Competições e inferioridades

Há muitos, muitos anos fui viver para uma cidade onde a grande maioria das pessoas andava – e anda – de bicicleta, nuns passeios próprios e confortáveis, exclusivos para as biclas.

Chegada de fresco, demorei um pouco a habituar-me àquilo de andar sempre e só de bicicleta, até porque chovia com frequência e às vezes nevava, mas acabei por acostumar-me e passei a gostar da liberdade de pedalar para todo o lado. Na mesma altura, um conhecido meu foi também viver para esse sítio e passou pelo mesmo processo. De vez em quando íamos a qualquer lugar, e claro, sempre montados nas nossas respectivas biclas.

O que me surpreendia imenso e era para mim hilariante, é que, quando seguíamos pedalando lado a lado descontraidamente, caía o Carmo e a Trindade se por acaso um qualquer outro ciclista desconhecido nos ultrapassasse. O meu conhecido lançava-me um “ai o cabrão!”, desatava a pedalar à desfilada e não descansava enquanto não voltava a ultrapassar o dito “cabrão” que tinha tido o descaramento de o deixar para trás.

Como ele não o fazia por brincadeira, mas a sério, aquilo estava, a meu ver, de todo relacionado com um ridículo e profundo complexo de inferioridade, sabe-se lá originado em que deficiência ou má experiência.

Conto isto porque é o que me ocorre cada vez que Cotrim de Figueiredo, tal como fez hoje mesmo, puxa das habituais comparações (já em 2024 as taxas de crescimento da Roménia e da Letónia são muitíssimo superiores à portuguesa”.”Atrevo-me a dizer com elevado grau de certeza que até ao final do seu mandato pelo menos estes dois países nos vão ultrapassar também) que, pelos vistos, estão permanentemente na mira do seu obcecado e fixado olhar no crescimento.

Aplica-se exactamente a mesma problemática de inferioridade e competição exacerbada que me fazia rir daquele meu conhecido.

Só lhes falta mesmo dizer que o deles é maior do que o dos outros.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Para esta gente o importante é tornar o país barato. A começar logo pela mão de obra, pela fiscalidade, de preferência sem regras ambientais que nos protejam de um futuro terrível em matéria de desequilíbrios climáticos, para que o país se torne uma coutada de caça para a especulação financeira e o vil metal.
    Mas o que são a Roménia, a Bulgária, a Hungria, a Polónia, Letónia, no Mundo Ocidental e Capitalista, a que aderiram? É para aí que as pessoas emigram, à procura de uma vida melhor?
    Claro que não.
    Nenhum destes países é verdadeiramente uma democracia. São uma miscelânea de estados ditos ileberais e democracias moldadas pela corrupção e por clãs mafiosos. No fundo, grande parte destes países continuam a viver dentro do seu ADN estalinista, disfarçados de democracias, para poderem estar na CEE. Só que agora, abraçando o capitalismo. Como a CEE hoje é dominada por conservadores e liberais, fazem todos eles vista grossa a todo o tipo de atropelos do Senhor Orban, por exemplo.
    O liberalismo da IL é o liberalismo dos seus interesses. Só e apenas isso.

    • JgMenos says:

      Tudo isso a propósito de crescimento económico, ou a corrupção como factor de desenvolvimento!

      • Rui Naldinho says:

        Corrupção como factor de desenvolvimento é o que não falta na nossa direita.
        Crescem, crescem! Vivem lá dentro como as moscas, assessorados por alguns socialistas gulosos, experimentados na advocacia.
        Ou achas que os bancos portugueses são detidos por perigosos esquerdistas?
        E a Tecnoforma? A Malo Clínic? O Luís Filipe Vieira? O Rei da Frangalhada, etc, etc, etc, etc,etc, etc, etc, tudo perigosos comunistas?
        Até tu, respaldado nesse perfil falso, tens “paleio” de vigário.

  2. balio says:

    uns passeios próprios e confortáveis, exclusivos para as biclas

    Suspeito fortemente que esses passeios eram bastante desconfortáveis para os peões, e que de facto promoviam a sua insegurança.

    Eu vivi na Alemanha (há muito tempo, e provavelmente numa cidade diferente da Ana), e os passeios para bicicletas que lá havia interferiam com os passeios para peões, e não raras vezes houve ciclistas a passarem-me tangentes, e eu tinha que andar sempre a olhar por cima do ombro a ver se não haveria um ciclista a aproximar-se, sem ruído, de mim pelas costas.

    • Ana Moreno says:

      Pois na cidade de que falo, peões e ciclistas convivem bem e aliás os peões são ciclistas e vice-versa. Até porque o passeio para os ciclistas tem espaço diferente e cor diferente do passeio para os peões. E tudo espaçado.
      Em Lisboa é que é um perigo tanto para os peões, como para os ciclistas, como para as trotinetas. Só os carros é que continuam a ter grandes honras.

      • balio says:

        Em Lisboa é um perigo tanto para os peões, como para os ciclistas, como para as trotinetas.

        Pois é.

        Mas não é só em Lisboa. Quando estive na Suíça, no campo (não era uma cidade), ciclovia e passeio de peões eram uma e a mesma coisa. Com a agravante de que muitos peões e muitos ciclistas eram crianças.

        E, como digo, quando vivi numa cidade alemã, no centro da cidade as ciclovias eram faixas pintadas de côr diferente no passeio dos peões – sendo que muitos ciclistas saíam liberalmente das faixas para passarem tangentes a peões.

        Tudo isto para significar que eu acho muito bem que haja ciclovias – mas acho muito mal que elas sejam feitas retirando espaço e segurança aos peões. Os ciclistas não devem partilhar espaço com os peões, pois são perigosos para eles.

  3. Júlio Santos says:

    Destes, há-os por todo o lado. Diz-se que ninguém quer perd.er nem a feijões, mas quando se está em competição, não seria o caso
    Há-os por aí quem leve tudo como uma competição nem que, para isso, tenha de espezinhar os outros, mesmo não lhe sendo concorrente. Nem todos somos perfeitos.

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