
(adão cruz)
Um dia destes fui sujeito a um banho prolongado de lugares-comuns, cascata refrescante de palavras sobre o meu corpo confuso, cansado, sujo. De início, lutei contra o paradoxo de palavras mais velhas do que a sua sombra me tirarem anos (não de vida, mas) de cima dos ombros. No fim, rendi-me à mensagem-massagem que por mim escorria: todos vivemos num lugar-comum. Para quê, então, sofisticar? Para quê o requinte da ironia, o verniz do cinismo? Para quê escondermo-nos neles, se nos deixam tão expostos como as mãos de um bebé que tapa os olhos para se tornar invisível?
Se tudo passa, se até o stress passa, se até a vida passa, o interesse dos outros não fugirá à regra (a fugir, será para mostrar que a regra também passa). O interesse que nos interessa e o que não. O stress que nos stressa e o que não. As obsessões, as paixões, as alegrias, as tristezas, os rios, os mares, as chuvas, os sóis, as tempestades, os fogos, os corpos, as almas, as verdades, as mentiras, as ciências, as religiões. Os conceitos. Os preconceitos.
Agarremo-nos, portanto, a um único (e o maior) contra-senso: a consciência de que tudo passa. É verdade que, se tudo passa, a consciência também, mas aproveitemos o contra-senso no seu todo, ou seja, corpo e significado. No corpo, aproveitemos o hífen como ponte e passemos do contra para o senso. Pode ser que, lá chegados, o significado seja outro. Se não for, seja como for, há-de passar.






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