O rejuvenescimento amargo da Diáspora Portuguesa

Há dias, na RTP2, vi fortuita e parcialmente um programa dedicado à relação dos portugueses com o Brasil. Integrava imagens e depoimentos de um jovem luso licenciado em informática – penso – emigrante em S. Paulo. Manifestava contentamento. Encontrara emprego compatível com as habilitações académicas. Fora muito bem acolhido na empresa. E a terminar reforçou não sentir saudades do país onde nasceu, cresceu e estudou.

O citado fragmento de programa trouxe-me à memória Rui e Joana, dois jovens namorados, que emigraram para Paris há cerca de ano e meio.

O Rui formou-se em farmácia, com 16 valores. Para ingressar no ensino superior escolhera medicina. Mas a média de 18,4 valores, precisamente 0,2 abaixo do mínimo, impeliu-o para a segunda opção, farmácia. A Joana optou por psicologia. Terminou também com nota equivalente a ‘bom’.

Concluídos os cursos, desunharam-se na busca de emprego. Distribuíram centenas de C.V., uns no formato clássico, outros no formato europeu e ainda alguns em formatos ditados por impulsos ocasionais. Compareceram a dezenas de entrevistas, de tempo desperdiçado.

O melhor que Rui conseguiu foi trabalho temporário, intermitente e mal pago: substituir ajudantes de farmácia em duas ou três semanas de férias. Hoje aqui, depois a 30 ou 40 km de casa. A Joana, por sua vez, sujeitou-se a regime de trabalho semelhante, como promotora nas chamadas grandes superfícies. Um fim-de-semana promovia a margarina, daí a três semanas os corantes de cabelo e não logrou fugir desta capilaridade de trabalho raro e retribuído à média de 5 euros à hora.

Rui e Joana comungam de relação sólida desde os tempos da secundária; e ainda de atributos louváveis. Têm bom senso e há muito ambicionam constituir família. Sempre alimentaram o firme desejo do ingresso efectivo na idade adulta. Quebrar de vez a dependência em relação aos pais e a subjacente adolescência prolongada. Sentiam, porém, que a precariedade do trabalho era a precariedade das próprias soluções de vida escolhida. Percebiam que, no seu país, se integravam no grupo social que, na gíria, se chama a “geração à rasca” – na década de 90, do século XX, já houvera a “geração rasca”; mas, nos tempos correntes, o problema é mais sério e não é propício a euforias, atreladas a concertos de Pedro Abrunhosa.

De súbito, Rui e Joana, por influência de um amigo, tiveram uma saída. Em Paris, e aí moram, há mais de um ano, para os lados da Porte Maillot. Em pequeno mas confortável apartamento. Ambos trabalham em empresa de limpeza de interiores de edifícios. O Rui planeia e controla a actividade das várias equipas. A Joana chefia uma delas, não deixando de ser – graceja ela – uma espécie de ‘concierge’ ambulante.

Sentem-se felizes, apesar de exercerem trabalhos desqualificados em relação às licenciaturas obtidas no seu país; país, aliás, a que não desejam regressar, nem para férias. Os sentimentos que lhes restam da terra natal centram-se nos familiares mais próximos, que os visitam; e em alguns amigos com quem convivem via ‘Facebook’ e ‘Twitter’.

Como no século XIX em relação ao Brasil e na década de 60 do século XX para outras paragens, Rui e Joana são emigrantes por imperativos económicos. A diáspora portuguesa está, pois, em processo de rejuvenescimento. Trata-se, contudo, de um rejuvenescimento amargo, feito à custa de considerável número de jovens de formação superior, desiludidos, amargurados e ressentidos com a terra onde vieram ao mundo.

A comemoração e o festim são instrumentos comuns em política, até em relação à diáspora portuguesa.  Casos semelhantes ao de Rui e Joana estão em expansão. Muito provavelmente, esses jovens rejeitarão, no futuro, participar em cenas teatrais, no palco que os enjeitou.

Comments


  1. Engraçado, é a minha situação, embora no meu caso tenha vindo parar a Itália


  2. Caro P, ao escrever o ‘post’, acreditei que não estava a limitar-me a um casal ficcionado, mas a inúmeros jovens portugueses que realmente têm emigrado nos últimos tempos, pelas dificuldades que descrevi.
    E o seu caso é a prova de que, infelizmente, estou certo. Felicidades em Itália.

  3. graça dias says:

    Infelizmente, também o caso do meu filho, e de duas sobrinhas. e infelizmente não estão sozinhos.

  4. maria monteiro says:

    inscreveram-se num partido politico (quanto mais para a direita e centro melhor) / transformem-se em católicos devotos…, vendam a alma a falsossantos e …. deixem de pensar, de ver, de amar… enfim… ingressem nas fileiras da sociedade civil do século xxi

  5. Pedro says:

    e eu vou ser o próximo…


  6. Sim claro, aqui por Itália as coisas também não estão fáceis, mas o que custa é sair de Portugal, depois aprendem-se línguas, melhora-se o currículo e troca-se de pais novamente se for preciso.
    Sinceramente o que me fez sair de Portugal, foi a injustiça dos recibos verdes, e da pouca seriedade com que se trata as pessoas que querem trabalhar e que qualquer dia tem de pagar para o fazer.


