Após dias de autêntica vergonha nacional, em que o respeito pelo votos dos emigrantes andou a ser arrastado pela lama, valeu o Tribunal Constitucional ter tido a coragem de obrigar a classe política a fazer algo que deveria ser básico, mas, infelizmente, não é: cumprir a lei.
Foi uma bela e firme chapada que o Tribunal Constitucional deu, de forma a arrancar as máscaras que escondiam os rostos hipócritas dos partidos políticos que há anos andam a brincar com os votos dos emigrantes. Como se os partidos políticos tivessem qualquer tipo de legitimidade para violar a lei aplicável, só porque estão de acordo em fazê-lo.
Os mesmos partidos que durante anos não mexeram uma palha para estabelecer um regime de votação justo, ágil e consentâneo com a realidade social e tecnológica dos dias de hoje.
Mas, porquê esta desconsideração pelos emigrantes?
É que, num país que tanto tempo e dinheiro gasta a celebrar a famosa “diáspora”, a emigração é, na verdade, uma pedra no sapato dos partidos políticos. Pois é a prova cruel e peremptória da incompetência da classe política em concretizar o país justo, coeso, solidário e próspero, que a Constituição da República consagra.
Ao fim de mais de 40 anos de democracia, continua-se a emigrar para buscar fora o que aqui não há: melhores salários, melhores carreiras, respeito e estímulo à progressão e à valorização, etc. Ou seja: continua-se a emigrar para encontrar o respeito que por cá não mora. Respeito por quem investe nos estudos, na inovação, no conhecimento, no apuramento de aptidões. Respeito pelo valor do trabalho.
E esta é a melhor prova de que os partidos políticos intervenientes em todo este processo – os mesmos que não legislam quando e como devem, antes se põem de acordo em não cumprir a lei de acordo com as conveniências -, são incompetentes e hipócritas.
Isso cria um cenário perfeito em que cada saída de casa nos faz sentir num episódio de Black Mirror. Nada melhor do que este terrorismo visual para perpetuar a ansiedade coletiva. Contagiaram-nos com a sensação de que toda a gente à nossa volta – a horda de zombies açaimados – está potencialmente doente. Parecem estar: vejam aquela gorda, a subir a rua com as compras neste dia de sol abrasador, a suar como um porco, a ofegar como um bulldog asmático. Não tira a máscara: deve estar doente. E este jovem e aparentemente saudável estudante, neste dia de tempestade, com o rosto encharcado e a máscara tão translúcida que permite ver os contornos da sua boca? Há muito que a máscara já não o protege, mas ele não a tira: deve estar muito doente. E assim se preserva esta pusilanimidade colectiva.







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