Desencontro

pessoas que se estimam mas não se entendem

Apareci em Portugal em Dezembro de 1980 a convite do Instituto de Ciências Gulbenkian e do Instituto de Ciências do Trabalho e da Empresa, denominado ISCTE nesses tempos.

Apareci de visita desde a minha britânica Universidade de Cambridge, na Grã-Bretanha, com licença de apenas um mês do meu catedrático Jack Goody, orientador que ainda não tinha, à época, sido enobrecido.

Mal pisei terra lusa, senti-me confortável e fui bem recebido, esse dia e sempre. As pessoas eram amáveis, mostravam interesse pela vida dos outros e éramos bem acolhidos. Não me parecia ser estrangeiro a usufruir da amizade do povo luso europeu. Pelo contrário, as pessoas tinham tempo para almoçar juntas, para conversar e o trabalho era tão leve, como na minha universidade inglesa. Leve por não estar sobrecarregado de aulas, leve, por não ter imensos discentes sentados a ouvir esse sotaque que não podia retirar da minha fala, como narro no texto As Minhas memórias do ISCTE, publicado neste sítio de debate de saberes.

O debate era o mais interessante neste país. Tínhamos o Seminário UNESCO orientado por mim em Portugal e Maurice Godelier em França, bem como criámos o

seminário luso – luso. Éramos poucos, porém muito amigos. A vida desenvolvia-se dentro das, nesse tempo, duas paredes do edifício antigo. Digo antigo ou original, porque depois crescemos tanto, que foi necessário construir mais prédios e novas licenciaturas, mestrados e doutoramentos.

A amizade era cultivada. A minha casa estava sempre cheia de colegas ou discentes. Reuniões não apenas de amigos, era um debate permanente sobre política e como reconstruir Portugal após Séculos de dominação monárquica e de ditadura. As cabeças tinham uma grande obrigação: pensar o futuro e como seria.

Portugal tinha sido libertado das garras, mas os pensamentos ficaram vazios, obrigados como estavam a não pensar por ordem do ditador desses tempos. O facto de não ter ideias, acabou por fazer de nós construtores da nossa própria realidade. Habituado na minha universidade britânica, passava todo o dia no meu Gabinete como tutor de discentes, a explicar assuntos que as aulas não permitiam por serem curtas e a nossa ambição muito cumprida: sermos a melhor academia de Portugal e, se possível, da Europa.

Portugal vivia fechado dentro das suas próprias fronteiras. Só era possível sair do país por dois motivos: emigrar para ganhar dinheiro, investido no país, ou para fugir da eterna guerra entre portugueses e etnias rebeldes das colónias avassaladas pela metrópole.

No 25 de Abril de 1974, poucos anos antes de eu aparecer por estas terras, houve o que já sabemos: um levantamento militar para salvar a vida das colónias e ficarem a par e passo da metrópole. Normalmente, os levantamentos militares são para matar inimigos ideológicos, como tinha acontecido antes no país, mas raramente para a salvação nacional.

Portugal era o único país europeu que, nesses anos, ainda tinha países colonizados. A Grã-Bretanha, a Maior colonizadora do mundo nos tempos modernos, tinha libertado os seus vassalos e ensinou-os governarem-se por si próprios. Portugal liberalizou os países e colaborou no ensino e alfabetização dos que agora eram livres, mas não sabiam como se governar. A antiga metrópole colaborou e enviou professores, médicos voluntários e docentes para assim organizar a lei, destroçada pelos anos de dominação e recuperar a memória perdida na luta permanente pela independência.

O desencontro tinha acabado e foi transferido para o Continente, principalmente para a Assembleia da República onde partidos de fundação antiga, não sabiam ainda muito bem como se governar sem colónias e sem entradas de lucro baseadas no comércio ditatorial.

Foi este facto que acordou a minha consciência para ficar em Portugal e desenvolver estudos através dos meus orientados de teses. Eu próprio participei nessa aventura e, ao longo dos 33 anos que vivo neste país, colaborei na abertura, noutras academias, de áreas temáticas que nos possibilitaram saber nós próprios como transferir essa aventura dos portugueses fugidos por causa da guerra para outros países europeus, e abrir o pensamento: o nosso, em África e na Índia.

Eu tinha perdido uma batalha no Chile. Pensei que Portugal seria o desencontro da ditadura do Chile e dos seus esbirros que continuavam a perseguir antigos prisioneiros, como narro no livro Para sempre tricinco. Allende e Eu e assim levantar o desencontro existente entre o nosso fracasso e o sucesso de Portugal.

Estas ideias estavam já na minha cabeça ao analisar as formas de reorganizar um país que passa de uma dinastia para outra. Ou melhor dizendo, que se rebela contra os usurpadores da autonomia de um reino de longa data. Batalha de grande sucesso que nos mantém unidos, portugueses, em alerta laranja para nunca mais acontecer o domínio de uns sobre outros.

Eis porque Portugal é um país aberto. Teve que lutar muito ao longo dos séculos para manter a sua autonomia. Como criar Universidades, melhorar o ensino, definir leis para corrigir desencontros dentro do lar e defender os mais novos ou os mais fracos, sempre punidos pela Violência Doméstica.

Um país em construção que nunca mais pára de encontrar alternativas para a sua reconstrução, especialmente nestes dias que começam a ser duros por causa das leis ditatoriais do nosso Governo.

