Nada é o que parece

É um domingo cinzento, de chuva miudinha, um dia frio, chato, um tempo tinhoso, que raio de ideia vir de passeio. Abrigada sob as colunas da praça vai-se fazendo a feira de coleccionismo das manhãs de domingo. Compram-se e vendem-se moedas, selos, fotos de louras em topless, estampas dos três pastorinhos e da virgem de Fátima. Um septuagenário aguerrido regateia o preço de um DVD com a Sofia Loren na capa. Um míope muito míope examina os selos amarelados que lhe tentam impingir.

Os três velhotes, em pose conspiratória, falam baixinho e não mostram grande interesse pela feira. Podem ser reformados a discutir a situação política e social. É provável que falem de futebol e critiquem as opções do treinador. Podem trocar queixas sobre o custo de vida e os cortes nas pensões. São baixinhos, todos vestidos de subtis gradações de cinzento, dois com óculos, o terceiro de boné. Falam baixinho, sim, mas com entusiasmo, e ao passar escuto:

– Tu o que tens que fazer é criar um nick, que é um nome que tu inventas para a gaja não saber quem tu és. E depois dizes o que te apetecer: que és alto, louro, rico, e que a tens grande.

Riem todos à socapa, como miúdos a preparar a maior partida de sempre.

Congratulo-me por saber que os info-excluídos estão em vias de extinção.

Nós é que amamos. Portugal, Chile e os seus costumes

 http://www.youtube.com/watch?v=P-4cWnh-uek

Sonhava, reconheço, sonhava. Parecia-me que o Chile e Portugal, eram dois países semelhantes: debates, desencontros, divertimentos, demissões. Países em festa que parecem ser uma pantomima, como as suas relações todas cortadas, sem se entenderem entre eles, como devem ser, quando se governa: há quem diz, há quem diz que nada disse, toma-se o dito por não dito. Era um sonho, quase pesadelo, porque eram os meus países, especialmente Portugal: correcto ou incorrecto, o seu comportamento político e arte de governo, mas meu país, nos bons e maus momentos. No meu sonho, devo ter pensado que Portugal era como a Nação Mapuche que habita no Chile. O meu sonho, de um quase impossível entendimento entre partidos políticos, muito semelhantes. Faziam a festa e passavam a conta ao povo. Vou contar esse sonho, mudando o nome das hierarquias que nos governam, ao que eu vi no meu sonho. Uma metáfora…de países na sua infância… [Read more…]

Desencontro

pessoas que se estimam mas não se entendem

Apareci em Portugal em Dezembro de 1980 a convite do Instituto de Ciências Gulbenkian e do Instituto de Ciências do Trabalho e da Empresa, denominado ISCTE nesses tempos.

Apareci de visita desde a minha britânica Universidade de Cambridge, na Grã-Bretanha, com licença de apenas um mês do meu catedrático Jack Goody, orientador que ainda não tinha, à época, sido enobrecido.

Mal pisei terra lusa, senti-me confortável e fui bem recebido, esse dia e sempre. As pessoas eram amáveis, mostravam interesse pela vida dos outros e éramos bem acolhidos. Não me parecia ser estrangeiro a usufruir da amizade do povo luso europeu. Pelo contrário, as pessoas tinham tempo para almoçar juntas, para conversar e o trabalho era tão leve, como na minha universidade inglesa. Leve por não estar sobrecarregado de aulas, leve, por não ter imensos discentes sentados a ouvir esse sotaque que não podia retirar da minha fala, como narro no texto As Minhas memórias do ISCTE, publicado neste sítio de debate de saberes.

O debate era o mais interessante neste país. Tínhamos o Seminário UNESCO orientado por mim em Portugal e Maurice Godelier em França, bem como criámos o

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