Bob, o bardo

Os zangados da literatura estão, na sua indignação, a promover Dylan a grande – ou mesmo genial! – músico, tentando, assim, diminuir-lhe a obra poética. “O que ele é é músico” – proclamam. Ora eu, que gosto de Dylan, não o considero um genial músico, um grande cantor e, muito menos um, sequer, razoável instrumentista. Na verdade, sendo um melodista de mérito, com algumas boas ideias musicais que se quedam na sua mais pura simplicidade, é um cantor de voz deveras limitada – para dizer o mínimo – e um ainda mais limitado instrumentista. Dylan é um bardo, um trovador, um poeta que canta as suas palavras. E é aí que se lhe vislumbra a grandeza. Tanta, que acabamos por lhe perdoar as limitações como interprete. E mais: fizemos da sua voz rouca e limitada, do seu estilo simples e básico, valores artístico por si mesmos. É pela palavra que Dylan se eleva aos grandes. E como a palavra é bela, todo o conjunto se ergue como excepcional.
Há muitos anos, encontrei entre os alfarrábios da loja do Ricardo, ali do Arco da Amedina, uma volumosa edição artesanal – e pirata…- das “lyrics” das canções do Bob Dylan. Estava a ler o meu achado na mesa do canto da Brasileira e não tardou a piada sobre se me ia pôr a cantar. Não ia. Mas confirmava esta evidência: há uma grande diferença entre um letrista e um poeta. E raramente se encontram na mesma pessoa. Dylan é uma das excepções. Por cá, José Afonso e Sérgio Godinho – entre os poetas-cantores – são bons exemplos, como Ary dos Santos, Alexandre O’Neill e David Mourão Ferreira o são entre os que têm o segredo de fazer poesia que (se) canta. O movimento que, nos últimos anos, tem trazido para a canção grandes poetas, deu belos resultados; e também disparates intragáveis.
Quem quiser que se entretenha na florentina discussão de saber se o que Dylan faz é literatura ou não. Se o seu nariz cabe no catálogo teutónico de judeus, se os seus genes lhe traem a origem russa. Quero lá saber. Como o Poeta, eu “canto o peito ilustre” Dylaniano.

Contra o Orçamento do Estado para 2017

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© Rui Gaudêncio (http://bit.ly/2dhUUdi)

Well I keep seeing this stuff and it just comes a-rolling in
And you know it blows right through me like a ball and chain

— Robert Allen Zimmerman, “Brownsville Girl

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Eis um Governo que sorri e encolhe os ombros, enquanto “aguarda serenamente“, mas depois é apanhado a entregar documentos de duvidosa qualidade técnica. Aliás, na senda daquilo que aconteceu com o OE2012, o OE2013, o OE2014, o OE2015 e o OE2016.

Antes de passarmos ao Relatório do Orçamento do Estado de 2017, debrucemo-nos muito rapidamente sobre exemplos da Proposta de Lei: [Read more…]

Novas expressões poéticas

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© Ted  Russel/Polaris

Marco Faria

Não que as letras de Bob Dylan sejam uma arte menor. Muito pelo contrário, uma letra musical pode ter a qualidade de um poema ou de um romance. Mas a decisão da Academia sueca é discutível. Desde logo, o problema maior está em encaixar letras de música num reconhecimento por razões de Literatura.
Há claramente uma interpretação extensiva ao encaixar Bob Dylan no reino dos laureados. Química é Química, Física é Física e Literatura deveria ser Literatura. Se a Academia queria atribuir o Nobel a Dylan teria de criar um prémio para a Música ou a Composição Musical. Anunciar que é-lhe atribuído o Nobel da Literatura «por ter criado novas expressões poéticas na tradição da canção americana» evidencia um descuido: é referida a palavra “canção”, não obstante a referência a “expressões poéticas”. A canção em Bob Dylan, como na generalidade desta arte, só existe porque há uma combinação entre escrita, sons provocados por instrumentos musicais, voz humana, pausas e uma infinidade de coisas.
Seja como for, abriu-se um novo capítulo. Não tão surpreendente como seria atribuir o Nobel da Física a Ronaldo, quando ele tenta contrariar a lei da gravidade; ou da Medicina, quando faz fintas, pondo as cabeças dos adversários viradas do avesso; ou ainda da Literatura, porque um golo pode ser um momento estético ou, no dizer do Nobel, uma “expressão poética”. Não se engane na estante quando for às compras; Dylan está mais na secção musical…
A Academia sueca decidiu e está decidido.

