Jéssica morreu e os abutres atacaram

O triste espectáculo com que as televisões nos brindaram durante a última semana acerca da morte da menina Jéssica, é sintomático do estado a que chegou a comunicação social em Portugal.

Com excepção da RTP, o canal público, todas as estações de televisão de cariz informativo tornaram a morte trágica de uma criança num espectáculo de circo que faria corar Victor Hugo Cardinali. O jornalismo caminha a passos largos para a degradação da informação, fabricando factos e aproveitando todo e qualquer fait-divers para lucrar com audiências. Foi assim, também, durante a última semana. O jornalismo tem o dever de informar e relatar os factos com o maior distanciamento possível e não, como parece ser o caso, de ir atrás de evidências de papelão, onde o que interessa fica sempre para trás: o respeito à memória de uma criança assassinada brutalmente.

Os directos que CMTV, SIC ou TVI/CNN Portugal fizeram à porta do velório da menina Jéssica devem envergonhar todos os portugueses. Os códigos deontológicos têm de valer para alguma coisa; e a lei também. Não pode valer tudo, no jornalismo como na vida, para que se tente chegar ao topo de qualquer maneira, pisando quem não tem capacidade de se defender – e, nestes casos, são sempre os mais pobres aqueles que estão em situação débil e sem capacidade de se poderem proteger.

É sabido que nada vai mudar na comunicação social. Vivemos, hoje, na época do mediatismo sem filtro, da azáfama da rede social, da ganância do lucro a qualquer preço. E, com estes pressupostos, não há espaço para se fazer jornalismo.

Jéssica morreu, já nada a traz de volta. Mas os abutres logo cobiçaram o seu corpo. Vivemos as trevas.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Ainda os corpos estão quentes, já sabe toda a gente quando, como e porquê, quais os organismos sem recursos que têm culpa, bem como o perfil psicológico de quem nunca se viu ou ouviu, bem como da família inteira. Nem era preciso polícia ou juízes, a turba decidiu, e há que pagar sangue com sangue, que é o nosso valor democrático cristão ou lá o que é.

  2. JgMenos says:

    Mas ninguém falau em ciganos… para veres como estão bem mandados…

    • Alberto says:

      A liberdade de informação tem um preço. Um deles é este tipo de coberturas “informativas”. Mas antes assim que como era no tempo do Botas onde acontecia mas nao se sabia. Quem nao quer ou não gosta de ver desliga.

    • Paulo Marques says:

      Post errado… mas não, não se falou, falou-se em subsídios, onde há os filhos e enteados, e os outros. Ou Outros.

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