A revelação: Porque é que o diabo não chegou em Setembro?

O Aventar está, finalmente, em condições de explicar porque é que o diabo não veio em Setembro. Segundo se apurou, Mefistófeles tinha quase ultimada a compra do seu modesto T-666 ali para os lados da Boca do Inferno, com uma  fabulosa vista de mar e pleno de sol, sendo uma questão de dias até se instalar neste el dorado do imobiliário. Era um demónio feliz, que havia encontrado o paraíso na terra, na qual já antevia as delícias que teria ao seu dispor graças ao caldo condimentado com austeridade, propaganda e crescente miséria.

Certa manhã dirigia-se para o Ministério dos Vistos Dourados, para tratar da sua futura casinha, quando sentiu as veias gelarem. A Mariana Mortágua estava na televisão a falar de alterações à tributação do património e das regras do IMI e ele, um pobre diabo, começou a ver para onde caminhava a situação. “Dão-me um visto, olha, compra uma casita, mas querem é os meus tostões.” Foi com este estado de espírito que se dirigiu ao ministro, dizendo-lhe que assim não vinha e de nada lhe valeu o PowerPoint do Comissário das Interpretações Correctas, explicando-lhe que o Imposto Mortágua era, na verdade, o Imposto Passos. O mal estava feito e para ele, fonte de infortúnios para a humanidade, maldade não era coisa para o próprio sentir na pele.

Foi por isto que o Diabo não veio em Setembro. Fruto de impostos demonizados pela Direita, aquele que lhes poderia trazer a passadeira do poder ficou no quentinho.

Grátis: teatro e revolução no Porto

naosabemdizer

O espectáculo musical A Revolução Dos Que Não Sabem Dizer Nós é um texto de Zeferino Mota, com encenação de João Paulo Costa, e direcção musical de Ernesto Coelho. A Revolução… tem interpretações de Ana de Jesus, Ana Luísa Queirós, Miguel Lemos, Pedro Roquette, Rita Lagarto e Tiago Araújo.

Está em cena até dia 22 de Setembro, de quarta a domingo às 21h30, na sala redonda do 4º piso do Edifício AXA. Sim, a entrada é gratuita.

Para saber mais sobre o espectáculo, é favor visitar a Gazeta dos Artistas. A seguir ao corte, um vídeo. [Read more…]

tarde de Agosto

Há um instante, quando os dias ainda são longos e o sol escalda e Agosto parece interminável, em que uma rajada de vento sopra com violência inesperada, os ramos dos salgueiros agitam-se e murmuram uma queixa, um arrepio estremece-nos, e percebemos que é o fim do Verão que se anuncia.

Poderão ainda as tardes de calor suceder-se, o rio continuar a chamar-nos com a sua calmaria cálida, mas já conhecemos o segredo do fim das coisas e esse saber não nos amargura nem entristece.

As crianças saem da água a tiritar, as mães apressam-se a cobrir-lhes os ombros com toalhas, passam-lhe para as mãos o pão com fiambre e o leite achocolatado, tudo é igual ao que era há vinte anos, e sabemos que a seguir virá Setembro com a sua melancolia, o mês dos regressos e das despedidas, o mais belo de todos.

Deixamos as margens do rio, de regresso à vila, e caem as primeiras gotas, grossas e frias, um bálsamo após a tarde abrasadora. A terra húmida perfuma o ar da tarde e o mundo respira placidamente. Por instantes podemos fechar os olhos e acreditar que uma secreta harmonia se estende a todas as coisas.