A IL e quem racha lenha

Quando era mais novo dizia-se “quem está fora, racha lenha” (traduzindo: expressão popular utilizada para colocar alguém no seu devido lugar, quando dita pessoa procura intrometer-se numa discussão ou situação alheia emitindo a sua opinião). Ora, eu vou dar a minha opinião sobre o que se passa na Iniciativa Liberal (IL) não sendo seu militante  e por isso serei mais um mero rachador de lenha.

O que me leva a pegar no machado e posicionar o toro de madeira é o intenso cheiro a Braga 1998. E o que foi que aconteceu em Braga nos idos de 98? Um congresso do CDS. O que dividia a maioria dos congressistas do CDS em 1998? A ideologia? Mais ou menos democracia cristã? Não. O que dividia as hostes era um ódio escondido. Era mais o que os separava em termos pessoais que aquilo que os unia em termos ideológicos. Boa parte dos “portista” odiavam os “monteiristas” e vice-versa. Era o ódio que alimentava as tropas. Um ressentimento que foi crescendo ao longo dos tempos.

Nos últimos tempos fomos assistindo no facebook e no twitter a uma troca de galhardetes nada meiga entre alguns militantes da IL. Nada simpática, por sinal. Uma animosidade em crescendo. Ao ponto de quando o actual presidente da IL, Cotrim de Figueiredo, anunciou a sua saída e Rui Rocha comunicou que avançava a intriga tomou conta das ditas redes sociais. E todos sabemos da importância das redes sociais na IL – nas últimas legislativas cheguei a escrever como piada (que nem era minha) que se as eleições fossem no twitter a vitória era disputada entre a IL e o BE…

Vou citar outro “rachador de lenha” mas cujo saber e pensamento nesta matéria é uma das referências nacionais quando se quer falar sobre o Liberalismo, o Professor Rui Albuquerque:

“O João Cotrim de Figueiredo teve o mérito, nestes anos que já leva a sua liderança da Iniciativa Liberal, de ser uma espécie de mínimo denominador comum a pessoas entre si muito diferentes, mas que conseguiram encontrar-se, e manter-se, num projeto político sui generis e, até agora, vencedor. Não sendo um ideólogo, deixou conviver na IL todas as expressões do liberalismo nacional; não sendo um carismático, teve uma presença respeitada, que se afirmou sempre pela positiva; não sendo um histórico da política, levou oito deputados à Assembleia da República. Se calhar, este conjunto de “não sendos” fazem dele o líder que convém a um projeto de ideias e não de pessoas, embora não ignoremos que a IL é um partido como os demais… Não será fácil substituí-lo seja por quem for, porque quem quer que venha a ser nunca será tão consensual como o João tem sido, e a IL precisa de somar ainda muito antes de se começar a dividir”. 

Estas sábias palavras de Rui Albuquerque deveriam ser o ponto de partida de qualquer discussão sobre a sucessão de Cotrim de Figueiredo. Deviam mas não foram. Não estão a ser.  O que vemos? Desde teorias da conspiração (o Rui e o Cotrim conspiraram), passando por discussões sobre chapeladas (as eleições deviam ser remarcadas) e troca de insultos entre os que querem o Rui Rocha e os que preferem a Carla Castro e, como sempre nestas coisas, até se fala em terceiras vias. Por isso já vi que existem os “rochistas” e os “carlistas”. A IL está a transformar-se com umas meras eleições internas num bando de “istas” e pela amostra estes vários “istas” já não se podem ver. Daí o cheirinho a Braga 1998. Estou surpreendido? Não. Até porque vejo por lá alguns que estiveram em Braga…

 

(a foto foi palmada ao Observador)

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Essas ideias não-ideológicas devem ser mesmo muito boas, e estudadas a sério. Será, certamente, decidido pela não-ideológica facção que garanta mais financiamento ao partido, para não atrapalhar o sucesso.

  2. Rui Naldinho says:

    Todos estes partidos que nasceram nas redes sociais, um fenómeno recente, bem como aqueles que num passado não muito longínquo nasceram nas tertúlias académicas, o caso do BE, têm tendência a não sair do seu círculo restrito de amigos. Dito isto, a IL será sempre um partido pequeno, com tendência para ser muleta de alguém, tal como foi o CDS no passado. Em situações extremas até será engolido por um parceiro maior, por um interesse superior, a maioria absoluta.
    Ainda recentemente tivemos essa percepção nas últimas eleições, só porque se vislumbrou a remota hipótese do PSD regressar às vitórias.
    Tal como o BE será sempre um partido de protesto e ficará sempre no seu bairro, com medo de sair dele, a IL pode no máximo almejar uns vinte deputados, retirando espaço ao PSD.
    Acresce que o liberalismo já de si discutível como doutrina económica em tempos de bonança, acaba por ficar amarrado às suas próprias contradições em tempos de guerra. Ou em períodos de inflação descontrolada.

    • Luís Lavoura says:

      a IL pode no máximo almejar uns vinte deputados

      Partidos liberais existem em grande parte dos países da Europa. Quase sempre são e mantêm-se partidos relativamente pequenos. No entanto, continuam a existir.

      Se a IL obtiver dez a vinte deputados estará, grosso modo, a ter a mesma representação parlamentar que partidos “irmãos” têm noutros países europeus. Nem mais, nem menos.

