quatro décadas de merda

Uma mulher de Portimão, presa desde Agosto de 2019 viu a sua pena ser suspensa pelo Supremo. Com 67 anos, estava condenada por tentativa de homícidio do marido, um acto que cometeu em defesa da sua vida e dos seus filhos. Condenada inicialmente a seis anos, acabou por ser libertada esta semana. Mas pouca será a verdadeira liberdade.

Durante quatro décadas foi sujeita a quase escravatura, espancamentos e uma violência psicológica que nem me atrevo a imaginar. Dizer agora que a justiça funcionou é falso: a justiça falhou, as autoridades falharam.
Esta mulher viveu metade da sua vida tratada como lixo, uma posta de carne ao serviço de alguém a quem os simpáticos chamam de homem, para receber agora uma comiseração de um tribunal que só soube do nome dela depois do seu marido levar com sete pancadas na cabeça. Até então ela nunca passou de uma simples vendedora ambulante, sem nome nem interesse.

Para os partidos e tribunais da paróquia, é mais prioritário dificultar a vida a um padeiro que coloque uma grama de sal a mais no pão do que impor o medo do braço da lei a agressores desta estirpe. Para as vítimas, sobram as campanhas fofas, as correntes online, as marchas de protesto , os concertos “solidários” e os vídeos catorreiros com famosos a gritar “Basta!”.
Entretanto continua a falhar o apuramento, a responsabilização, o reforço das autoridades e a justiça.
Por este caminho não faltarão vítimas nos cemitérios, celas vazias, silêncio e hipocrisia. O “basta” está longe, principalmente delas.
Esta mulher não morreu, mas passou 40 anos subjugada, desprezada e torturada. Espero sinceramente que esta pobre alma encontre alguma paz de espírito e forças junto dos filhos para viver o resto. O país permitiu que se lhe roubasse a juventude e a idade adulta. Espero que tenha melhor sorte na velhice…
Nota: Este artigo, como outros que escrevi assenta em três príncipios que para mim são basilares: apuramento, responsabilização e consequências. Apuramento no sentido de que se registe, responsabilização no sentido de identificar causas e responsáveis, consequência no sentido real da palavra, não de exigir sangue e fuzilamentos, mas apenas consequências.
Não é uma questão de esquerda/direita mas apenas a minha firme ideia de que sem isto, não há uma democracia sólida. Ponto.
Parte do meu artigo anterior, “Otelo-mais uma vaca no milho” centra-se precisamente nisso e não no Otelo em si.
No mesmo artigo falei da constante (e histórica) incapacidade que Portugal tem de apurar factos, responsabilidades e encerrar capítulos da melhor forma possível para assim poder seguir em frente. Mas de pouco valeu.
É patético ver em tal artigo uma minha manifestação contra o 25 de Abril. Mais, tendo eu referido o MLDP ou o vergonhoso destino de Rosa Casaco, então só alguém mentalmente retorcido e entricheirado é que consegue ver fascismo naquelas palavras.
Se alguns estão bem com o facto de Rosa Casaco ter morrido na santa paz da sua terrinha.
Se alguns portugueses não sentem incómodo pelo regime ter-se borrifado para morte de um primeiro-ministro e ministro de Estado, então o problema desses portugueses terá que será resolvido noutra paróquia.
Porque nestas matérias eu não vou mudar e os latidos de alguns nas caixas de comentários, são para mim, brisas primaveris.
Carrego com muito gosto o passaporte português e como emigrante, acredito que por vezes tenho que ter outra sensibilidade ao falar de Portugal. Mas nunca deixarei de identificar o que entendo que está mal, incluíndo comportamentos e vícios que teimam em não mudar. Perante certos desafios eu já não me contento com discursos do tipo: “Precisamos de um debate alargado sobre esta matéria” ou ainda o argumento covarde do “uma forte aposta na educação sobre esta temática”.
O debate é parte da democracia. Sim, a educação é basilar, mas só apresenta resultado no futuro.
Como tal, para mim é indisfarçavel que ambos os argumentos são utilizados apenas para escorraçar o assunto para a frente, até cair no regaço do esquecimento ou estoirar nas mãos de um sucessor.
No fundo, o trajecto de vida desta mulher é um pouco semelhante ao do país. São quarenta anos a levar pancada para nada.
Continue-se pois…

Comments

  1. Filipe Bastos says:

    Perante certos desafios já não me contento com discursos do tipo: “precisamos de um debate alargado sobre esta matéria” … Sim, a educação é basilar, mas só apresenta resultado no futuro.

    Nem mais, Franzini: já não há pachorra para os pífios ‘moderados’, leia-se cornos mansos, que bovinamente toleram o intolerável, seja injustiças como a desta mulher, a partidocracia podre que temos ou o saque impune desta classe pulhítica.

    Devagarinho, dizem eles, as coisas hão-de melhorar! Sim, um dia, quando estivermos todos mortos. Esta gente fala como se a vida não fosse breve e irrepetível; como se a condição humana tivesse o luxo do tempo. Estão confortáveis, logo os outros que esperem.

    Sem que quem manda tenha medo, do esgoto partidário ao bordel paralamentar, sem a coisa lhes chegar ao bolso ou lhes ameaçar o couro, nada vai mudar. A não ser para pior.

    • Paulo Franzini says:

      o meu ponto foi sempre esse. Nunca aceitarei que p.e. a ministra da justiça afirme que “a corrupção combate-se com uma forte aposta na educação”. Primeiro, porque isso é muito relativo, mas acima de tudo percebe-se que o objectivo é adiar o assunto e lavar as mãos do presente. Qualquer aposta na educação demora uns 10 anos a apresentar resultados. E até lá?
      Isto não é vontade de “apostar na educação”, isto é uma forma covarde de atirar areia para os olhos…

  2. Paulo Marques says:

    Se há coisa que não mudou, foi a justiça e os tribunais. Um dos problemas de não haver sangue é que muita coisa fica onde estava, com tudo o que isso implica.
    Mas como anda tudo contente com Alexandres, Almeidas, Morgados e Júdices, e não com a luz que finalmente aparece em todo o lado, não parece que ninguém quer diferente, só quer culpados a qualquer custo, ensinando que é melhor fazer as coisas por outro lado oferecendo tudo a preço de saldo. Era bom que se aprendesse como surgiram as repúblicas das bananas, antes que saltemos para ser mais uma.

  3. Paulo Franzini says:

    “Se há coisa que não mudou, foi a justiça e os tribunais.”
    Nem mais meu caro. Triste fado…

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