As hipocrisias nacionais

Na Madeira mente-se em legítima defesa, significando isto que se pode gastar dinheiro sem para isso se ter legitimidade. Na verdade, isso nem é exclusivo da Madeira, bastando olhar para os ajustes directos para se perceber que a prática tem historial. A Parque Escolar, por exemplo desdobrou obras para caberem nos ajustes directos, em clara violação da lei. Tal como na Madeira, as diversas autoridades vieram sacudir a água do capote com o habitual “fomos enganados, de nada sabíamos”.  A diferença limita-se à arrogância com que AJJ vem declarar que foi de propósito e como passa pelos pingos de chuva sem se molhar: ganha votos na Madeira, onde passa por herói e talvez um dia lhe seja aplicada uma multa simbólica. Neste buraco madeirense, apenas uma coisa me intriga. Tendo a Madeira 267.938 habitantes (dados Censos 2011) e atendendo a que não se fez uma fogueira com notas de euro, para onde foram os 1,11 mil milhões de euros gastos para além das restantes transferências autorizadas (as quais, só por si, já foram uma pipa de massa)?

Quanto às hipocrisias nacionais, contava Ana Sá Lopes no último Contraditório (minuto 15:50) o episódio de, no último orçamento, estar Teixeira dos Santos no Plenário a atirar-se aos gastos da Madeira quando, ao mesmo tempo, estava Jorge Lacão a negociar com Guilherme Silva a introdução de mais despesa. Tudo isto é muito vitoriano: desde que não seja público não faz mal. Só que agora é preciso justificar aumento de impostos e há contas a pagar… Quantos casos destes haverá por este país fora? Sobre este mesmo tema, transcrevo ainda o editorial do Público de hoje. Tal como nele se escreve, «a repetir-se, esta farsa só ressurgirá como tragédia».

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Legítima Defesa

Isto é um assalto…

…mas é em legítima defesa.

Educação para todos?

No país cuja Constituição consagra a gratuitidade do ensino, obter uma Educação de qualidade é um luxo que muitas famílias não podem pagar, com perdas nas vidas individuais e com prejuízos para uma nação que continua a não investir no fundamental, enquanto chama “investimentos” a estádios de futebol e a exposições mundiais ou enquanto desvia impostos e cortes salariais para desmandos privados e disparates regionais.

Diante dos que são impedidos de continuar a estudar, muitos argumentarão que “sempre foi assim” ou que “não somos todos iguais” ou que “não podem ser todos doutores”. Dos jovens ouviremos frases como “Tive de ir trabalhar, que os meus pais não tinham dinheiro para eu continuar a estudar.”

O arrepiante de tudo isto é que estes ditos são iguais àqueles que eram pronunciados antes do 25 de Abril. Já se sabe que não somos todos iguais, mas, numa democracia moderna, esperar-se-ia que tivéssemos oportunidades semelhantes, que pudéssemos contar com um Estado em busca de justiça social. Em vez disso, sempre ao arrepio de uma Constituição que tantos querem alterar, temos um Estado a esvaziar-se, muito contente com o dinheiro que vai obter nas privatizações, com anéis e dedos metidos no mesmo saco.

As finanças públicas, atacadas por vícios privados, poderão ficar, finalmente, equilibradas. Numa contradição que me será sempre estranha, o país ficará tão bem como mal continuarão as pessoas.

Eu gasto, vocês pagam

Cada madeirense deve 30 mil euros, o dobro da média nacional

Este título do Público (com ligação só para assinantes) faz lembrar a brincadeira que é costume fazer nos restaurantes, quando, na hora de pagar a conta, um grupo de, por exemplo, quatro convivas propõe ao criado de mesa que divida o total por cinco, sobrecarregando virtualmente o pobre assalariado e virtualmente aliviando as finanças dos pagantes. É igualmente costume que a brincadeira acabe com os cinco a rir e os quatro a pagar.

Transferindo a graçola para o país (e também para a Madeira), aquilo que não deveria passar de uma piada é uma ideia tão arreigada que nem sequer parece estranho a um jornalista dividir por todos os madeirenses uma dívida criada por uma minoria de senhores com obra feita e benefícios pessoais à custa de dinheiros públicos.

Vou dormir e sonhar com um mundo em que todos pagássemos as minhas férias ou as minhas cervejas. Todos, menos eu, claro.