Pelos finais da década de 1970 era rotina nos cafés de Coimbra sermos tratados como hoje se lida com qualquer sem abrigo. As mesadas eram curtas, a cerveja mesmo assim muita e sobretudo a cidade ainda não tinha descoberto o seu caminho para capital dos putos bêbados.
Um dia entrei no vizinho Café S. Cruz, lugar com famas várias não me sendo nenhuma simpática muito por todos os contrários e ocorreu um fenómeno: vindos de outro planeta os finos chegavam pela mão de um empregado que me tratava por você e quando lhe paguei ainda disse obrigado. Avisei os amigos e fizemos uma expedição. Seria um trabalhador solicitando seu próprio despedimento?
Não era. O próprio patrão tinha esse modo alienígena de lidar connosco como se fôssemos clientes, isto é, pessoas. Atrás do balcão, o sr. Alexandre, patronato do Inácio Cidade, o tal empregado e um dos grandes homens que também me ensinou a sê-lo, do Hugo, do Pinto e do Costa, na pior das hipóteses sugeria educada e discretamente que estávamos a incomodar os vizinhos da mesa ao lado, nos dias em que a coisa nos estava a correr biericamente melhor.
O Café Santa Cruz ganhou clientes para o resto das nossas vidas e nem havia necessidade: não há café mais belo no mundo do que este onde agora escrevo, num pc emprestado pela casa, depois de saber que Alexandre Silva Marques, o homem que vindo de Moçambique em 74 tomou conta desta casa na altura mais que queimada (era entre outros descalabros comerciais o poiso dos pides, dos homossexuais e dos unionistas, concorrendo enquanto café com brasileiras e arcádias de outras clientelas, estabelecimentos no entretanto extintos) deixou de respirar o ar da terra onde habitamos. Poucas vezes e tão discretamente me dei tão bem com um homem tão distante de mim em tanta coisa, como me continuo a dar com os seus familiares. Obrigado por tudo e volte sempre, hoje sr. Alexandre, sou eu a dizer.







Näo há vez nenhuma que vá a Coimbra que näo pare aqui.
A primeira vez foi com o meu pai, já lá väo uns anos, a última com um colega de trabalho finlandês que visitava Portugal numa reuniäo de trabalho. Lembro-me de que até nos pediram desculpas pelo barulho, porque haveria uma ocasiäo especial e estavam a montar um escaparate. E embora tivessem que realinhar as mesas, disseram-nos sempre para ficarmos o quanto tempo quiséssemos, deixariam a nossa mesa para o fim. Pequenas coisas que acontecem por acaso mas que marcam pela positiva. Pois é, näo é por acaso.
Obrigado Sr. Alexandre.
Há pessoas assim. O João Cardoso, fez muito bem evocar este episódio de vivências de coisas simples e mutuamente gratas. E ser grato é um gesto de altruísmo, que nos torna mais conscientes.Eu também sou Inácio.