Teoria Geral do Equilíbrio – versão António Costa

Qualquer sistema tende para o estado de maior entropia. É um princípio bem conhecido da física, a segunda lei da termodinâmica, que se ensinava no secundário (talvez ainda se ensine, nunca se sabe com estas modernices das aprendizagens e das competências), segundo o qual as interacções de um sistema isolado resultam em transferências entre os diferentes componentes até que todos eles se encontrem no mesmo estado.

Ilustração da segunda lei da termodinâmica. Os líquidos dos dois recipientes acabarão por ficar à mesma temperatura.

Como se recordarão, António Costa foi particularmente efusivo quanto aos bons tempos que aí vêm. Parece que a “trajectória sustentada de redução do défice e da dívida coloca país ao abrigo das turbulências do passado” e que Portugal está “no pelotão da frente” (esperemos que não seja da frente ucraniana).

Este é o vaso quente do sistema termodinâmico. Quente é um eufemismo, já que o termo correcto seria a escaldar ou a ferver, dado o exagerado optimismo do Primeiro-Ministro. Pelo menos, a avaliar por esses ingratos que aparecem nas notícias a queixarem-se de cada vez sobrar mais mês no fim do salário, de não terem maternidades para ter os bebés (o que parece ser cada vez menos um problema, dado o declínio da natalidade) e de ter consultas no SNS ou audiências nos tribunais parecer mais difícil do que acertar na raspadinha, a situação não aparenta ser assim tão fantástica como pintada por Costa.

Este calor terá então que dissipar-se para algum lado, não vá a coisa derreter com a temperatura. O que força Costa a encontrar uma válvula de escape, que se traduz nas suas escolhas ministeriais para formar um governo que é uma bela merda – o lado frio do sistema. 

E assim, António Costa salva o país e, quiçá, o mundo e a galáxia, ao ter um sistema que entra em equilíbrio. Com o optimismo a dissipar-se para a mediocridade do governo, daí resultando o conhecido pântano, mas, vá lá, quem pode querer ter tudo?

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Um autêntico patriota a sacrificar-se pela nação.

  2. Anonimo says:

    Bom texto. Basicamente, os portugas são uns piegas, sempre a queixarem-se. Razão tinha o facho neoliberal, qual relógio parado.

    Keep calm and trust in Costa

  3. Rui Naldinho says:

    Jorge, apesar de andar um pouco afastado destas “lides Aventadeiras”, vou tentar interpretar o que escreveu.
    António Costa apesar do seu optimismo irritante, eu diria mais cinismo, nem ele acredita muito no governo que chefia, tem ali uma cambada de aprendizes de qualquer coisa, preocupa-se apenas com o déficit.
    Governos de merda é o que temos tido até aqui, desde que entramos no euro. Este não destoa dos anteriores.
    Há uma coisa que eu já há muito percebi. Desde 2011. O importante é estar nas Finanças Públicas um fulano/a, uma espécie de contabilista, que faça as nossas contas dar saldo zero(0), no final do ano económico. Isto no mínimo. Se der menor que zero(0), melhor ainda.
    Dentro deste pensamento tão simplório, qualquer merda, desde que tenha um currículo académico satisfatório, até pode ter andado 8 anos na universidade para fazer um curso de 5, serve para ministro. Dá-se preferência a quem falar línguas. Convém falar melhor do que o Sócrates.
    Não estranhemos, não estranhemos…!
    Apenas entranhemos.

    • Paulo Marques says:

      Para que é que precisa de confiança no governo se são meros técnicos a aplicar as ordens de cima, infalíveis e inquestionáveis?

  4. JgMenos says:

    Há 48 anos que se anuncia ao povo que a mediocridade é quanto lhe basta para ter direito a ser feliz.
    Enunciam-se as cartilhas dos direitos que garantem a sobrevivência, que asseguram uma qualquer dignidade a que não se associam valores a serem praticados, e para tudo se propõem instituições supletivas que assegurem a felicidade geral.
    Há medíocres em posições de poder?
    Nada mais adequado ao princípio de ‘todos os direitos a todos’.
    Todo o medíocre se vê muito justamente representado!

    • POIS! says:

      Pois…

      Foi até há 48 anos, durante outros tantos, que se anunciava ao povo que a mediocridade é quanto lhe bastava para ter direito a ser feliz.
      Esqueciam-se as cartas dos direitos que garantem a sobrevivência, que asseguram uma qualquer dignidade a que não se associavam valores a serem praticados, e para tudo se proibiam instituições que assegurassem a felicidade geral.
      Havia medíocres em posições de poder?
      Nada mais adequado ao princípio de ‘nada de direitos a todos’.
      Todo o medíocre se via, pelo Menos, muito justamente representado!

    • Carlos Almeida says:

      Caríssimo JgMenos

      Se calhar foi por isso que os medíocres defensores do Estado Novo Salazarista a que as más línguas davam o nome de fascista, meteram o rabo entre as pernas e se renderam todos militarmente no 25 de Abril.

      A bem da nação, não era o que se dizia na vossa quadrilha de malfeitores ?

    • Paulo Marques says:

      Sendo que mediocridade é sinónimo de mediania, peço-lhe mais uma vez para que sugira que a campanha política deve ser explícita sobre o quanto valem e quando merecem 50% dos eleitores.
      A bem da democracia.

  5. João Mendes says:

    Merdodinâmica, portanto.

  6. Anonimo says:

    Os água é género fluido, não se identifica com o binário quente ou frio. Nem se submete à classificação patriarcal colonialista imposta pelo Celsius

Discover more from Aventar

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading