Fatiotas

Der hof Heinrichs IV. ahmte Spanisches wesen auf sklavische weise nach und sprach mit Vorliebe Spanisch.

— Trautmann (1880), apud Runge (1973)

Norris: Are you attempting to tell me my duties, sir?

Philip Marlowe: No, just having fun trying to guess what they are.

— The Big Sleep (1946)

In further reference to [ʀ], he [Vischer] calls it adulterated, contemptible, perverted, and even describes it as a “castration” of tongue-trilled [r], since he considers the latter to be the “most masculine” of all sounds.

— Runge (1973)

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Segundo o Diário da República de hoje, a verificação de fatos que exijam tomada de posição urgente pode conduzir à realização de reuniões de emergência. É verdade que o assunto em apreço diz apenas respeito à Comissão de Trabalhadores do Instituto Politécnico de Bragança. Todavia, os actuais responsáveis por esta situação

deveriam seguir o exemplo aqui exposto e convocar uma reunião de emergência para este assunto (fatos) ser discutido. É verdade que essa reunião teria feito mais sentido e tido mais impacto há uns anos, quando os culpados foram alertados para a situação (pdf). Recordo que a culpa não é minha. Nunca promovi a adopção do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, não encolhi os ombros, não assobiei nem para o ar nem para o lado, não tapei o sol com a peneira, não fiz de conta que não estava a chover, logo, não sou responsável pela concomitante proliferação de fatos, contatos e seções no Diário da República e alhures. Convém que os culpados se mexam. Não vos escondais. Mexei-vos.

Efectivamente, enquanto o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 for adoptado, é escusado utilizarem o Dia Mundial da Língua Portuguesa para nos atirarem arena para os óculos (aparentemente, uma alternativa ao clássicoatirar areia para os olhos“).

Continuação de uma óptima semana.

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A Marlowe, entre espirros

Confesso-vos esta fraqueza. Ao primeiro arrepio, quando se sente o corpo subitamente exausto e dolorido, naquele momento em que começamos a sentir-nos tomados pela pena de nós mesmos, eu afundo no sofá e deito mão a Chandler. Ou a Hammet, embora prefira o primeiro.

No isolamento da gripe gosto particularmente da companhia do detective Philip Marlowe. Solitário, endurecido pelo muito que viu mas não o suficiente para não se condoer da condição humana, Marlowe acompanha as minhas convalescenças com o seu sarcasmo.

Quando me preparo para tomar o paracetamol, não me atrevo a esboçar uma expressão de sofrimento. Marlowe passa-me o comprimido e lança-me à cara, sem me dar tempo a gaguejar uma resposta:

– Escute, vou dar-lhe aquilo de que precisa. Não sou uma pessoa crédula, que acredite em qualquer história. De maneira que aceite o que lhe é oferecido e porte-se bem. Quero ver-me livre de si porque tenho um mau pressentimento.

Estremeço, tomo o comprimido sem pestanejar, sorvo mais um gole de chá e aconchego a mantinha. Na doença, ainda que banal como esta, encontro um inexplicável conforto nos cenários decadentes do policial negro. Mulheres fatais, homens destruídos pelo álcool, ricaças ninfómanas, corpos que aparecem a boiar numa piscina… este cocktail insólito funciona melhor do que qualquer panaceia de farmácia.

Se falta o livro, um filme pode fazer um efeito semelhante, embora com resultados mais lentos. O film noir dos anos quarenta e cinquenta, com os insuperáveis Bogart e Bacall, ajuda sempre, mas quando os sintomas da gripe se intensificam dificilmente consigo acompanhar um filme.

Prefiro ler um livro num estado febril, ir caindo no interior de uma história meio lida e meio delirada, adormecer sobre as páginas e sonhar que, num bar esconso, não muito longe de Sunset Boulevard, à hora do crepúsculo, quando as sombras se adensam, sento-me ao lado de Marlowe e começo a ouvir a sua história.

– A primeira vez que vi Terry Lennox ele estava bebêdo, dentro de um Rolls-Royce Silver Wraith, à porta da esplanada do The Dancers… Espirro, deliciada, encolho-me um pouco mais, aproximo a caixa dos lenços, e bendigo a sorte que me constipou.