E “filho da puta” pode ser?

As línguas estão cheias de passado e o passado, já se sabe, nem sempre é um país recomendável. Há por lá uns crimes de sangue, resquícios de colonialismo, racismo com o rabo de fora, disputas antigas entre bisavós que perduram nos bisnetos, antigos insultos com prazo de validade indefinido.

O passado europeu, sendo alegadamente branco, tem um lado negro.

(Cá está: negro, mau, terrível. Será só uma tradicional questão de trevas, mas não faltará quem, correctamente político, se insurja, a lembrar que há a cor da pele de quem se pode sentir ofendido)

Não nos iludamos: a culpa do homem branco tem razões fundas, porque, sob a capa da civilização que levou a outros mundos, houve e há violências várias, desculpáveis ou desculpadas com o contexto, com a cultura do tempo. Nada disso nos deve tolher algum horror (porque um acto histórico pode ser estudado, compreendido e revoltante), como também não nos pode levar a uma culpabilidade eterna, a fazer lembrar o cordeiro que pagou pela água que o avô teria sujado. [Read more…]

Português para espanhóis: foda-se e vai-te foder

Depois de ter falhado a conversão de uma grande penalidade (expressão futebolesa carregada de ressonâncias religiosas), Cristiano Ronaldo acabou por marcar um golo, na marcação de um livre indirecto. A complementar a descompressão, soltou um sonoro e evidente “foda-se!”, essa interjeição tão portuguesa e tão reveladora de alívio, revolta, raiva, frustração ou qualquer outro sentimento à escolha.

Sendo o português e o castelhano línguas de tão próximo parentesco e estando o balneário do Real Madrid em estado de sítio, a comunicação social espanhola, pouco conhecedora da língua portuguesa, deixou-se enganar pela aparência e julgou que Cristiano Ronaldo estaria a insultar alguém, escolhendo Mourinho como hipotético alvo de um insulto inexistente. [Read more…]

Duas Pombas Assassinadas na sua Honra

A grande pomba perseguida Relvas e a grande pomba-abutre ou papagaio-pomba-corvo Filho da Puta. Só nós, os que se licenciaram ou pós-graduaram a sério e a doer, é que não podemos defender a nossa honra e dignidade maltratadas. Após décadas de precariedade, extinguem-nos o trabalho e inviabilizam remunerações dignas dos filhos que fizemos, das famílias que constituímos. Andam estes políticos em regime de excepção, décadas acalentando a sua estufa privativa de milagres homologantes, décadas a abrir a anilha ao capital e aos donos fáticos de Portugal, e ainda lhes sobra lata para defenderem uma coisa, neles extinta ou exilada, chamada honra e bom nome. Quanto mais, por exemplo, o Filho da Puta desde Paris fala ou manda falar da sua honra e do seu bom nome, mais vontade dá de o chibatar sem dó nem piedade. Quanto ao perseguido Relvas, aprenderá cedo pelo menos a calar o bico matraqueante de pomba tagarela?!

A Vítor Gaspar soletrado em três palavras: filho da puta

Trata-se de intervenção do ministro da Economia, que estaria a submeter ao colectivo medidas de intervenção na economia. Terminada a exposição, o ministro Vítor Gaspar afirmou seca e cortantemente: “Não há dinheiro”. Mas Santos Pereira insistiu; e então o ministro das Finanças retorquiu-lhe apenas: “Qual das três palavras é que não percebeu?”. É, efectivamente, um bom número, mas que revela três coisas inquietantes: a pesporrência de Vítor Gaspar, a falta de respeito dele para com o PM e a incapacidade deste para meter na ordem o seu ministro das Finanças.

Magalhães e Silva citando Maria João Avillez

E em filho da puta, qual será a palavra que Vítor Gaspar não percebe?

As Putas

(adao cruz)

(Texto de Marcos Cruz)

(Não deixem de ler. Eu próprio fiquei impressionado)

AS PUTAS

Sinto dever para com quem não tem os meus direitos. Passo, todos os dias, por muita gente que vive de si, apenas, sem qualquer enquadramento externo que não o universo, sem outro tecto que o horizonte vertical, reconfortante, ainda assim, na sua aparência finita, sem outro chuveiro que as nuvens, a cuja vontade própria essa gente obedece, ou resiste, consoante as ordens da sobrevivência, sem outra mesa que a caridade ou o lixo, tantas vezes a mesma coisa, o mesmo despejo, que importa se de culpa ou de sobras materiais, sem outro prazer pessoal que o sentirem-se inteiros, já quase irredutíveis, com cada vez menos a perder, sem outro prazer social que a liberdade, quando ela existe, de fazer amigos entre os iguais, de ser iguais aos iguais, aos que também não têm direitos. É difícil admitir que eles, estes seres humanos, não são os restos do mundo, são o mundo inteiro, contas redondas. As migalhas que escapam são o pó da bola, parada, resignada a girar apenas, como um cão que persegue o seu rabo sem nunca apanhar a pulga, mas ainda assim contente por ver as migalhas, o pó, mudar de sítio ao sabor do seu movimento. Simples panaceia. É como diz o provérbio: enquanto o pau [o pó] vai e vem, descansam as costas. [Read more…]

De Fernando Charrua a Mário Crespo

Os defensores do Governo, os do costume, andam muito escandalizados porque uma conversa privada, num restaurante, foi ouvida por ouvidos alheios e chegou até Mário Crespo.
É muito curioso que essas Virgens ofendidas não tenham tido a mesma preocupação quando, em 2007, o professor Fernando Charrua foi suspenso e processado na base de uma conversa privada, em local público, na qual ele alegadamente chamara filho da puta ao primeiro-ministro.
Pois é, as coisas são sempre vistas pelo prisma que mais interessa. É como as conversas privadas. Podem ser ouvidas, mas depende sempre do que é dito e dos interlocutores envolvidos. É que uns têm mais direito a privacidade do que outros.