Parece-me que fiz bem em ficar por Portugal. A vida pública é a que mais ordena, como dizia Zeca Afonso. E a essa vida pública tenho entregue a minha capacidade de agir, pensar, colaborar. Sinto-me português e gosto desta Pátria.

Era isto que me faltava acrescentar às minhas ideias sob 

seminário luso – luso. Éramos poucos, porém muito amigos. A vida desenvolvia-se dentro das, nesse tempo, duas paredes do edifício antigo. Digo antigo ou original, porque depois crescemos tanto, que foi necessário construir mais prédios e novas licenciaturas, mestrados e doutoramentos.

A amizade era cultivada. A minha casa estava sempre cheia de colegas ou discentes. Reuniões não apenas de amigos, era um debate permanente sobre política e como reconstruir Portugal após Séculos de dominação monárquica e de ditadura. As cabeças tinham uma grande obrigação: pensar o futuro e como seria.

Portugal tinha sido libertado das garras, mas os pensamentos ficaram vazios, obrigados como estavam a não pensar por ordem do ditador desses tempos. O facto de não ter ideias, acabou por fazer de nós construtores da nossa própria realidade. Habituado na minha universidade britânica, passava todo o dia no meu Gabinete como tutor de discentes, a explicar assuntos que as aulas não permitiam por serem curtas e a nossa ambição muito cumprida: sermos a melhor academia de Portugal e, se possível, da Europa.

Portugal vivia fechado dentro das suas próprias fronteiras. Só era possível sair do país por dois motivos: emigrar para ganhar dinheiro, investido no país, ou para fugir da eterna guerra entre portugueses e etnias rebeldes das colónias avassaladas pela metrópole.

No 25 de Abril de 1974, poucos anos antes de eu aparecer por estas terras, houve o que já sabemos: um levantamento militar para salvar a vida das colónias e ficarem a par e passo da metrópole. Normalmente, os levantamentos militares são para matar inimigos ideológicos, como tinha acontecido antes no país, mas raramente para a salvação nacional.

Portugal era o único país europeu que, nesses anos, ainda tinha países colonizados. A Grã-Bretanha, a Maior colonizadora do mundo nos tempos modernos, tinha libertado os seus vassalos e ensinou-os governarem-se por si próprios. Portugal liberalizou os países e colaborou no ensino e alfabetização dos que agora eram livres, mas não sabiam como se governar. A antiga metrópole colaborou e enviou professores, médicos voluntários e docentes para assim organizar a lei, destroçada pelos anos de dominação e recuperar a memória perdida na luta permanente pela independência.

O desencontro tinha acabado e foi transferido para o Continente, principalmente para a Assembleia da República onde partidos de fundação antiga, não sabiam ainda muito bem como se governar sem colónias e sem entradas de lucro baseadas no comércio ditatorial.

Foi este facto que acordou a minha consciência para ficar em Portugal e desenvolver estudos através dos meus orientados de teses. Eu próprio participei nessa aventura e, ao longo dos 33 anos que vivo neste país, colaborei na abertura, noutras academias, de áreas temáticas que nos possibilitaram saber nós próprios como transferir essa aventura dos portugueses fugidos por causa da guerra para outros países europeus, e abrir o pensamento: o nosso, em África e na Índia.

Eu tinha perdido uma batalha no Chile. Pensei que Portugal seria o desencontro da ditadura do Chile e dos seus esbirros que continuavam a perseguir antigos prisioneiros, como narro no livro Para sempre tricinco. Allende e Eu e assim levantar o desencontro existente entre o nosso fracasso e o sucesso de Portugal.

Estas ideias estavam já na minha cabeça ao analisar as formas de reorganizar um país que passa de uma dinastia para outra. Ou melhor dizendo, que se rebela contra os usurpadores da autonomia de um reino de longa data. Batalha de grande sucesso que nos mantém unidos, portugueses, em alerta laranja para nunca mais acontecer o domínio de uns sobre outros.

Eis porque Portugal é um país aberto. Teve que lutar muito ao longo dos séculos para manter a sua autonomia. Como criar Universidades, melhorar o ensino, definir leis para corrigir desencontros dentro do lar e defender os mais novos ou os mais fracos, sempre punidos pela Violência Doméstica.

Um país em construção que nunca mais pára de encontrar alternativas para a sua reconstrução, especialmente nestes dias que começam a ser duros por causa das leis ditatoriais do nosso Governo.

Parece-me que fiz bem em ficar por Portugal. A vida pública é a que mais ordena, como dizia Zeca Afonso. E a essa vida pública tenho entregue a minha capacidade de agir, pensar, colaborar. Sinto-me português e gosto desta Pátria.

Comments

  1. Raul Iturra says:

    Escrevi este texto no dia próprio, 1 de Dezembro, para explicar a minha frustração de ter mudado da minha universidade britânica para uma lusa. Foi, reconheço, muito autobiográfico, personalizado, sem ir o elo da Restauração. Escrevi um segundo texto para preencher as imensas lagunas que tinham aparecido antes no texto autobiográfico. Espero que este refazer do texto, tenha sido útil para os que tiveram a paciência do ler. Agradeço todos os comentários, porque este é o sítio deles!

  2. graça dias says:

    prof, descreve o povo e portugal, com um verdadeiro sentido de pátria que não é a sua, mas que o acalheu. parabéns e obrigada

Deixar uma resposta