Novas expressões poéticas

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© Ted  Russel/Polaris

Marco Faria

Não que as letras de Bob Dylan sejam uma arte menor. Muito pelo contrário, uma letra musical pode ter a qualidade de um poema ou de um romance. Mas a decisão da Academia sueca é discutível. Desde logo, o problema maior está em encaixar letras de música num reconhecimento por razões de Literatura.
Há claramente uma interpretação extensiva ao encaixar Bob Dylan no reino dos laureados. Química é Química, Física é Física e Literatura deveria ser Literatura. Se a Academia queria atribuir o Nobel a Dylan teria de criar um prémio para a Música ou a Composição Musical. Anunciar que é-lhe atribuído o Nobel da Literatura «por ter criado novas expressões poéticas na tradição da canção americana» evidencia um descuido: é referida a palavra “canção”, não obstante a referência a “expressões poéticas”. A canção em Bob Dylan, como na generalidade desta arte, só existe porque há uma combinação entre escrita, sons provocados por instrumentos musicais, voz humana, pausas e uma infinidade de coisas.
Seja como for, abriu-se um novo capítulo. Não tão surpreendente como seria atribuir o Nobel da Física a Ronaldo, quando ele tenta contrariar a lei da gravidade; ou da Medicina, quando faz fintas, pondo as cabeças dos adversários viradas do avesso; ou ainda da Literatura, porque um golo pode ser um momento estético ou, no dizer do Nobel, uma “expressão poética”. Não se engane na estante quando for às compras; Dylan está mais na secção musical…
A Academia sueca decidiu e está decidido.

“Eu quero ficar sozinho”

José Mário Branco fala, canta e escreve a minha língua nativa.
Nada contra Dylan, tudo pelo lusofonia. Prémio Camões já ontem, já.

“O menino é mal criado, o menino é ‘pequeno burguês’, o menino pertence a uma classe sem futuro histórico… Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos!”