Transição energética: a mudança que deixa tudo na mesma

 

Não nego, de forma alguma, a ameaça, sem paralelo, que representam as alterações climáticas. Estou até profundamente convicto que nada é mais urgente que resolver este problema, responsável por criar e agravar um conjunto de outros problemas, todos eles preocupantes. Não obstante, e correndo o risco de ser rotulado de negacionista, tendo em conta aquele que é o pensamento dominante e já bem enraizado, parece-me que a transição energética em curso, na forma e à velocidade a que nos está a ser imposta, ignorando um sem-número de variáveis e consequências que não estão a ser tidas em conta, tem tudo para dar em nada. Na melhor das hipóteses. Pelo menos no que à defesa do clima diz respeito.

Ano após ano, ao longo dos últimos dez, quinze, construiu-se e consolidou-se uma narrativa, no centro da qual está a ideia de que recursos como os painéis solares, os carros eléctricos e os aerogeradores, entre outras tecnologias “verdes”, vão salvar a humanidade da extinção. E, durante muito tempo, poucos foram aqueles que a colocaram em causa. Contra mim falo, que rapidamente me deixei converter à nova religião verde, sem questionar grande coisa. Seguir o rebanho é sempre a opção simpática, principalmente quando tudo parece evidente demais para não ser verdade. Não que considere as tecnologias ditas verdes um embuste. Nada disso. O problema é que não nos estão a contar a história toda. Que não é tão verde como parece.

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O risco do antes de tempo

Ter razão antes do tempo, além de não se traduzir em vantagem alguma, pode ainda ser um sério problema, especialmente se isso implicar decisões fora de tempo. Fala-se, por exemplo, que Steve Jobs teria planos para o iPhone na gaveta alguns anos antes do respectivo lançamento, tendo esperado que a tecnologia permitisse implementar a sua visão do produto. Um lançamento precoce do produto teria morto o conceito e deixado terceiros à cuca da ideia.  A história, verídica ou não, não surpreende, pois o próprio Jobs sentiu na pele a realidade do antes de tempo com o lançamento de um belo computador, o NeXT, mas fazendo-o muito antes do mercado estar para ele preparado. [Read more…]

Carro eléctrico, electricidade-fóssil

Em 2007, a capacidade de produção eléctrica foi a seguinte:

Capacidade de produção eléctrica - Portugal

e na Europa a 27 foi (clicar para aumentar):

Capacidade de produção eléctrica - UE27

Fonte: Statistical pocketbook 2010 (site, PDF, XLS)

Portanto, quando se fazem títulos como este «Carro eléctrico: adeus século do petróleo, olá século da electricidade?», ou quando se decide avançar com projectos megalómanos de redes de abastecimento eléctrico ou quando um primeiro-ministro resolve falar de uma prometida revolução com o carro eléctrico, é preciso não esquecer que

  • mais de 50% da actual produção eléctrica nacional (e europeia também) provem da queima de combustíveis fósseis, com as consequentes emissões de CO2 e dependência energética do exterior;
  • se todos os carros deixassem de queimar combustível para gastar electricidade, simplesmente estaríamos a transferir os actuais problemas dos carros para as centrais termo-eléctricas (para aumentar a capacidade produtiva) e possivelmente ainda haveria questões como a capacidade da rede de distribuição eléctrica e da respectiva eficiência;
  • além de não resolver os problemas energéticos e ambientais, o carro eléctrico vem ainda criar um novo: o da reciclagem das baterias (produto de elevado perigo ambiental);
  • finalmente, a adopção de tecnologias embrionárias tem o elevado risco de se escolher as que não vingam (que o digam, por exemplo, os que apostaram no formato vídeo betacam ou no HD DVD) e de poderem ser caras e com baixo rendimento.

Não tenho grandes dúvidas sobre um futuro com o carro eléctrico mas aposto que não o veremos em massa com as actuais tecnologias. Enquanto uma alternativa prática aos combustíveis fósseis não for encontrada, estes ímpetos modernistas não passam de um frisson para embelezar programas eleitorais.

Leituras adicionais: