“Obrigado meu deus, finalmente meteste-me na linha” (*)

Alberto_Pimenta_por_Cesar_Figueiredo
(c) César Figueiredo
(*) Título do próprio Alberto Pimenta

dísticos (5)

dizes:
o que eu faço é bom.
dizes:
o que eu faço é para o teu bem.

eu digo:
há quem não esteja contente contigo.
tu dizes:
cala-te.

«dísticos» – Alberto Pimenta, Corpos estranhos (1973)

dísticos (4)
dísticos (3)
dísticos (2)
dísticos (1)

dísticos (4)

dizes:
essa forma não se ajusta às nossas necessidades.

eu registo:
continuas usando o plural majestático.

«dísticos» – Alberto Pimenta, Corpos estranhos (1973)

dísticos (3)
dísticos (2)
dísticos (1)

dísticos (3)

dizes:
eu quero a paz.

sim, acredito.
já seria altura de gozares
o que ganhaste na guerra.

«dísticos» – Alberto Pimenta, Corpos estranhos (1973)

dísticos (2)
dísticos (1)

dísticos (2)

dizes:
é necessário construir o futuro.

agora compreendo porque afundas o presente:
para lançares os alicerces.

«dísticos» – Alberto Pimenta, Corpos estranhos (1973)

dísticos (1)

dísticos (1)

dizes:
eu é que sei quais são os interesses de todos.

e não sabes
que todos sabem também quais são os teus interesses?

«dísticos»Alberto Pimenta, Corpos estranhos (1973)

É rasteiro ganhar na secretaria

Santana Castilho*

Não cito o título do livro, que me perdoe o seu autor, Alberto Pimenta, para não ferir a sensibilidade dos leitores mais puritanos. Mas transcrevo uma passagem (edição de “Regra do Jogo”, 1981, págs. 37 e 38):

“… a secretaria, toda a secretaria da mais baixa à mais alta, não é, como se supõe, o lugar onde se faz, mas o lugar onde se não faz, onde se sonega, onde se põe por baixo do monte o papel que devia estar em cima, onde se perdem os papéis, onde se dificulta, se atrasa, se mente, se mexerica, se intriga, se afirma desconhecer o que se conhece e conhecer o que se desconhece; na secretaria se começa a deixar de fazer aquilo para que a secretaria foi feita … e se passa a fazer o que convém à secretaria que se faça …”.

Modere-se a ideia citada, despindo-a de uma generalização que considero abusiva, tomemos “secretaria” por aparelho administrativo e burocrático que serve o poder político e não nos faltarão factos emblemáticos para ver como tal ideia é actual. [Read more…]

Os Portugueses, por AP, e Alberto Pimenta, por SB

Alberto Pimenta - luz, sombra, brilho. © Sandra Bernardo | Direitos reservados

 

“Os portugueses não formam uma sociedade porque não são sócios uns dos outros. Tomemos os exemplos mais corriqueiros. Na cidade velha, vai-se pela rua e pode-se apanhar com sacos de migas de pão ralado, atirados aos pombos, na cabeça. E a rua está cheia de cagadelas de cão, coisa que não se vê em mais cidade nenhuma, porque cada um entende que o espaço público se pode sujar à vontade. Lisboa é habitada por uma horda que usa fato e gravata e anda de automóvel, mas que não chegou sequer ao patamar mínimo de civilização urbana. Começa-se sempre de cima para baixo. A Lisboa 94, com a sua falta de ideia, fez várias coisas em cima sem haver nada em baixo, confundiu arte com cultura. A cultura começa nas ruas onde se pode andar, no ambiente cuidado, nos jardins tratados, que não existem.

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