Sou uma das pessoas mais importantes do mundo. Pode haver algumas mais importantes, dentro da minha família. Tenho amigos, todos eles importantes, mas nenhum é tão importante como eu. Tenho amigos maravilhosos, mas sou muito mais importante do que qualquer um deles, mesmo aqueles que são os melhores amigos. As dores que sinto, quando, por exemplo, bato com um cotovelo numa esquina são infinitamente maiores do que as de uma fractura exposta de qualquer outra pessoa. Há pessoas que se magoam a menos de um metro de mim, sem que eu sinta a mais pequena dor. Peço desculpa, mas é assim mesmo.
Isto quer dizer que também eu quereria ser vacinado antes da larga maioria da população, incluindo uma enorme quantidade de velhos, de enfermeiros, de médicos, de bombeiros, de gente que, em geral, estará mais exposta do que eu ao vírus. E por que razão quereria eu ser vacinado antes de toda essa gente? Porque sou uma das pessoas mais importantes do mundo, como é evidente.
Não tenho conhecidos em lugares suficientemente importantes para conseguir ser vacinado antes dos milhões de pessoas muito menos importantes do que eu, porque como eu não há ninguém.
Se tivesse essa possibilidade, mesmo sabendo que ninguém iria saber, aceitaria ser vacinado? Se um amigo chegasse a minha casa com a vacina na mão, seria eu capaz de resistir a essa oferta? Não sei, gosto de acreditar que sim, mas gostaria de deixar claro que se eu, devido a algum privilégio ou outra circunstância favorável, fosse vacinado antes da minha vez, passaria a fazer parte da nojenta e viscosa categoria dos filhos da puta, tal como foram magistralmente definidos por Alberto Pimenta.









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