Ainda a questão da Hora Legal

A questão da mudança da hora, recentemente suscitada pela Comissão Europeia, passou por aqui sem grande discussão ou esclarecimento público, pelo menos sem a discussão e o esclarecimento que eventualmente mereceria, para além do referendo digital que, alegadamente, veio estabelecer uma opinião maioritária dos “europeus” sobre o tema. E, ao contrário do que possa parecer, o tema é muito importante: o Tempo abstracto. Pois foi a criação do Tempo abstracto que, ainda antes da invenção do relógio mecânico, fundou as bases do capitalismo e, em grande medida, a subjugação do Homem ao poder de outros homens.

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Metro do Porto sem papel

Falta pouco para as 17h00 e, na estação  “Casa da Música”, há, como é costume, muito movimento. Há duas máquinas de venda de títulos de transporte. Uma não funciona, a outra tem à frente uma ordeira fila de passageiros. Ao lado dessa máquina está uma funcionária, aparentemente para ajudar os passageiros, porque, uma década depois da inauguração da primeira linha, muitos portuenses (e que dizer dos turistas?) continuam a não entender o complicado sistema de zonas implementado.

Espero pacientemente pela minha vez e, quando ela chega, descubro que a janelinha no topo do ecrã que eu estava a ver desde o fundo da fila serve para informar que a máquina não está a emitir recibos.

Viro-me para a funcionária para confirmar aquilo que acabo de ler.

Ela confirma.

O dia foi de muito calor no Porto, a minha tarde também não está a ser assim tão boa, por isso eu insisto, presumindo que não estou a perceber bem.

– Não emite recibos? Mas tem de emitir!

A funcionária faz má cara, mas oferece-se para meter papel na máquina, enquanto os passageiros atrás de mim bufam e começam a rogar-me pragas.

– Se a senhora quiser eu posso meter papel, tenho é de abrir a máquina.

Isto com a minha operação já em curso, e um metro prestes a chegar.

Respondo-lhe que o papel já deveria lá estar, ao que ela contesta:

– Mas o papel acaba, não acaba? [Read more…]

Ilusão

(adão cruz)

Na máquina de sujar em que estamos metidos, o stress é o glutão mais eficaz. Tira a mais pequena nódoa de limpeza num abrir e fechar de olhos. Com a desvantagem de que nem é preciso comprar. Ele vende-se. É completo. Produto e promotor, tudo incorporado, dois-em-um que divide como quem corta relva e une como quem varre o chão. Sem darmos por ela, fez de nós seus aliados na luta contra o tempo: nós crentes de que a luta era contra a passagem do tempo, ele ciente de que a luta era contra o seu aparecimento. Uma coisa e outra, claro, são inúteis. No limite, tudo é: o stress não vive menos iludido do que nós. Ele, como o tempo, como nós, também passa. E talvez a melhor maneira de lhe mostrar isso seja fazê-lo crer, como ele nos faz em relação ao tempo, que lutamos contra a sua passagem, estando cientes de que lutamos contra o seu aparecimento. Por outras palavras, viver bem na sua companhia. Dar-lhe o melhor. Dar-lhe amor. Dar-lhe tempo. [Read more…]

Sócrates ligado à máquina

A máquina – PGR que não vê, Presidente do Supremo que não dá explicações, empresas públicas que usam o dinheiro público para manobras vergonhosas, boys pagos a peso de ouro que autorizam a publicação das escutas como se a publicação dependesse da sua vontade, comunicação social que publica ou não conforme os negócios em carteira, Presidente da República que demite se isso interessar e não arruinar a renovação do mandato, Assembleia da República que pode constituir maioria para avançar com uma moção de confiança – pode desligar a qualquer momento, Sócrates o soberbo, é a pessoa mais dependente que vive em Portugal.

Mesmo mantendo-o artificialmente ligado, ficará em condições de fazer a sua vida, ou já é um vegetal apenas com o PS e os negócios a fornecer oxigénio?

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