O futuro será não-violento ou não será

Inspirada na metodologia da não-violência de Gandhi, a associação Ekta Parishad luta pelo direito à terra e aos recursos naturais de milhões de indianos. Candidatos ao Nobel 2014, desafiam o mundo a escolher uma economia não-violenta.

485 pequenos Gandhis

 

(imagem: Portal de Morro Agudo.com)

Foram quase 500, as crianças que se fantasiaram na Índia no passado domingo 29 de janeiro, imitando o líder pacifista indiano e marcando os 64 anos da morte de Gandhi (30 de janeiro de 1948).
Organizações não governamentais realizaram o evento com a participação de 485 crianças carentes, numa marcha pacifista, como não poderia deixar de ser.
Estes meninos marcaram um novo recorde do Guiness de pessoas reunidas vestidas de Gandhi.
Não obstante as dificuldades que já conheceram (muitos sem pais) e que enfrentarão no futuro, que fique pelo menos a lembrança deste dia tão especial nas suas vidas em que foram estrelas, em que se viram fotografadas e conhecidas pelo mundo, ficando na história do Guiness…
Mas que fique na sua memória, acima de tudo, a mensagem de Gandhi: a luta pela verdade e pela não violência.
Um ótimo modelo a seguir, a imitar, pela vida fora.

O mundo é dos violentos

 Há dias ouvi um grupo de adolescentes a descrever com entusiasmo os confrontos entre a polícia e os traficantes de droga ocorridos recentemente no Rio de Janeiro. O episódio do helicóptero abatido pelos traficantes era contado de forma apoteótica. Simulavam o ruído dos tiros, das hélices a falhar, do aparelho a cair, e tudo era motivo de excitação. Podia ser um filme do Vin Diesel ou do velhinho Stallone que eles contavam, em vez de uma reportagem no Telejornal.

 

Mas o que ficava claro é que a violência continua a ser fixe. A violência continua a ser estilosa, seja no estilo brutamontes do Rambo ou nas curvas revestidas a couro negro da Trinity. A indústria do entretenimento, longe de incentivar uma crescente repulsa em relação à violência, continua a promover os violentos como ícones da força, do poder, do triunfo sobre os fracos de quem, já sabemos, não rezará a história. Em teoria, os exemplos de Gandhi ou de Luther King podem ser louváveis, mas não vendem.

 

Resistir à violência, recusá-la como resposta, costuma caracterizar os totós a quem o herói de serviço terá de ir salvar, para que as audiências, com um risinho sarcástico, possam troçar das boas intenções que não salvam o mundo. Essas criaturas apologistas da não-violência são normalmente caracterizadas ou como intelectuais desadaptados, com óculos de cu de garrafa e livros de lombada grossa debaixo do braço, ou como tontos neo-hippies, que evocam a era de Aquário e um Siddharta mal lido.  

 

Há heróis não-violentos na indústria do entretenimento? Muito poucos. Sobretudo tendo em conta o número estrondoso de brutos munidos de navalhas, facas, sabres, pistolas, revólveres, espingardas, carabinas, metralhadoras, lança-mísseis, e coisas ainda mais letais, e que assim resolvem os males próprios e os do mundo.

 

Dir-me-ao que a violência nos ecrãs tem uma função catártica que evita o uso dessa mesma violência no mundo real. Acho que já superámos esse ponto há muito. Atordoados por muitas cenas de horror reais e ficcionais, e às vezes sem saber qual é qual, já nos habituamos não só a não pestanejar quando alguém tomba no ecrã, como a glorificar aqueles que, yippee-ki-yay motherfucker, salvam o dia com uma revoada de socos e pontapés, um balázio certeiro ou uma litrada de nitroglicerina. Afinal, bem vistas as coisas, os heróis da não-violência sempre tombam assassinados e um herói morto já não tem piada nenhuma.