A chapada e a queda das máscaras

Após dias de autêntica vergonha nacional, em que o respeito pelo votos dos emigrantes andou a ser arrastado pela lama, valeu o Tribunal Constitucional ter tido a coragem de obrigar a classe política a fazer algo que deveria ser básico, mas, infelizmente, não é: cumprir a lei.

Foi uma bela e firme chapada que o Tribunal Constitucional deu, de forma a arrancar as máscaras que escondiam os rostos hipócritas dos partidos políticos que há anos andam a brincar com os votos dos emigrantes. Como se os partidos políticos tivessem qualquer tipo de legitimidade para violar a lei aplicável, só porque estão de acordo em fazê-lo.

Os mesmos partidos que durante anos não mexeram uma palha para estabelecer um regime de votação justo, ágil e consentâneo com a realidade social e tecnológica dos dias de hoje.

Mas, porquê esta desconsideração pelos emigrantes?

É que, num país que tanto tempo e dinheiro gasta a celebrar a famosa “diáspora”, a emigração é, na verdade, uma pedra no sapato dos partidos políticos. Pois é a prova cruel e peremptória da incompetência da classe política em concretizar o país justo, coeso, solidário e próspero, que a Constituição da República consagra.

Ao fim de mais de 40 anos de democracia, continua-se a emigrar para buscar fora o que aqui não há: melhores salários, melhores carreiras, respeito e estímulo à progressão e à valorização, etc. Ou seja: continua-se a emigrar para encontrar o respeito que por cá não mora. Respeito por quem investe nos estudos, na inovação, no conhecimento, no apuramento de aptidões. Respeito pelo valor do trabalho.

E esta é a melhor prova de que os partidos políticos intervenientes em todo este processo – os mesmos que não legislam quando e como devem, antes se põem de acordo em não cumprir a lei de acordo com as conveniências -, são incompetentes e hipócritas.

Conselho da diáspora

conselho diaspora

Olhem para eles. Alguns já estão lá fora (os de maior merecimento, diga-se, onde não se inclui o traste do Durão). Muitos ainda estão cá dentro (embora merecessem estar dentro em sentido mais…prisional). Ora, se isto é a instituição do conselho da Diáspora – cujo objectivo é, parece, tornar Portugal tão famoso pelo mundo fora como o Cristiano Ronaldo, figura, de resto, surpreendentemente ausente deste conselho – então, oh dia esperançoso, pode ser que todos os da foto se integrem também na Diáspora! Se dispersem. Para longe. Longe da vista, que longe do coração já eles estão há muito.

O rejuvenescimento amargo da Diáspora Portuguesa

Há dias, na RTP2, vi fortuita e parcialmente um programa dedicado à relação dos portugueses com o Brasil. Integrava imagens e depoimentos de um jovem luso licenciado em informática – penso – emigrante em S. Paulo. Manifestava contentamento. Encontrara emprego compatível com as habilitações académicas. Fora muito bem acolhido na empresa. E a terminar reforçou não sentir saudades do país onde nasceu, cresceu e estudou.

O citado fragmento de programa trouxe-me à memória Rui e Joana, dois jovens namorados, que emigraram para Paris há cerca de ano e meio.

O Rui formou-se em farmácia, com 16 valores. Para ingressar no ensino superior escolhera medicina. Mas a média de 18,4 valores, precisamente 0,2 abaixo do mínimo, impeliu-o para a segunda opção, farmácia. A Joana optou por psicologia. Terminou também com nota equivalente a ‘bom’.

Concluídos os cursos, desunharam-se na busca de emprego. Distribuíram centenas de C.V., uns no formato clássico, outros no formato europeu e ainda alguns em formatos ditados por impulsos ocasionais. Compareceram a dezenas de entrevistas, de tempo desperdiçado.

O melhor que Rui conseguiu foi trabalho temporário, intermitente e mal pago: substituir ajudantes de farmácia em duas ou três semanas de férias. Hoje aqui, depois a 30 ou 40 km de casa. A Joana, por sua vez, sujeitou-se a regime de trabalho semelhante, como promotora nas chamadas grandes superfícies. Um fim-de-semana promovia a margarina, daí a três semanas os corantes de cabelo e não logrou fugir desta capilaridade de trabalho raro e retribuído à média de 5 euros à hora.

Rui e Joana comungam de relação sólida desde os tempos da secundária; e ainda de atributos louváveis. Têm bom senso e há muito ambicionam constituir família. Sempre alimentaram o firme desejo do ingresso efectivo na idade adulta. Quebrar de vez a dependência em relação aos pais e a subjacente adolescência prolongada. Sentiam, porém, que a precariedade do trabalho era a precariedade das próprias soluções de vida escolhida. Percebiam que, no seu país, se integravam no grupo social que, na gíria, se chama a “geração à rasca” – na década de 90, do século XX, já houvera a “geração rasca”; mas, nos tempos correntes, o problema é mais sério e não é propício a euforias, atreladas a concertos de Pedro Abrunhosa. [Read more…]