Suicídio pedagógico

A proposta patrocinada por alguns Institutos Politécnicos de admitir estudantes sem qualquer exame de acesso corresponde a um suicídio institucional e um recuo que. em alguns casos, não terá remédio nem remissão. Foi para isto que tanta gente tentou dar outra dimensão ao ensino politécnico, emancipando-o de perspectivas anacrónicas, malgrado todos os atropelos e atalhos duvidosos que este processo envolveu? Todos sabemos que existem profundas assimetrias de qualidade entre os diversos politécnicos e mesmo no interior de cada um entre os diversos cursos. Por outro lado, a falta de estabilidade e clarificação institucional faz com que cursos politécnicos possam ser excelentes durante algum tempo e colapsar por motivos acidentais como um despacho ministerial sobre requisições de docentes, um capricho de gestão, uma decisão como a que agora se procura aprovar e que desvalorizará irremediavelmente os Politécnicos que a ela aderirem e porá em causa o próprio sistema. O Ensino Politécnico não tem de ser o parente pobre do sistema; mas o estatuto de igualdade conquista-se com exigência, rigor e qualidade técnica e científica. Não com medidas oportunistas para encher salas abandonadas pelos alunos.

Nuno Crato, o marialva bissexto

Um dia, deu-me para escrever sobre o político marialva, essa espécie que, aparentemente, é frontal e corajosa, sendo que essa aparência não passa de um verniz que engana jornalistas incompetentes e portuguesinhos preguiçosos.

Nuno Crato integrou muito bem esse rebanho e o recente projecto de passar o ensino profissional para os institutos politécnicos é mais um sintoma de uma integração perfeita. Vejamos.

Há pouco tempo, Nuno Crato explicou, com aparente frontalidade, que havia menos alunos e que, portanto, não havia lugar para tantos professores nas escolas básicas e secundárias. Dito de outra maneira: se as escolas não conseguem angariar mais clientes, têm de despedir trabalhadores.

De repente, descobre-se que os institutos politécnicos estão em dificuldades, havendo, igualmente, falta de alunos. O ministro marialva do parágrafo anterior teria uma solução muito simples: despedir professores. Estranhamente, Nuno Crato inventa uma solução absurda, baseada em argumentos absurdos, mantendo uma sobranceria marialva face a ensino não superior, que, de acordo com esta medida, será, mais uma vez, sacrificado.

O marialvismo, no entanto, não passa de um verniz que estala de modo evidente: quem se mostra tão servil diante do superior é, afinal, um fraco, tal como quem precisa de mentir para justificar o despedimento de milhares de professores.

Os institutos politécnicos poderão passar a leccionar cursos profissionais

O ensino politécnico, em Portugal, é um subsistema do ensino superior. Nos últimos anos, o número de alunos tem diminuído, o que constitui um problema cujas causas não serão difíceis de adivinhar, num país em crise.

Graças, muito provavelmente, a jogos de bastidores, que devem ter incluído queixas pungentes, Nuno Crato propõe que os institutos politécnicos passem a leccionar os cursos profissionais do ensino secundário, como uma das formas para resolver problemas de financiamento desses mesmos institutos. Segundo o ministro, essas instituições seriam necessárias ao país, ao contrário, depreende-se, dos milhares de professores que ficaram sem emprego, graças às muitas medidas tomadas pelo agora cavaleiro-defensor dos politécnicos.

Com a mesma mistura de leviandade e de desonestidade, Nuno Crato diz que os politécnicos “têm professores, instalações e conhecimentos que muitas escolas secundárias não têm”. É claro que não sabemos em que se baseia para fazer tais afirmações, mas a verdade é que isso não faz parte das suas preocupações.

Esta medida não visa melhorar o ensino profissional, como é evidente. Para além de colocar professores do ensino superior a dar aulas ao secundário, tarefas que exigem habilitações e competências diferentes, Nuno Crato irá contribuir para aumentar ainda mais o desemprego entre os professores do ensino básico e secundário, gente, pelos vistos, sem conhecimentos.

O adjectivo “vergonhoso” para qualificar o consulado deste ministro já é eufemismo.