Elites e ditadores: as notícias sobre Moscovo também eram exageradas, não eram?

É natural que as elites de uma ditadura não lhe sintam o peso da mão. Nenhum ditador governa sozinho. E isto é evidente em pessoas ou grupos tão distintos como a velha aristocracia que transitou do Estado Novo para a democracia, no branqueamento de Putin por Gerhard Schroder ou na relação de amizade de Dennis Rodman com Kim Jong-un.

Não admira, portanto, que o mesmo aconteça hoje com o Qatar. Seja por parte de emigrantes portugueses com uma posição privilegiada no país, por trabalharem em empresas com peso e importância na economia qatari, muitos dos quais minimizam o que lá se passa por medo de represálias, seja por parte de quem por estes dias viaja para Doha para assistir a uma partida do Mundial.

É natural que, por estes dias, se possa sentir algum desanuviamento no Qatar. Porque os holofotes do mundo estão para lá virados e porque o país tem no Mundial uma oportunidade única para se vender internacionalmente. Foi precisamente para isso que o governo de al Thani corrompeu a FIFA, sempre receptiva ao suborno.

Nada disso apaga aquilo que é factual. Que os estádios foram construídos com mão-de-obra semi-escrava, sem condições mínimas, resultando na morte de 6500 trabalhadores. Que a pena de morte por métodos medievais como a lapidação está na lei. Que a homossexualidade é punida com pena de prisão. Que a imprensa, tal como acontece na China ou na Rússia, não é livre. Que as mulheres são cidadãs de segunda, com poucos direitos e dependentes da vontade dos pais, maridos ou irmãos.

De pouco importam, a meu ver, os testemunhos que emigrantes em situação de excepcional privilégio ou daqueles que se deslocam ao Qatar e alegam que as turistas andam na praia de bikini. Tudo isto não passa de uma cortina de fumo, para a qual, pelo preço certo euros, dólares ou rials, certas figuras públicas estão dispostas a contribuir. Conheci o caso de Isabel Figueiras através do Extremamente Desagradável, da Joana Marques, e está lá tudo: uma turista, a ver o país com os óculos do turismo de elite, que prefere ignorar a realidade factual da ditadura qatari para branquear a sua natureza totalitária. Vimos o mesmo filme, com outras personagens, durante o Mundial da Rússia. E vejam lá onde estamos agora.

Comments

  1. Luís Lavoura says:

    os estádios foram construídos com mão-de-obra semi-escrava

    Depende da definição de “semi-escravatura” que se utilize. Que eu saiba, a maior parte dos emigrantes para o Catar sabe o que por lá se passa, e vai para lá, mesmo assim, de sua livre vontade. Que eu saiba, ganham lá bom dinheiro, que remetem em boa parte de volta para as suas famílias nos países de origem. Escravatura isso não é de certeza – na escravatura não se ganha dinheiro.

  2. Luís Lavoura says:

    a pena de morte por métodos medievais como a lapidação está na lei

    Provavelmente está, mas provavelmente jamais é aplicada, pelo menos por esses métodos medievais.

    Se uma coisa está na lei mas a lei jamais é aplicada, é quase como se não estivesse na lei.

  3. Luís Lavoura says:

    a homossexualidade é punida com pena de prisão

    Isso deve estar na lei, mas duvido que haja muitas pessoas presas por esse motivo. Com toda a probabilidade, há muita homossexualidade no Catar, que é feita dentro de quatro paredes e sem que dê pena de prisão nenhuma.

    • Aladino says:

      Isso! É como o aborto à moda do Marcelo: é proibido mas pode-se fazer! Também acho que há muita estupidez que devia ficar dentro de quatro paredes.

  4. Paulo Marques says:

    Como é que havia de importar, se o sistema depende de não importar?

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