(Des)lealdades


Há uns tempos, o Sr. Sampaio afiançava-nos a existência de uma “vida para além do défice”. Pois existe, tratando-se de um exercício de mãos nas mãos e à volta de uma mesa de pé de galo. É este, o odor a morte velha que paira sobre o esquema vigente.
Nos seus tempos, Mário Soares correu o país inteiro, invocando o seu direito à indignação pelas tropelias do seu próprio primeiro-ministro Cavaco Silva com quem aliás colaborou durante o inaugural mandato em Belém. Assim que teve azo, iniciou a guerrilha que culminaria com a feliz tomada de posse de um governo do seu Partido, tal como então declarou a quem o quis ouvir, ou seja, ao país que vê o telejornal.
Seguiu-se Sampaio, naquele vale de lágrimas fáceis que aquiesceram com múltiplas maluquices de primeira apanha, mas convenientemente relegadas para o baú das perdulárias ninharias, pois estava no poder o bonzinho Guterres. Não tugiu nem mugiu pelo descalabro de contas, boys a soldo e todo o tipo de dislates que transformaram Portugal no tal pântano que a alguns propiciou uma pouco airosa saída de cena. Teve de dar posse a um governo dos outros e foi fazendo o seu jogo até ao momento exacto em que decidiu dissolver um Parlamento maioritário e queiram ou não queiram, perfeitamente legítimo. Invocou trapalhadas, erguidas estas à figura de um dificilmente concebível conceito constitucional. Enfim, a partir de todos os choradinhos, fosquinhas e silêncios, criou um precedente que o seu sucessor tardou – mas não falhou – em aproveitar.
Cavaco Silva foi um conhecido colaboracionista estratégico muito pró-socrático. Assim que os 23% de eleitores – não muito menos daqueles que haviam “reeleito” Sampaio – decidiram a sua permanência em Belém, abriu de imediato as hostilidades no discurso de re-empossamento. Houve de tudo, desde intentonas a inventonas que apenas por milagre não fizeram entrar pregos por fechaduras adentro. Já desembaraçado do outro Partido, deu posse aos seus, para logo meditar acerca do seu improvável lugar numa História que dele pouco rezará. Terá o provável sonho de um governo “fora da canalha partidária”, daqueles que a União Europeia tem semeado um pouco por todo o lado. Não gosta do governo de PPC, porque apenas gosta de si mesmo e está a especializar-se no açular da partidocracia que tal como cão enraivecido, ignominiosamente corre atrás da sua própria cauda.
O PS está irritado. Porquê, se agora lhe acontece precisamente aquilo que os seus militantes belenenses um dia fizeram ao PSD?
Parece-vos possível tal coisa em Espanha, no Japão, Austrália ou na Suécia? Pois, gostem ou não gostem, a Monarquia tem certas e bem seguras vantagens.

Hoje, no berço da nação

O meu presidente favorito – uma questão de copos

Uma vez que já sei em quem não vou votar, não preciso de andar a reflectir muito antes que chegue o momento de carregar a cruz até ao boletim de voto, novo Gólgota. De qualquer modo, só me interessa o aparentemente improvável: haver uma segunda volta.

Livre que estou de dúvidas, quedei-me ocioso e deu-me para pensar: qual terá sido o meu presidente favorito?

Não seria lícito exigir a outros a perfeição de que a Natureza não nos dotou e acabei por ficar dividido entre Mário Soares e Jorge Sampaio.

Um dos primeiros critérios que uso para definir se gosto de alguém que não conheço pessoalmente resume-se nesta pergunta de evidente valor científico: “será que iria beber um copo com este gajo?” [Read more…]