A democracia, essa estranha, segundo Luís Montenegro

Luís Montenegro veio pedir “de forma muito serena”

(adoro este tique retórico dos políticos que precisam de explicar em que tom estão a falar enquanto falam no tom em que estão a falar, usando sempre adjectivos como sereno, frontal, firme. Imagino sempre isto transferido para o mundo da intimidade sexual, com os amantes a declararem que estão ofegantes de desejo enquanto ofegam ou outras coisas que os amantes costumem fazer lá no mundo dos amantes)

que Augusto Santos Silva exerça a sua “magistratura de influência parlamentar” de modo a que se concretize a eleição do candidato do Chega à vice-presidência da Assembleia da República. Se Santos Silva aceder e se a sua influência for assim tão grande, iremos assistir a essa lição de democracia que consistiria em ver deputados a votar de acordo com a influência do Presidente da Assembleia.

(a gente sabe que os deputados votam conforme o que lhes é ordenado pelas direcções partidárias e essa é uma perversão da democracia praticada há muitos anos no parlamento, em nome de uma coisa ilegítima a que chamam “disciplina de voto”. O facto de a perversão estar instituída não quer dizer que deva ser sempre praticada. O poder de Santos Silva dentro do PS e, por força da maioria absoluta, do parlamento, é uma realidade e será, com certeza, parte activa na não-eleição da vice-presidência chegana)

Luís Montenegro deve saber que a sua recomendação não irá provocar mudanças na Assembleia da República, sendo-lhe, na realidade, indiferente que o Chega chegue a ter vice-presidente. Pelo caminho, no entanto, piscou o olho ao futuro namorado, que era, desta vez, o seu verdadeiro objectivo.

Luís Montenegro recorreu, ainda, a uma das falsas equivalências habituais na direita que se diz democrática, declarando que chegou a votar em vice-presidentes do BE e do PCP e que, assim, faz o mesmo sentido votar no Chega. Exercendo o meu magistério de influência parlamentar, eu aconselharia todos os deputados a votarem de acordo com a sua consciência, o que pode levar a que alguns candidatos a vice-presidente possam não ser eleitos.

Espero, a propósito, que Luís Montenegro não tenha votado em pessoas dos partidos de esquerda, pensando que são inimigos da democracia. Seria gravíssimo se o tivesse feito.

O PSD anda confuso desde 2015, quando se insurgiu contra, imagine-se, uma maioria parlamentar. Ficou um bocado menos confuso, em 2020, nos Açores, porque o principal é não ter vergonha na cara.

O voto dos deputados, tendo em conta a sua quase nula autonomia, tem um valor muito baixo, mas é o que temos. A maioria da população também não vota no partido em que eu voto – é a vida. Ou a democracia, que é sempre a possível e raramente a desejável.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Este é o PSD que vive num mundo à parte. O Mundo das influências da Corte, do poder político ao económico. O PS também. Mas os socialistas não mexem com todos os interesses. Estão mais limitadíssimo.
    Habituados a que estão às portas giratórias do amiguismo, do compadrio e elitismo, onde tudo se resolve pela relação e ascendência familiar, (ler entrevista hoje, de Paula Amorim ao Expresso, pela mão de F. P. Balsemão) ou a notícia do pasquim da manhã, sobre o aluno que entrou no curso de medicina da Universidade Católica, com nota inferior a outros candidatos, que acabariam por ficar de fora, porque era filho de um benemérito, e percebe-se esta postura democrática de Luís Montenegro ex aluno de Direito da Católica. Aliás, arrastou-se nos bancos da faculdade.
    A lógica desta gente sempre foi:
    “Nós estamos para além dos outros. As regras da plebe não se aplicam a uma determinada casta social, cuja responsabilidade é perpetuar a linhagem da elite.”

  2. Rui Naldinho says:

    … Estão mais limitados.
    … Habituados que estão

  3. Paulo Marques says:

    Que parte de não haver disciplina de voto no nosso sistema de regras, seja o formal ou o informal, é que o excelentíssimo não percebe? Quer lamber botas, que as lamba.

  4. JgMenos says:

    A cena do ‘inimigo da democracia democraticamente eleito’ é a última versão do corretês de uma esquerdalhada que ao fim de 48 anos de regência verborreica, se perturba com dissonâncias que lhe denunciam a imbecilidade militante.

    • POIS! says:

      Ora pois!

      E continua a ouvir-se a lancinante voz do sacrificado Pastorinho à entrada da AR, pela manhã:

      “Por caridade, senhores!Um votinho! Um votinho para ajudar à eleição de um anti-sistema para um cargozito no sistema! Por caridade, senhores!”…“por caridade senhores! Já chumbaram o poeta Amorzim e o filósofo Mathathá. Um votinho, pró empreseiro! Ou para o doutor dos bichos! Ou outro qualquer! Por caridade senhores! Ajudem este Pastorinho! Não deixem os anti-sistema fora do sistema!”.

      A comoção é geral, entre os que assistem. Que tortura, meu deus! As pedras da calçada de S. Bento estão lavadas em lágrimas!(*)

      (*) O que se traduziu numa alegria, pelo Menos para o Dr. Moedas. Sempre lava o piso. Menos uma quantidade de queixas de falta de higiene urbana.

  5. JgMenos says:

    Continuem a votar contra é o meu voto.
    Publicitar a cretinice esquerdalha é sempre boa notícia.

    • POIS! says:

      Pois claro! E está na hora de Vosselência publicitar o lancinante apelo do Quarto Pastorinho:

      “Por caridade, senhores laranjolas! Um votinho para ajudar á eleição do candidato anti-sistema para um tacho do sistema! Por caridade! Já chumbaram o poeta Amorzim, está um farrapo! E o filósofo Mathatá, que até a sua alma escureceu! E agora faliu a candidatura do empreseiro justiceiro!Um votinho, por caridade!”

      “Por caridade! Não deixem os anti-sistema fora do sistema! Eu quero ser ministro do Muintanegro! Por caridade, senhores!”,

  6. Anonimo says:

    O Chega não é um partido legítimo, e com representantes legitimamente eleitos?
    Ainda hoje ouvi que eleger um Cheguista para vice era “legitimar e banalizar” a extrema-direita. A estratégia vai ser mesmo ignorar o Chega no Parlamento, a ver se desaparecem?

    Montenegro que aproveite o palco, não durará muito… tem destino traçado, na verdade não faz muito para o alterar. Mais um “1” da multiplicação.

    • Paulo Marques says:

      É um partido legítimo se não se olhar muito para as assinaturas ou ideologia; de facto, eleger quem defende o que não é legitimamente defensável não legitima nada, já está legitimado.

      • Anonimo says:

        Sempre pensei que a legitimação fosse nas urnas.
        Ou então é regressar aos tempos em que o senhor prior ia ensinar a votar bem, não vão acontecer acidentes.

        • Paulo Marques says:

          Legitimizações há muitas. Legalmente, está de facto legitimado mesmo que não de jure.

          • JgMenos says:

            Quando saíres das banalidades, passa pela internet…
            ‘De jure (em latim clássico de iure é uma expressão latina que significa “pela lei”, “pelo direito”, em contraste com de facto, que significa justamente “de facto”, ou seja, algo praticado.’

          • POIS! says:

            Ora pois!

            A raposa Menos a passear-se pela internet como cão por vinha vindimada!

            Embrenhado que anda na salazaresca defesa da Quarta Pastorice, agora deu numa de especialista de línguas mortas.

            Ou seja: refugia-se confortavelmente no latim para se fazer desentendido…

          • Paulo Marques says:

            Sim, sabes ler; interpretar é que ainda há dúvidas.

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