      • Rui Naldinho says:

        Mas isso não invalida que de vez em quando encolham, quase desaparecendo, como já aconteceu no Reino Unido e na Alemanha. Aliás neste último, por via dos 5% de votos obrigatórios, já houve períodos em que o parlamento alemão nem sequer tinha deputados liberais eleitos a nível nacional. O que só confirma aquilo que eu afirmei.

  3. POIS! says:

    Pois há um facto sobre a IL a que achei piada…

    O site da IL, há tempos, mudou. E aqui, neste sítio:

    https://iniciativaliberal.pt/dirigentes/

    estão os dirigentes da IL.

    Qual a diferença com o anterior? Desapareceram as profissões, que é o que dava piada à página.

    Para além dos habituais advogados e juristas, abundavam os “marketeers”, os “operational controller”, os “banking specialist”…

    Num comentário que está aqui:

    https://aventar.eu/2021/12/22/pedro-arroja-um-misogino-a-caminho-do-parlamento/

    Eu até gozava com a coisa, imaginando um “filme” da IL:

    “Entra o gestor, fala com o consultor, que telefona ao advogado, que vem de um almoço com o professor universitário, que vinha acompanhado de um consultor e um “marketeer”, que andava com uma “banking specialist” que era casada com um consultor de RH, que também era professor universitário de Gestão e dava aulas de mestrado a especialistas em empreendedorismo para se tornarem consultores.

    Alto! Entrou um “projetos de investimento”! E acompanhado de um “produção agropecuária”! E vinham todos de casa de de um “perito avaliador imobiliário”. Que mais irá acontecer???

    Bem, chegaram a um bar onde foram abordados por um consultor, acompanhado de uma advogada e de um “gestor de costumer service center”. Juntaram-se então dois médicos, três gestores, duas consultoras e uma jurista e entraram todos para um quarto.

    Que mais irá acontecer????

    Bem, saíram passados cinco minutos e juntaram-se a um gestor, duas consultoras, três professores universitários e quatro gestoras de RH. e voltaram todos para o quarto.

    Que mais irá acontecer??? Será que uma gestora de marketing vai ficar grávida de um “operational controller”?

    Vejam vocês, que eu não aguento mais! Fico muito nervoso com tanta ação!”

    As profissões são todas reais, tiradas lá do site.

    Nem um trabalhador da produção, um simples funcionário público ou privado, nada!

    Porque as ocultaram? Para se fazerem passar por “pessoas normais”? Porque denunciavam um autêntico “partido de elites” ou “de classe”?

    • Luís Lavoura says:

      Vá ver os dirigentes de outros partidos!
      (1) Encontra-os na internet? (Se calhar, nem sequer têm a lisura de colocar na internet os seus dirigentes.)
      (2) Encontra na internet as suas profissões? (Se calhar, encontra-as tão pouco como no caso da IL.)
      (3) Não são todos eles advogados? (Provavelmente, têm ainda menor variedade de profissões do que os dirigentes da IL.)
      Acho bem que critique a IL, mas conviria compará-la também com outros partidos.

      • POIS! says:

        Pois tá bem, ó Lavoura!

        Vá V. Exa e diga qualquer coisa!

        Compararia, se a IL tivesse lá mantido as profissões. Se as retirou é porque não se quis prestar a comparações. Penso eu de que.

        De qualquer modo, não creio que nos outros partidos existisse tamanha dose de pedantismo.

  4. Professor B says:

    Quem é de fora não racha lenha.

  5. JgMenos says:

    Tudo vai ao caso de que finalmente há um acordo generalizado: consentir em participar nas políticas conformes e embrulhadas na lenga-lenga esquerdalha, que promove a mediocridade, a corrupção e o parasitismo, não há melhoria possível.

    • POIS! says:

      Ora pois! Até o Quarto Pastorinho Está a ficar cada vez mais mansinho!

      Lá nas missas com os devotos ainda grita, mas nas conferências de imprensa revela uma candura tão doce, um recato tão cordato…

      “Vá lá PSD! Não sejam mauzinhos, malta da IL! Vamos entender-nos que eu quero ser ministro! Vá lá, que, de outra maneira, não chegamos lá!”.

      “Incompatibilidades programáticas? Mas quais? O nosso programa muda todos os dias! Sou um Pastorinho com princípios mas, se há nóia, arranjo outros!”.

      “Vá lá, por caridade! Votem lá no nosso candidato! Ajudem lá um anti-sistema a chegar ao sistema! Vá lá! Até o nosso exótico Mathathá chumbaram . Não se faz!”

      À noite, no Venturoso comício, já usou um tom diferente:

      “Depois de pregar dois murros no Costa, chamei o Montenegro ao meu gabinete e, com o auxílio do Forcado Pinto, acorrentei-o a uma argola que preguei na parede. Agarrei num chicote e disse-lhe: “tás a ver o que te espera se não te entenderes connosco, ó palhaço?”… Isto enquanto o veterinário se ocupava a pôr a respeito dondocas da Iniciativa Liberal, como já fez à Joacine!”

  6. Artur Agostinho says:

    Na minha terra não se racha a lenha
    na tua racha
    na tua racha…

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