“Eu quero ficar sozinho”

José Mário Branco fala, canta e escreve a minha língua nativa.
Nada contra Dylan, tudo pelo lusofonia. Prémio Camões já ontem, já.

“O menino é mal criado, o menino é ‘pequeno burguês’, o menino pertence a uma classe sem futuro histórico… Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos!”

Tradução para português europeu, sff

farturas

Foto: Família Sequeira (http://bit.ly/2easZOl)

Και τώρα τι θα γένουμε χωρίς βαρβάρους.
Οι άνθρωποι αυτοί ήσαν μια κάποια λύσις.

Κωνσταντίνος Π. Καβάφης

(E agora que vai ser de nós sem bárbaros

Esta gente era alguma solução)

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Não se percebe: «já tem uma das mais elevadas faturas de pensões no orçamento»? Em português europeu, sff: «já tem uma das mais elevadas facturas de pensões no orçamento». Exactamente, um pouco mais de rigor, sff. Obrigado, Público.

Quanto ao sítio do costume, não há novidades:

dre13102016

Ao contrário daquilo que o Nobel da Literatura nos diz/canta/escreve, things haven’t changed.

Nótula: Texto revisto e muito ampliado, cerca de uma hora depois da publicação.

Fatos, fatos, fatos: muitos, muitos fatos

tischtennis

© dpa (http://bit.ly/1voxc4m)

 "Any minute now I’m expecting all hell to break loose"
Bob DylanThings Have Changed

António Costa aceitou o desafio do jornal Observador, respondeu às perguntas do Political Compass e, aparentemente, não terá pestanejado quando leu esta tradução de “It’s a sad reflection on our society that something as basic as drinking water is now a bottled, branded consumer product”:

O fato de a água que bebemos ser um produto de consumo de marca e engarrafado é um triste reflexo da sociedade em que vivemos.

Aliás, este “fato de a água” nem sequer é uma tradução: é o produto de uma deturpação da versão portuguesa, criada pelo Público:

O facto de a água que bebemos ser um produto de consumo de marca e engarrafado é um triste reflexo da sociedade em que vivemos.

Sim, o problema é grave. Efectivamente, este fato é um triste reflexo da sociedade em que vivemos. Considerando a gravidade do problema, prometo aos leitores do Aventar alguns meses de descanso sobre este assunto.

Em 21 de Março de 2013 (ou seja, há cerca de ano e meio), o ILTEC pronunciou-se nos seguintes termos [Read more…]

Alegre com Dylan por um Mundo livre

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«Manuel Alegre ao lado de Bob Dylan, John Lennon e Leonard Cohen» anunciou hoje a Leya, feliz da vida por Alegre passar a estar ao lado de tão notáveis poetas (e Chico Buarque também lá está) no âmbito da antologia italiana Canto Por Um Mundo Livre. Marketing é marketing (essa ciência que é um remédio santo) mas talvez José Afonso fosse realmente o único nome que faria sentido nessa representação portuguesa de grandes poetas/músicos. Alegre é doutra guerra.

Parabéns Robert Allen Zimmerman

Blowin In The WindBob Dylan faz hoje 70 anos.

A revolução do rock'n'roll existiu mesmo?

O leitor do Aventar vai a passar em frente de um edifício e sabe que no seu interior estão, em boa e pacífica convivência, nomes como Jimi Hendrix, John Lennon, Amy Winehouse, Beatles, Tina Turner, Little Richard, Rolling Stones, Mick Jagger, Kurt Cobain, Bob Dylan, Morrisey, etc. Que faz o nosso leitor? Entra?

