com os constrangimentos institucionais que há, de não pagar antes, só de ter outras garantias e/ou não confiar tanto no plano A. Mas lá se ia a ideia que aumentar a quantidade de moeda é necessariamente mau…

  6. Filipe Bastos says:

    “Não me custa ver pessoas ou empresas ganhando milhões desde que seja honestamente.”

    Nem a mim, desde que se defina limites e desde que se taxe a 100% tudo que os exceda. Lucros, riqueza, património, tudo.

    A lei da oferta e da loucura, como alguém lhe chamou, é um exercício giro para a escola, para um jogo ou uma simulação. Deixamos um computador a correr e vemos o que acontece. Mas deixá-la em roda livre no mundo real é absurdo e nocivo.

    A empresa do caro Oavlag mamou à grande em certo produto. E achou isso lindamente, claro. Pois é por essas e outras que temos o mundo merdoso que temos, com a desigualdade gritante que temos, e o culto da ganância e do enriquecimento a todo custo.

    Nem tudo que é legal é honesto, justo ou moral. Mais ainda na saúde, onde milhões – mesmo em países ricos – sofrem e morrem pela ganância de alguns mamões. Nenhuma sociedade decente pode fazer da saúde um negócio. É obsceno.


    • Filipe, estou completamente de acordo que nem tudo o que é legal é honesto (offshore, consertar preços, mentir na difusão de notícias e não ser punido, fazer julgamentos na praça pública em vez de usar os tribunais, corromper e ou ser corrompido e não ser punido).
      Por isso as democracias de inspiração anglo saxónica estão em declínio (coletos amarelos, trumpistas, bolsonaristas).
      100 anos depois, caminhamos a tentação totalitarista renasce das cinzas…

  7. JgMenos says:

    Fica confusa esta questão da saúde pública.
    Uma dor de dentes é saúde pública?
    Uma ressaca de noite de copos é saúde pública?
    Uma vacina para prevenção de doença contagiosa é saúde pública?

    «Fazer da saúde um negócio» é de proibir de todo, ou só na saúde pública?

    E o Estado dedica-se a praticar o quê, a saúde pública ou a saúde do público?

    • POIS! says:

      Pois lá está!

      V. Exa. não compreende porque revela um intrigante caso de falta de saúde privada. Pelo menos do pescoço para cima e na parte de dentro.

      Vejamos se conseguimos encontrar a resposta para as tão refinadas e candentes questões que apresenta (ficamos pelas primeiras três por falta de conhecimentos mínimos de Sânscrito, língua em que V. Exa. se revela uma sumidade):

      Primeira: Uma dor de dentes não. Mas da placa já pode ser. Pode ser efeito do bicho do azulejo, esse terrível predador que ataca a cerâmica. V. Exa. deve ter sido contaminado na sua última visita às Caldas. Parece que há muito por lá, o melhor é desfazer-se dos objetos que trouxe.

      Segunda: Neste caso, pelo Menos, não. Até porque V. Exa. nunca dá tempo a ressacas. Avia mais um shot e está o caso arrumado. Nada de aspirinas, que fazem muito mal ao fígado. E nada de comida, que só atrasa o efeito. “Evite a ressaca, mantenha-se bêbedo” é o lema.

      Terceira: depende! Se V. Exa. for o dono da doença, se ao Menos a comprou e obteve com o seu sacrifício, usando a sua legítima poupança, é privada. E pode ter a certeza que neste caso não há esquerdeiros que lha queiram roubar. Para mais quando se sabe que V. Exa. adquiriu em leilão um raríssimo exemplar do vírus da salazarite pesporrente que usa com orgulho. É seu, qual “”pública” qual quê!

  8. JgMenos says:

    E os lucros?
    Que horror!
    Ainda se fosse a dar chutos numa bola, agora a lucrar com a saúde das pessoas?!?

    • POIS! says:

      Pois é!

      Tanto que a malta da bola se podia divertir a levar picadelas e a pagar bilhete para ver os outros a fazer caretas! E a gritar “urso” e “filha de uma mãezinha pouco recomendável” quando um enfermeiro apontasse mal a seringa!

      E esta malta prefere os gajos da bola! Escandaloso!

      E o pior é que nem a chutos de Ronaldo se consegue esborrachar o bicho! Já foi experimentado na Alemanha e houve um COVID que defendeu três penalties do Lewandowski!

    • Paulo Marques says:

      Lucros? Ó cromo, aumentar a saúde de quem trabalha aumenta os lucros, já pensaste nisso?
      https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0204940#sec006


      • Isso de a saúde aumentar a produtividade dos trabalhadores é bem verdade. Porém os laboratórios que fazem medicamentos não trabalham para os patrões em geral (principais interessados na produtividade), trabalham para os acionistas.

        • Paulo Marques says:

          E seriam impossíveis de existir sem contribuições directas dos estados, dados os custos de investigação e teste.
          É mais um caso do capitalismo se comer a si próprio, sim.

    • Filipe Bastos says:

      Por acaso é bem visto, Jg, os broncos futeboleiros também precisam de limites. São três vezes nocivos:
      — branqueiam mamões;
      — normalizam a desigualdade extrema;
      — distraem a carneirada do que interessa.

      A remuneração do entretenimento – desporto, música, cinema, seja o que for – deve ser limitada a, quando muito, cinco a dez vezes o salário médio. E já é generoso.

      • Paulo Marques says:

        Já ficava contente se a renumeração ficasse distribuída pelos seus colegas invisíveis e cada vez mais precários que lhes garantem as condições para que possam ter sucesso.

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