Direito à greve, sim, mas, repetem eles

Manuel Carvalho, director do Público, é mais um dos adeptos do direito à greve, mas. No seu editorial de hoje, pretende dar lições de ética aos professores, antecipando o desagrado da opinião pública. Haveria muito para comentar, mas o naco que se segue já é suficiente:

Uma greve de um dia, dois dias ou uma semana, seria inatacável do ponto de vista dos princípios. Exporia ao país sentido de urgência e empenho num combate. Levaria os cidadãos a interessar-se pelas suas causas. A substância do protesto seriam essas causas, não os expedientes de uma paralisação às pinguinhas.

Manuel Carvalho defende, portanto, greves cujo efeito é folclórico e nulo.

Na realidade, as greves de um dia diluem-se em argumentações estéreis acerca dos números de adesão, nunca levaram os cidadãos a interessarem-se pelas causas dos professores e nunca, mas nunca, levaram o Ministério da Educação a mudar, a não ser em meia dúzia de tretas sem importância. Desde 2005, os professores (e sobretudo a Educação) têm acumulado derrotas, mantendo-se, entre muitas outras monstruosidades, um sistema de (pseudo-)avaliação que só serve para impedir que a maioria dos professores progrida na carreira, a subtracção de tempo de serviço, o abuso que consiste em não efectivar professores que andam a ser contratados há 20 anos ou contas manhosas que mantêm as escolas com défice de funcionários.

Manuel Carvalho não se preocupa com nada disso, é um cidadão que não se preocupa com Educação nem com a luta justa dos professores. Para Manuel Carvalho, como para muitos outros, lutar, sim, mas baixinho, que queremos dormir.

Comments

  1. estevesayres says:

    Nem mais, ou seja pelos visto, os que votaram a favor das greves, nunca tiveram a intenção de a fazer! Sempre a favor das greves!
    Contra os fura-greves!
    A Favor de uma Greve Nacinal!

  2. Luís Lavoura says:

    Manuel Carvalho defende, portanto, greves cujo efeito é folclórico e nulo.

    Manuel Carvalho excreveu bem explicitamente que “Uma greve de […] uma semana, seria inatacável”. Ora, uma greve de uma semana tem um efeito bem grande, não folclórico nem nulo.

    • António Fernando Nabais says:

      Há uma gralha no seu comentário.
      É a sua opinião e a de Miguel Carvalho. Se o Ministério quisesse verdadeiramente negociar com os professores, isso já teria acontecido. Desde 2005, sem interrupção, os governos desprezaram as principais reivindicações dos professores – só o farão no dia em que estes conseguirem chegar a uma posição de força, dentro da lei e da ética, sem lições de quem pensa que os grevistas devem perder dinheiro até deixarem de conseguir pagar contas. Já houve greves de um dia, greves às avaliações, manifestações gigantescas – do outro lado, nada de substantivo em 17 anos.

    • Exactamente: excreveu, um verbo que é a junção de escrever com excremento, que é aquilo a que o Manuel Carvalho nos tem habituado.

  3. motta says:

    E quem é que fica com os repolhos quando, na segunda, tivermos que passar aquelas horas na tasca a discutir a derrota do glorioso, heim?

  4. Paulo Marques says:

    Pensa pequeno. Uma greve geral de um mês, e bastava o anúncio para apelar à bastonada, engajamento, e que o exército tomasse conta disto. Como outros lambe-botas na história.

  5. Anonimo says:

    Problemática seria uma greve dos funcionários do facebook ou instagram, aí é que entrava tudo em parafuso.

  6. Paulo Marques says:

    Antes fosse. O problema de ser obrigado ao trabalho longo e presencial incompatível com a parentalidadeé real, não é é único.

Trackbacks

  1. […] Direito à greve, sim, mas, repetem eles por António Fernando Nabais […]

Discover more from Aventar

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading