Odemiração

Um dos meus melhores amigos vive na minha memória. Tinha idade para ser meu pai e foi, durante vários anos, companheiro de tantas conversas. O Manuel Dias, velho jornalista prestigiado, andou pelo mundo inteiro. Contou-me que esteve na Cidade do México, em trabalho. Perdido na metrópole, a caminho de uma sessão com gente fina, deu por si, bem vestido, a entrar num tasco muito pobrezinho, para beber uma cerveja. Não me lembro das palavras exactas, mas o Manuel fez-me ver que tudo ali era miséria, pobreza, fome, os mais pobres dos pobres. Acrescentou: “Nestes momentos, um tipo é obrigado a pensar na sua camisa, na sua gravatinha, nas desigualdades.”

Nem sempre pensamos nas desigualdades. A maior parte das vezes, não pensamos nisso, por um egoísmo que, em parte, é saudável – com tanta miséria e tanta exploração que há pelo mundo, não teríamos tempo para sermos felizes ou, no mínimo, inconscientes ou ignorantes (condições necessárias para se ser feliz). Não teríamos tempo nem descaramento para apreciar a gravata, as jantaradas, os inúmeros privilégios com que somos cumulados, porque a vida que temos não resulta só do mérito, mas sobretudo de uma série de acasos, por muito que os portadores de certezas absolutas, sectários religiosos e políticos, acreditem no merecimento.

O triste espectáculo da escravatura em Odemira não é novidade. Há quem fique admirado por se saber. Fico espantado (até comigo) por não se pensar nisso, por acreditarmos que não é possível no nosso mundo, na civilização europeia. A exploração é tão antiga como a humanidade ou é a maneira de exercermos a nossa selvajaria essencial, lobos uns dos outros. É uma pulsão, é o poder a corromper-nos.

Um condutor do metro de superfície de Almada foi despedido por não ter onde deixar a filha. O caso chegou ao Supremo Tribunal de Justiça e a empresa foi obrigada a indemnizar o trabalhador. Por uma vez, o elo mais fraco foi protegido. Leia-se a notícia. Confirma-se que foram necessários vários recursos até que se fizesse justiça. Repita-se: justiça. Note-se, ainda, que esta é uma decisão inédita.

Entretanto, a pandemia está a transformar-se num problema dos países pobres, o que quer dizer que está prestes a deixar de ser um problema nosso, que poderemos voltar à nossa gravata, à nossa camisa, aos nossos jantares.

Não estou a dizer que tenho soluções, mas não me venham dizer que não há problemas ou que isto se resolve com a divina concorrência, com a mão invisível dos mercados ou com base na meritocracia cega que beneficiará qualquer um, nasça em berço de ouro ou numa palhota. Não, não chega.

Comments

  1. Alexandre Barreira says:

    …já parece a canção….”ó odemira…vem à janela…ver a banda a passar”…..!!!!

  2. anónimo says:

    “não me venham dizer que não há problemas ou que isto se resolve com a divina concorrência, com a mão invisível dos mercados ou com base na meritocracia cega”
    Concordo.
    Mas também não me venham dizer que falta um direito inscrito na Constituição, que faltam leis, que faltam estratégias, planos de ação (com os seus objetivos, pilares, enquadramentos, …), que faltam subsídios.

    • Paulo Marques says:

      Depende. Para fazer de conta, olhando para índices que se fazem de conta que descrevem a realidade das pessoas, não falta nada disso, de facto.
      Já para resolver, falta ainda perceber o problema, quanto mais o resto.

  3. Luís Lavoura says:

    O triste espectáculo da escravatura em Odemira

    Mas qual escravatura? Até agora não vi ninguém a queixar-se de ter sido escravizado, nem ninguém a apontar algum caso de escravatura.

    Tanto quanto tenho visto, todas as pessoas recebem o seu salário, e parece que esse salário é sempre igual ou superior ao salário mínimo.

    • Filipe Bastos says:

      Sem dúvida, Lavoura: tudo está bem. Um trabalho digno com condições dignas, pago condignamente.

      Por acaso, curiosamente, os escravos não costumam queixar-se muito. Os trabalhadores das sweatshops actuais, das fábricas na China, no Vietname ou no Bangladesh, ou das antigas da Rev. Industrial também não. Os prisioneiros dos campos de concentração também pouco reclamavam.

      É quase como se não tivessem escolha, ou como se tivessem medo de se queixar, não é?

      • Luís Lavoura says:

        Um trabalho digno com condições dignas, pago condignamente.

        O trabalho é perfeitamente digno.

        As condições não sei, mas ainda não ouvi queixas nenhumas, tipo estarem a mexer em plantas que estão cobertas de pesticidas tóxicos.

        A paga é o salário mínimo nacional, ou melhor que isso. Não é bom, mas também não é mau.

        Não confunda as condições de alojamento – que não são da responsabilidade dos proprietários das plantações – com as condições de trabalho. Se as condições de alojamento são más, isso é culpa de muitas pessoas (dos privados que não investem para construir alojamentos condignos) e entidades (a Câmara Municipal que não prevê espaços de aumento das povoações e/ou que não licencia com a devida celeridade novas casas), mas não dos proprietários das plantações.

      • Filipe Bastos says:

        Numa pesquisa de dez segundos:

        «Odemira. Autoridade do Trabalho detetou 123 infrações no último ano»

        «Em 2020 Odemira contava com mais de 9600 imigrantes legais. Grande parte vem do Nepal e Índia para a agricultura intensiva: “no campo o trabalho é muito duro, mas estão a receber salários muito, muito baixos”.
        A isto há que somar denúncias de escravatura, tráfico humano e auxílio à imigração ilegal. Alguns trabalhadores relatam condições próximas de trabalho forçado.
        Muitos vêm aliciados por melhores condições de vida, mas acabam enredados num ciclo de miséria que gera miséria.»

        Quer vir trabalhar para mim, Lavoura? Pago-lhe o salário mínimo – ou até melhor! – para trabalhar ao sol todo o dia.

        Dorme numa barraca com dez pessoas, o (único) WC lá fora, toma banho de balde. Parece-lhe mau? Imagine que é isto ou passar fome.

        Mas atenção: não confunda as condições de alojamento – que não são da minha responsabilidade – com as condições de trabalho. Dou-lhe um boné e tudo.

    • Paulo Marques says:

      Nunca houve escravatura, pagaram-lhes sempre comida e alojaram-nos, que mais queriam?
      Ó Luís, qual é a dificuldade de perceber que a seguir é o seu trabalho?

  4. JgMenos says:

    Por entre lugares-comuns, evidências e notas de bom-senso, sempre se destaca o linguajar esquerdalhês que presume o direito de acumular assistência a menores com condução de transportes públicos e transforma a defesa do interesse individual em manifestação de poder e escravatura em tudo o que .não suponha seguir a cartilha do corretês.
    Sempre a esquerda se conforta com palavras por um existir que em nada a distingue.

    • Paulo Marques says:

      Que não se importe com trabalhos forçados não surpreende, só mesmo à força é que deixa de ser miserável.

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