Eu entrava, se estivesse em Nova York e passasse em frente ao Museu de Brooklin, onde, até ao fim deste mês, se encontra presente a exposição “Who Shot Rock & Roll: A Photographic History, 1955 to the Present” dedicada aos fotógrafos que acompanharam por dentro e por fora a história do rock & roll, gente que registou para a posteridade o Woodstock e Monterey, e andou tu cá tu lá com  Sex Pistols, Led Zeppelin, Kiss, Prince, Lou Reed, Elvis Presley, Janis Joplin, Frank Zappa e muitos outros.

Entre nuvens de fumos, alucinogénicos químicos e naturais, álcool a rôdos, pós de todas as proveniências e ressacas várias, é legítimo que se pergunte: a revolução do rock & roll existiu mesmo?

Existiu. As fotografias cá estão para o provar.

 

Ele já deve andar por aí

Bob Dylan – Must Be Santa

Navegação sem GPS

Aqui há uns tempos soube-se que Bob Dylan estava a ponderar aceitar a oferta de uma das muitas empresas que produzem GPS para ser uma das vozes disponíveis para os ditos aparelhos. Dylan brincava com a possibilidade dizendo “acho que seria bom se estivessem a precisar de indicações e ouvissem a minha voz a dizer algo como: ‘à esquerda na próxima rua… Não, direita… Sabes uma coisa? Vai sempre em frente’. Provavelmente eu não deveria fazê-lo porque, para onde quer que vá, acabo sempre no mesmo sítio – Avenida Solitária”. Os seus fãs adorariam, suponho, mas Dylan e as suas errâncias contrariam a essência do GPS e da sua perfeita e eficientíssima acção: fazer-nos chegar o mais depressa possível ao destino e assim livrar-nos dos atrasos e do inesperado. E tudo o que hoje tem por destino a poupança do tempo e a obtenção de resultados tem sucesso garantido, mas não vejo em que medida se poderá coadunar com o espírito dylanesco. Não encarem isto como o ataque de uma tecnofóbica ao GPS, só faltava. Que é muito útil, que avisa onde estão os radares, a bomba de gasolina mais próxima, etc, tudo muito benéfico e prático e meritório. Mas não estaria mal desligá-lo de vez em quando e deixar-se errar.

Há um poema muito famoso de Robert Frost, citado como justificação de variadas e espantosas borradas, no qual o poeta descreve como, perante duas estradas que divergiam num bosque, e lamentando não poder percorrer ambas, escolheu a menos percorrida e que isso fez toda a diferença. A estrada menos percorrida é para os bravos, claro, e nada garante que não termine apenas na Avenida Solitária. Mas em alguém momento, ainda que seja um único, seria bom, digo eu, poder apontar no nosso diário de bordo que escolhemos essa estrada. Há uns anos, uma grande amiga contou-me, sem perder tempo com lágrimas, que tinha ficado sem emprego e que, estando num momento de desorientação e incerteza, tinha decido usar a indemnização que recebera, e que era o único dinheiro que lhe restava para os tempos de desemprego, numa viagem à Patagónia. Eu contive-me a custo porque o que me apetecia era gritar-lhe que estava louca e que esse seria um disparate do qual se arrependeria para sempre. Antes de abrir a boca ouvi a descrição que ela me fez das expectativas que tinha para a viagem, e admirei a sua bravura. Sim, era insensato, era de loucos, ninguém no seu perfeito juízo o faria. Mas por que não? Aquela viagem acabou por ter o seu cariz iniciático e transformou-se num momento de reencontro e de crescimento. E quando regressou arranjou um novo trabalho e tudo se normalizou sem mais dramas. Perdemo-nos, reencontramo-nos, passamos pela Avenida Solitária e com um pouco de sorte temos um vislumbre da rua central, onde estão todos e a vida palpita.