Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 2 – Guilherme Felgueiras


«O povo, inclinado ao romance e à poesia e dotado de espírito imaginoso (por vezes pueril mas quase sempre devaneador), bordou a sorrir esta fantasiosa anedota de carácter parabólico, sobre os três rios que nascem nas serranias de Espanha – o Guadiana, o Tejo
e o Douro:
– Em tempos vagos, quando o mundo era ainda jovem e todos os elementos da natureza falavam, estes rios irmãos estiraçaram-se em seus “leitos”, dispostos a dormir. Combinaram que, mal acordassem, abalariam por caminhos diferentes em direcção ao mar.
O primeiro a despertar foi o Guadiana. Placidamente foi serpenteando, escolhendo chãs e vales aprazíveis, por entre meandros charnequeiros alentejanos e divagantes planuras algarvias.
O Tejo, acordou em seguida. Indo no encalço do irmão, apressou a marcha através de outeiros, sulcando as terras do centro, até encontrar vastas campinas e fartas lezírias, onde placidamente se espraia.
Estremunhado, o Douro acordou por fim, ciclópico e arrogante. Não vendo os irmãos, galgou com ímpeto erosivo, cavando seu leito em terras nortenhas, por ente muralhas petrificadas e estranguladas gargantas, rumorejando através de fraguedos bravios e cachoando em “gualgueiros” e sorvedoiros perigosos, vencendo a escabrosidade do trajecto.»

Guilherme Felgueiras, O Rio Douro Lendário (1973)

Outros textos:

1 – Francisco José Viegas

Quando Morre um Escritor?

…um escritor morre quando renega a sua palavra escrita no papel.

Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 1 – Francisco José Viegas


Publicarei a partir de hoje alguns textos sobre o Douro e o Tua. Os seus autores serão aqueles que eu escolher e todos aqueles que o quiserem ser. Basta enviarem-nos textos pessoais sobre o magnífico património cultural e paisagístico que em breve Portugal deixará de ter. Ilustres ou não, de Esquerda, de Direita ou sem ideologia, uma coisa unirá todos eles: a oposição à construção de uma Barragem que irá garantir apenas 0,1% da energia produzida em Portugal em troca de muitos milhões a pagar pelos mesmos de sempre. Estão todos convidados.
Para começar, o depoimento sentido de Francisco José Viegas, actual Secretário de Estado da Cultura e desde sempre um feroz opositor da construção da Barragem do Tua. Natural do Pocinho, no Douro, terra de comboios e de vistas magníficas, Viegas cresceu a ver o Douro tal como ele é. E quantas vezes não o terá descido de comboio ou de barco. Não admira, por isso, que o Douro e o Tua sejam dois dos seus lugares de eleição – e daí este depoimento tão sentido, tão humano, tão verdadeiro. Tão corajoso.
Viegas fala com o coração e sente-se que por ali as lágrimas espreitam, numa torrente que se prevê mais forte e arrebatadora do que o Douro antes da construção das Barragens. Neste texto, Viegas é uma espécie de Cachão da Valeira. É isso, um Cachão da Valeira cujas águas poderosas ultrapassam as margens e vão inundar a terra portuguesa. A nossa alma.
Sorridente, lá no céu, o Barão de Forrester, precocemente desaparecido no Cachão da Valeira, aplaude Viegas e proclama: «Este é o homem certo para defender o nosso Douro. Com ele, estamos seguros.» As pedras rumorejam, as árvores ciciam e aprendem a soletrar um nome. V-i-e-g-a-s!
A rubrica «Todos contra a Barragem 0,1%» não podia começar melhor. Eis o texto de Francisco José Viegas: [Read more…]