  7. A inscrição num parido também poderá ser solução, mas, no final, os beneficiados é um número escasso. Segundo jovens familiares, aquilo lá dentro, é guerra pura e dura. Por isso, as juventudes partidárias põem no pedestal os ‘Josés Sócrates’ e os ‘Pedros Passos Coelho’, rodeados de mei-dúzia de amigos.
    Em resumo: a inscrição é na maioria dos casos para fazer quórum.


  8. Maria, desculpa os erros, mas escrevi à pressa. Tenho um compromisso esta manhã.


  9. Dentro de semanas estarei em situação semelhante. Não vou ao engano julgando que será tudo melhor. Até porque acredito que não há povos inferiores a outros. No entanto os países não são muitas vezes a imagem do povo que os habita. As elites, as lideranças, as religiões, isso sim, conforma a mentalidade e a cultura vigente. Esse sempre foi o problema deste país, excepto talvez em períodos fugazes quando por necessidade e/ou por imposição externa nos libertamos dessas grilhetas. Coincidência ou não, foram alguns dos períodos em que o país deu saltos de desenvolvimento igualando ou superando até as sociedades mais desenvolvidas suas contemporâneas. Resta ao povo descobrir a vontade para mais uma vez se libertar daquilo em que se deixou envolver no último quartel do séc. XX. Os principais entraves serão talvez o incessante fatalismo e a demissão generalizada dos deveres de cidadania que grassa por toda a sociedade portuguesa e que explica a crescente descrença no seu país dos portugueses inconformados.

    • Luís Moreira says:

      Se a sociedade civil não se organiza, não faz ouvir a sua voz, não é capaz de enfrentar os partidos e as corporações, então não vamos a lado nenhum.Cá no país faz-se ouvir quem grita mais alto, não quem tem razão. E boa sorte para a sua vida, o meu filho esteve na Itália e na Holanda e adorou lá trabalhar. Chamou-o o sol ,o mar e a luz de Lisboa.Mas foi uma bela experiência.


  10. Caro OsB, as grilhetas de que fala, em meu entender, são estruturais e conduzidas por quem tem dirigido o país nas últimas décadas.
    Há vários grupos sociais agrilhoados, mas um deles é sem dúvida o dos jovens sujeitos ao castigo do desemprego ou, na melhor das hipóteses, ao trabalho precário pago a recibos verdes, ou mesmo à tarefa e sem recibo. Vislumbram um futuro sombrio. É natural, portanto, a fuga sem retorno.


  11. Caro Carlos Fonseca, é minha convicção que numa democracia, quem está mal (acrescentaria “e em minoria”)… muda-se. Aos inconformados com o actual estado da sociedade portuguesa não restam muitas alternativas, sendo a emigração uma delas. A gravidade desta nova hemorragia, por comparação com as anteriores, é que o tipo de emigrante é muito distinto do das décadas de 60 e 70 (para não recuarmos muito no tempo). Naquela altura exportávamos gente desqualificada, muitas vezes quase ou completamente analfabeta, que acabavam por aprender um ofício ou arte lá fora, ou seja, qualificavam-se lá fora. Os filhos acabavam por receber pelo menos nos primeiros anos de escolaridade, a educação no país de acolhimento. Mas estes emigrantes na sua maioria acabavam por regressar à terra, concretizando o sonho de lá construir a sua casinha e com o pouco ou muito amealhado, viver o resto da vida um pouco mais desafogados que os demais conterrâneos.
    A onda de emigração de hoje nada tem a ver com as que a precederam. É composta em boa parte por jovens qualificados, muitos deles com educação de nível superior, graduado e pós-graduado, a quem a sociedade iludiu com promessas de trabalho à medida das expectativas criadas, que levaram ao investimento, deles ou dos pais, num percurso académico longo, exigente e oneroso. Para, ao entrarem no mercado de trabalho, terem à sua espera desemprego ou com alguma sorte um qualquer biscate a recibos verdes, nem sempre trabalhando na área em que se formaram. Sendo obrigados a adiar continuamente ambições legítimas de habitação independente, estabilidade financeira, constituição de família, etc…
    Mas não só estes jovens ou as suas famílias são flagelados. As implicações são bem mais graves e extensas, ultrapassando o domínio do drama e angústia pessoal e familiar. Pois essa qualificação custou-nos a todos. Sim, todos… os que por opção ou falta dela ainda pagam os impostos devidos. Estamos a exportar gente que adquiriu qualificações pagas em boa parte pelos contribuintes, e pelas quais não recebemos nada em troca enquanto sociedade. É que da emigração de 60 e 70, exportávamos bocas às quais não dávamos sustento que lá iam enviando poupanças, uns francos franceses ou suíços, outros marcos ou libras. Pois é… a importância que teve durante décadas essa entrada de divisa estrangeira… Agora nem isso importa, pois só as libras restam e a taxa câmbio já não é a que era.
    Quanto aos novos emigrantes, pela sua natureza e pelas benesses oferecidas por este mundo tecnológico em que vivemos, a barreira da língua, as diferenças culturais, a distância da família, já não tem o efeito coibitivo que teve nos que os precederam. Não será sequer de esperar que a maioria faça planos de regressar no médio ou longo prazo. Excepção talvez, para uns tantos dias de férias de longe em longe, para matar saudades da família… e da sardinha assada. Valha-nos a sardinha assada.


  12. Caro OsB, não podia estar mais de acordo. Subscrevo, na íntegra, o seu texto.

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