Resistir à vacina

Sou uma das pessoas mais importantes do mundo. Pode haver algumas mais importantes, dentro da minha família. Tenho amigos, todos eles importantes, mas nenhum é tão importante como eu. Tenho amigos maravilhosos, mas sou muito mais importante do que qualquer um deles, mesmo aqueles que são os melhores amigos. As dores que sinto, quando, por exemplo, bato com um cotovelo numa esquina são infinitamente maiores do que as de uma fractura exposta de qualquer outra pessoa. Há pessoas que se magoam a menos de um metro de mim, sem que eu sinta a mais pequena dor. Peço desculpa, mas é assim mesmo.

Isto quer dizer que também eu quereria ser vacinado antes da larga maioria da população, incluindo uma enorme quantidade de velhos, de enfermeiros, de médicos, de bombeiros, de gente que, em geral, estará mais exposta do que eu ao vírus. E por que razão quereria eu ser vacinado antes de toda essa gente? Porque sou uma das pessoas mais importantes do mundo, como é evidente.

Não tenho conhecidos em lugares suficientemente importantes para conseguir ser vacinado antes dos milhões de pessoas muito menos importantes do que eu, porque como eu não há ninguém.

Se tivesse essa possibilidade, mesmo sabendo que ninguém iria saber, aceitaria ser vacinado? Se um amigo chegasse a minha casa com a vacina na mão, seria eu capaz de resistir a essa oferta? Não sei, gosto de acreditar que sim, mas gostaria de deixar claro que se eu, devido a algum privilégio ou outra circunstância favorável, fosse vacinado antes da minha vez, passaria a fazer parte da nojenta e viscosa categoria dos filhos da puta, tal como foram magistralmente definidos por Alberto Pimenta.

“Obrigado meu deus, finalmente meteste-me na linha” (*)

Alberto_Pimenta_por_Cesar_Figueiredo
(c) César Figueiredo
(*) Título do próprio Alberto Pimenta

dísticos (5)

dizes:
o que eu faço é bom.
dizes:
o que eu faço é para o teu bem.

eu digo:
há quem não esteja contente contigo.
tu dizes:
cala-te.

«dísticos» – Alberto Pimenta, Corpos estranhos (1973)

dísticos (4)
dísticos (3)
dísticos (2)
dísticos (1)

dísticos (4)

dizes:
essa forma não se ajusta às nossas necessidades.

eu registo:
continuas usando o plural majestático.

«dísticos» – Alberto Pimenta, Corpos estranhos (1973)

dísticos (3)
dísticos (2)
dísticos (1)

dísticos (3)

dizes:
eu quero a paz.

sim, acredito.
já seria altura de gozares
o que ganhaste na guerra.

«dísticos» – Alberto Pimenta, Corpos estranhos (1973)

dísticos (2)
dísticos (1)

dísticos (2)

dizes:
é necessário construir o futuro.

agora compreendo porque afundas o presente:
para lançares os alicerces.

«dísticos» – Alberto Pimenta, Corpos estranhos (1973)

dísticos (1)

dísticos (1)

dizes:
eu é que sei quais são os interesses de todos.

e não sabes
que todos sabem também quais são os teus interesses?

«dísticos»Alberto Pimenta, Corpos estranhos (1973)

É rasteiro ganhar na secretaria

Santana Castilho*

Não cito o título do livro, que me perdoe o seu autor, Alberto Pimenta, para não ferir a sensibilidade dos leitores mais puritanos. Mas transcrevo uma passagem (edição de “Regra do Jogo”, 1981, págs. 37 e 38):

“… a secretaria, toda a secretaria da mais baixa à mais alta, não é, como se supõe, o lugar onde se faz, mas o lugar onde se não faz, onde se sonega, onde se põe por baixo do monte o papel que devia estar em cima, onde se perdem os papéis, onde se dificulta, se atrasa, se mente, se mexerica, se intriga, se afirma desconhecer o que se conhece e conhecer o que se desconhece; na secretaria se começa a deixar de fazer aquilo para que a secretaria foi feita … e se passa a fazer o que convém à secretaria que se faça …”.

Modere-se a ideia citada, despindo-a de uma generalização que considero abusiva, tomemos “secretaria” por aparelho administrativo e burocrático que serve o poder político e não nos faltarão factos emblemáticos para ver como tal ideia é actual. [Read more…]

Os Portugueses, por AP, e Alberto Pimenta, por SB

Alberto Pimenta - luz, sombra, brilho. © Sandra Bernardo | Direitos reservados

 

“Os portugueses não formam uma sociedade porque não são sócios uns dos outros. Tomemos os exemplos mais corriqueiros. Na cidade velha, vai-se pela rua e pode-se apanhar com sacos de migas de pão ralado, atirados aos pombos, na cabeça. E a rua está cheia de cagadelas de cão, coisa que não se vê em mais cidade nenhuma, porque cada um entende que o espaço público se pode sujar à vontade. Lisboa é habitada por uma horda que usa fato e gravata e anda de automóvel, mas que não chegou sequer ao patamar mínimo de civilização urbana. Começa-se sempre de cima para baixo. A Lisboa 94, com a sua falta de ideia, fez várias coisas em cima sem haver nada em baixo, confundiu arte com cultura. A cultura começa nas ruas onde se pode andar, no ambiente cuidado, nos jardins tratados, que não existem.

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