O mundo é dos violentos

 Há dias ouvi um grupo de adolescentes a descrever com entusiasmo os confrontos entre a polícia e os traficantes de droga ocorridos recentemente no Rio de Janeiro. O episódio do helicóptero abatido pelos traficantes era contado de forma apoteótica. Simulavam o ruído dos tiros, das hélices a falhar, do aparelho a cair, e tudo era motivo de excitação. Podia ser um filme do Vin Diesel ou do velhinho Stallone que eles contavam, em vez de uma reportagem no Telejornal.

 

Mas o que ficava claro é que a violência continua a ser fixe. A violência continua a ser estilosa, seja no estilo brutamontes do Rambo ou nas curvas revestidas a couro negro da Trinity. A indústria do entretenimento, longe de incentivar uma crescente repulsa em relação à violência, continua a promover os violentos como ícones da força, do poder, do triunfo sobre os fracos de quem, já sabemos, não rezará a história. Em teoria, os exemplos de Gandhi ou de Luther King podem ser louváveis, mas não vendem.

 

Resistir à violência, recusá-la como resposta, costuma caracterizar os totós a quem o herói de serviço terá de ir salvar, para que as audiências, com um risinho sarcástico, possam troçar das boas intenções que não salvam o mundo. Essas criaturas apologistas da não-violência são normalmente caracterizadas ou como intelectuais desadaptados, com óculos de cu de garrafa e livros de lombada grossa debaixo do braço, ou como tontos neo-hippies, que evocam a era de Aquário e um Siddharta mal lido.  

 

Há heróis não-violentos na indústria do entretenimento? Muito poucos. Sobretudo tendo em conta o número estrondoso de brutos munidos de navalhas, facas, sabres, pistolas, revólveres, espingardas, carabinas, metralhadoras, lança-mísseis, e coisas ainda mais letais, e que assim resolvem os males próprios e os do mundo.

 

Dir-me-ao que a violência nos ecrãs tem uma função catártica que evita o uso dessa mesma violência no mundo real. Acho que já superámos esse ponto há muito. Atordoados por muitas cenas de horror reais e ficcionais, e às vezes sem saber qual é qual, já nos habituamos não só a não pestanejar quando alguém tomba no ecrã, como a glorificar aqueles que, yippee-ki-yay motherfucker, salvam o dia com uma revoada de socos e pontapés, um balázio certeiro ou uma litrada de nitroglicerina. Afinal, bem vistas as coisas, os heróis da não-violência sempre tombam assassinados e um herói morto já não tem piada nenhuma.  

 

 

Comments


  1. Os heróis nunca são gente de massa cinzenta, investigadores e gente cultura. Inteligência nos punhos ou nos pés (no caso dos futebolistas)


  2. Ok, então achas que boa cabeça não têm. E bom coração?


  3. Podem ter bom coração, mas a bondade é a mais rara das virtudes…


  4. Claro que para mim herói é o investigador que vai além do conhecido, na ciência, nas letras, na filosofia. É mais corajoso escrevermos pela primeira vez uma palavra do que dar um pontapé em alguem.Especialmente, porque só se dá o pontapé se estivermos em vantagem.


  5. Tudo depende da situação concreta. Uma ou duas palavras podem, de facto ser um acto de grande coragem – estou a lembrar-me do «obviamente, demito-o» do Delgado. Um pontapé, se é dado por um oprimido num opressor que a seguir lhe dá um tiro, também é um acto de suprema coragem.


  6. Creio que estamos a falar de coisas diferentes. Refiro-me à glorificação do comportamento violento (e quando falo em violência não me refiro a uma situação de auto-defesa), à representação do comportamento agressivo de uma forma atractiva, sedutora, que suscite aos mais jovens (e não só) o desejo de seguir esse exemplo.   


  7. É evidente, Carla. Só respondi ao comentário do Luís. Quanto ao que defende no seu texto, estou inteiramente de acordo. E não acredito na função catártica da violência na TV.


  8. Sim, Carla, que leva os jovens a pensar que a violência é que vale a pena, e que é corajosa, que tem mérito, que resolve problemas…

  9. O Gomes says:

    Obrigado Carla pelo seu comentário, é deveras interessante e importante. Achei-o assim como uma chuva oportuníssima num deserto de ideias confrangedor, onde os interesses das tais indústrias a que se refere se sobrepõem aos interesses sociais de ter uma população educada, com valores e princípios éticos, que é o mesmo que ter, ao fim e ao cabo,respeito por si própria.  Se somarmos a isso outras, como a do sexo por exemplo já temos um universo de situações quase incontrolável onde a tal violência está presente com uma dimensão incomensurável,como deve calcular, porque da pedofilia ao rapto e à escravatura levada a cabo por redes mafiosas, que operam também no trafico  das armas, vale tudo! Daí o eu achar que tem que ser do meio da sociedade que se têm que levantar as vozes de discordância, de indignação e de inconformismo, mesmo que apelidadas de totós. Daí o meu obrigado com que comecei o este comentário, pela oportunidade que me deu , com a sua intervenção, de juntar a minha à sua voz e assim já não estamos sós neste (não muito grande) universo de totós O Gomes


  10. Caro Gomes, agradeço o seu comentário. Quero crer que, ainda que dispersos por aí, e por vezes silenciosos, já não somos assim tão poucos, nós os totós.