A Marlowe, entre espirros

Confesso-vos esta fraqueza. Ao primeiro arrepio, quando se sente o corpo subitamente exausto e dolorido, naquele momento em que começamos a sentir-nos tomados pela pena de nós mesmos, eu afundo no sofá e deito mão a Chandler. Ou a Hammet, embora prefira o primeiro.

No isolamento da gripe gosto particularmente da companhia do detective Philip Marlowe. Solitário, endurecido pelo muito que viu mas não o suficiente para não se condoer da condição humana, Marlowe acompanha as minhas convalescenças com o seu sarcasmo.

Quando me preparo para tomar o paracetamol, não me atrevo a esboçar uma expressão de sofrimento. Marlowe passa-me o comprimido e lança-me à cara, sem me dar tempo a gaguejar uma resposta:

– Escute, vou dar-lhe aquilo de que precisa. Não sou uma pessoa crédula, que acredite em qualquer história. De maneira que aceite o que lhe é oferecido e porte-se bem. Quero ver-me livre de si porque tenho um mau pressentimento.

Estremeço, tomo o comprimido sem pestanejar, sorvo mais um gole de chá e aconchego a mantinha. Na doença, ainda que banal como esta, encontro um inexplicável conforto nos cenários decadentes do policial negro. Mulheres fatais, homens destruídos pelo álcool, ricaças ninfómanas, corpos que aparecem a boiar numa piscina… este cocktail insólito funciona melhor do que qualquer panaceia de farmácia.

Se falta o livro, um filme pode fazer um efeito semelhante, embora com resultados mais lentos. O film noir dos anos quarenta e cinquenta, com os insuperáveis Bogart e Bacall, ajuda sempre, mas quando os sintomas da gripe se intensificam dificilmente consigo acompanhar um filme.

Prefiro ler um livro num estado febril, ir caindo no interior de uma história meio lida e meio delirada, adormecer sobre as páginas e sonhar que, num bar esconso, não muito longe de Sunset Boulevard, à hora do crepúsculo, quando as sombras se adensam, sento-me ao lado de Marlowe e começo a ouvir a sua história.

– A primeira vez que vi Terry Lennox ele estava bebêdo, dentro de um Rolls-Royce Silver Wraith, à porta da esplanada do The Dancers… Espirro, deliciada, encolho-me um pouco mais, aproximo a caixa dos lenços, e bendigo a sorte que me constipou.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Carla, você tem um enorme talento para a escrita. Espero bem que tenha a determinação de deitar mãos à obra e nos presentear com uns belos contos ou mesmo um livro de encantar.Desta fiquei completamente aventado.Já tinha sentido umas brisas mas desta falta-me o ar…


  2. Fantástico aventar. Recuperei mentalmente Bogart, que me habituei a desenhar, durante a leitura, como o Marlowe que há muitos anos me acompanhou durante as tardes quentes. Benditas férias grandes escolares. Que saudades desses tempos, a ler Chandler, Hammet, Stanley Gardner, Spillane, Stout…

  3. carlos fonseca says:

    O conteúdo e a estética do texto são medicamentos insuperáveis para a gripe e para muitas outras patologias. O meu obrigado.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.