Rui Nero Rio

O mal não é só nosso, mas grande parte da História da arte portuguesa narra gloriosos feitos de destruição do património artístico. Os Painéis de Nuno Gonçalves estavam a servir de andaime numas obras em S. Vicente de Fora mas lá foram salvos do macio calçado dos trolhas, é um exemplo, pintura perdida é incontável  – basta imaginar tudo o que um artista régio como Nuno Gonçalves terá executado e por vastos andaimes se perdeu. Altares barrocos eliminados de igrejas românicas ou góticas nas primeiras décadas do século passado contam-se às dezenas. O fresco na arte portuguesa é escasso, levou camadas de cal por cima. E tivemos igrejas e colégios inteiros, por exemplo em Coimbra por conta e obra de uma universidade à medida da ditadura e seu Cottinelli Telmo, reduzidos a entulho. Ou castelos devastados porque já não serviam para a guerra (passatempo que muito arquitecto ainda hoje pratica, esquecido de que está a mexer numa obra de um colega, ide a Óbidos e vereis, embora o estrago pior ainda tenha sido evitado por um autarca culto).

O terramoto de 1755 ao pé destes e tantos outros exemplos não é nada, até porque só afectou seriamente meio território.

Faltava-nos um demolidor intensivo. Um Nero incendiário. Já temos. Chama-se Rui Rio. Usa o orçamento camarário e acaba de ganhar uma nota de rodapé nos futuros manuais de História da Arte do séc. XXI. Espero que a adjectivação não falte a quem vier, a seu tempo, tratar do assunto, e que merecidamente se revolva no túmulo.

Rui rio e Hazul

O Café S. Cruz faz 90 anos

Deve estar dado como demodé ter um café, esses simpáticos estabelecimentos que em séculos mudaram o mundo.  Como por aqui já narrei ainda sou cliente principalmente de um, o mui distinto Café S. Cruz que hoje perfaz 90 anitos, coisa pouca, o edifício vai a caminho dos 500 e é monumento nacional.

Em tempos idos, perante a necessidade de escolher um edifício quinhentista para um trabalho académico, e andando com pouca vontade de defrontar as eternas dificuldades de uma igreja aberta ao culto, locais onde nunca foi consumidor, optei por este, complicado, fui avisado por quem sabia e mais sabe do assunto, mas até eu olhando muitas vezes para as mesmas paredes consigo encontrar qualquer coisa que justifique a nota. Não me dei mal. Mais tarde, e porque gosto pouco da ciência em circuito fechado, cravei uns amigos e chegámos à um livrito, a ideia era tê-lo ali à disposição dos visitantes que chegam, dizem Ah! isto parece uma igreja, e foi mesmo.

A coisa correu mal, a vereação da câmara achou que o café que a serve (e é propriedade do município) não valia uns tostões investidos em livros (investidos, a proposta foi que garantissem a compra de alguns exemplares da brochura, baratucha, oferecem coisa bem piores quando recebem alguém), e ficou o ficheiro.

Hoje é um bom dia para oferecer o texto a quem o queira ler. Teria uns acrescentos para lhe colocar mas fica assim, como estava em 1999. Detalhes técnicos à parte a história tem a sua graça, e continua deturpada por aí, a começar pela página oficial dos monumentos, já foram avisados há muito tempo, sem efeito.

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