A UNESCO e o Tua

José Manuel Pavão,
Mirandela, 17-7-2012


Bem pode o laureado Souto Moura, arquitecto muito apreciado e distinguido nos Foruns internacionais, puxar pela cabeça, esmerar-se e caprichar no seu projecto de tentar ocultar a gigantesca parede de betão que a poderosa EDP, contra ventos e marés sob os protestos de esclarecidos resistentes dos Movimentos Cívicos e insuspeitos órgãos de informação (…), decidiu construir na foz do rio Tua em arriscada e porventura negligente colisão com o estatuto do Douro Património Mundial.
Ainda que a sua obra possa ser aplaudida, cujo preço os portugueses por enquanto desconhecem mas que por certo não contemplará nenhum desconto ao dono da encomenda, ela será sempre um bonito penso de proteção em cima duma cicatriz testemunha de má e insensata intervenção do seu executor!
Chegados ao epílogo deste tempestuoso romance configurado na construção apressada duma barragem hidro-eléctrica no ponto onde o sofrido rio Tua se entrega extenuado no portentoso Douro, já não vale a pena argumentar com a destruição dum vale único pela sua singular beleza, nem da sua linha ferroviária orgulho da Engenharia portuguesa e que com alguma imaginação poderia ser a alavanca para o tão necessário quanto vital desenvolvimento sustentado da região empobrecida que parece não causar preocupação aos sucessivos governos da República. Como também não vale a pena trazer de novo à baila os poderosos argumentos fruto de cuidados estudos universitários que demonstram ser dispensável a intervenção no rio Tua como fonte de aumento de produção energética. [Read more…]

Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 2 – Guilherme Felgueiras


«O povo, inclinado ao romance e à poesia e dotado de espírito imaginoso (por vezes pueril mas quase sempre devaneador), bordou a sorrir esta fantasiosa anedota de carácter parabólico, sobre os três rios que nascem nas serranias de Espanha – o Guadiana, o Tejo
e o Douro:
– Em tempos vagos, quando o mundo era ainda jovem e todos os elementos da natureza falavam, estes rios irmãos estiraçaram-se em seus “leitos”, dispostos a dormir. Combinaram que, mal acordassem, abalariam por caminhos diferentes em direcção ao mar.
O primeiro a despertar foi o Guadiana. Placidamente foi serpenteando, escolhendo chãs e vales aprazíveis, por entre meandros charnequeiros alentejanos e divagantes planuras algarvias.
O Tejo, acordou em seguida. Indo no encalço do irmão, apressou a marcha através de outeiros, sulcando as terras do centro, até encontrar vastas campinas e fartas lezírias, onde placidamente se espraia.
Estremunhado, o Douro acordou por fim, ciclópico e arrogante. Não vendo os irmãos, galgou com ímpeto erosivo, cavando seu leito em terras nortenhas, por ente muralhas petrificadas e estranguladas gargantas, rumorejando através de fraguedos bravios e cachoando em “gualgueiros” e sorvedoiros perigosos, vencendo a escabrosidade do trajecto.»

Guilherme Felgueiras, O Rio Douro Lendário (1973)

Outros textos:

1 – Francisco José Viegas

Quando Morre um Escritor?

…um escritor morre quando renega a sua palavra escrita no papel.

Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 1 – Francisco José Viegas


Publicarei a partir de hoje alguns textos sobre o Douro e o Tua. Os seus autores serão aqueles que eu escolher e todos aqueles que o quiserem ser. Basta enviarem-nos textos pessoais sobre o magnífico património cultural e paisagístico que em breve Portugal deixará de ter. Ilustres ou não, de Esquerda, de Direita ou sem ideologia, uma coisa unirá todos eles: a oposição à construção de uma Barragem que irá garantir apenas 0,1% da energia produzida em Portugal em troca de muitos milhões a pagar pelos mesmos de sempre. Estão todos convidados.
Para começar, o depoimento sentido de Francisco José Viegas, actual Secretário de Estado da Cultura e desde sempre um feroz opositor da construção da Barragem do Tua. Natural do Pocinho, no Douro, terra de comboios e de vistas magníficas, Viegas cresceu a ver o Douro tal como ele é. E quantas vezes não o terá descido de comboio ou de barco. Não admira, por isso, que o Douro e o Tua sejam dois dos seus lugares de eleição – e daí este depoimento tão sentido, tão humano, tão verdadeiro. Tão corajoso.
Viegas fala com o coração e sente-se que por ali as lágrimas espreitam, numa torrente que se prevê mais forte e arrebatadora do que o Douro antes da construção das Barragens. Neste texto, Viegas é uma espécie de Cachão da Valeira. É isso, um Cachão da Valeira cujas águas poderosas ultrapassam as margens e vão inundar a terra portuguesa. A nossa alma.
Sorridente, lá no céu, o Barão de Forrester, precocemente desaparecido no Cachão da Valeira, aplaude Viegas e proclama: «Este é o homem certo para defender o nosso Douro. Com ele, estamos seguros.» As pedras rumorejam, as árvores ciciam e aprendem a soletrar um nome. V-i-e-g-a-s!
A rubrica «Todos contra a Barragem 0,1%» não podia começar melhor. Eis o texto de Francisco José Viegas: [Read more…]

Procura-se Francisco José Viegas por crimes contra a Humanidade

Por ironia do destino, Francisco José Viegas nasceu no Pocinho, terra onde termina uma das mais belas linhas ferroviárias do nosso país, a Linha do Douro. O Pocinho fica no concelho de Vila Nova de Foz Côa, local onde há uns anos se conseguiu impedir a construção de uma Barragem que iria submergir um extenso conjunto de gravuras rupestres do período Paleolítico.
Alguns anos depois, Francisco José Viegas, que não se comove com essas coisas, prepara-se para ser o coveiro de uma das mais belas regiões do país, o Vale do Tua, e seguramente da mais bela linha ferroviária de Portugal e da única ligação que ainda permanece ao serviço das populações de Trás-os-Montes. Pelo meio, ainda será capaz de destruir a classificação do Douro como Património da Humanidade.
Aliás, a estratégia dos últimos dias parece ser essa. Ameaça-se com a perda da classificação do Douro, para, no final, garantir a continuidade da mesma e, como estava planeado, destruir o Vale e a Linha do Tua. [Read more…]

«Vimos por este meio solicitar que à Região do Alto Douro Vinhateiro seja retirada de imediato a classificação de Património da Humanidade»

Carta enviada hoje por Correio para os responsáveis da UNESCO e do ICOMOS. Enviado também por mail para todos os membros das duas instituições. Enviado pelo Facebook para todos os apaixonados pelo Douro em Portugal e no Mundo*

Dear Sirs,

In 2001, UNESCO classified the Alto Douro Wine Region in northern Portugal, as a World Heritage Site.
In February 2011, the construction of a hydroelectric dam near the mouth of the River Tua, Dam Foz-Tua began, after the project was approved by the Government of Portugal. This dam will destroy all the Tua Valley and its railway and it will cause irreparable losses with regards to the natural, cultural and human heritage of that area and all the Alto Douro Wine Region, classified as World Heritage by UNESCO.
In December 2011, the Government of Portugal, through the Secretary of State for Culture, announced that the construction of the dam wouldn’t be suspended.
Therefore, we hereby request that the classification of heritage site is removed immediately from the Alto Douro Wine Region, since such a classification is not compatible with a landscape marked by a pile of concrete that destroys one of the most important natural regions of Europe.
If it doesn’t happen, UNESCO itself is in question, since it accepts that a landscape is totally garbled after being classified as a World Heritage Site.

Yours Sincerely,

Attachements:

Before: Tua Valley and its Railway – video and photos
Now: Works at Tua Valley
After: Dam Foz-Tua

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TRADUÇÃO PARA PORTUGUÊS [Read more…]

O Douro Pobre – Patrocínio EDP

O Douro pode estar em risco de perder a designação Património da Humanidade

…com o Alto Patrocínio da EDP e do seu mural censório

 

 

A Utilidade d'um Submarino

Com o alto (90 metros) patrocínio da EDP.