A unidade de esquerda chega?

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Parece que foi precisa uma vaga de calor para PCP e BE avançarem com propostas de encontros, visando, supõe-se, a construção de uma programa comum de esquerda em Portugal. Que o tempo não arrefeça.

Ainda antes de a direita entrar em histeria, como é hábito nestas ocasiões (não é muito difícil de fazer as contas: BE e PCP podem facilmente obter o segundo resultado eleitoral em próximas eleições, relegando o PSD para o velório e fazendo de Passos Coelho o seu cangalheiro), e abençoando a máxima de que o caminho é complicado e ainda bem, que de coisas fáceis está a troika cheia, registe-se uma primeira reacção radical de base em modo pequeno-burguês: vá de retro porque o BE também convidou o PS.

Convém perceber duas coisas. A primeira é simples: é no PS que se concentram os votos dos que estão fartos da troika, e os votos fazem falta. Não alinhando o PS numa coligação disfarçada com a direita é limpinho que assim será. Imaginemos que as conversações de 2ª, 3ª 4º e 6ª eram encabeçadas por Francisco Assis, teríamos este cenário muito bem traçado pelo Pedro Magalhães, referindo-se a um hipotético acordo: [Read more…]

Se eles se juntam há que imaginá-los divididos

Não li uma única citação que comprove ter sido aprovada no XIX Congresso do PCP qualquer orientação no sentido de excluir de uma unidade de esquerda o BE e mesmo o PS (embora tenham salvaguardado que este terá de mudar de política, o que não é novidade nenhuma). Mesmo na resolução política o BE leva a mais suaves das referências desde que existe e o PS apanha o (merecido) tratamento habitual.

Cecília Honório que representou o BE no Congresso também não parece ter ouvido:

Confrontada com a ideia de que o PCP se demarcou estrategicamente do Bloco de Esquerda ao considerar mais importante saber com que política se chega ao Governo do que discutir com quem se chega ao Governo, Cecília Honório disse não partilhar essa interpretação.

Mas entretanto o DN, e não só, criou uma ficção política. Pelos vistos há quem tenha medo, muito medo, de uma alternativa de unidade de esquerda, e o melhor será começar já a parti-la.

Questões e alternativas (Memória descritiva)

Já aqui tenho falado desta revista que um grupo de amigos editou em 1984 e da qual se publicaram quatro números. Até reproduzi, com algumas alterações, textos ali publicados e que entendi manterem alguma actualidade. A «Questões e Alternativas» foi uma iniciativa editorial que se baseou em reuniões de alguns militantes de esquerda, maioritariamente saídos do PRP, mas também do MES, da FSP, da LCI, da LUAR. E alguns independentes. Pode contar-se assim a história:

No chamado núcleo duro do projecto, só sábios éramos nove: o Carlos Leça da Veiga, médico, o Rui de Oliveira, médico também, a Augusta Clara Matos, bióloga, o Jaime Camecelha, bancário e dirigente cineclubista, o Bruno da Ponte, editor, a Clara Queiroz, professora universitária, o João Machado, sociólogo, o Pedro Ramalhete, na altura ainda estudante de Sociologia, e, como dizia o outro, um nono sábio que a modéstia me impede de designar.

Corria o orwelliano 1984. Não se vivia a realidade distópica que o escritor irlandês criara na sua famosa ficção, mas vivia-se um tempo de difícil transição, de ajustamentos, de receios com fundamento. O socialismo real afogava-se no vómito dos erros cometidos, de numerosas traições ao espírito solidário e fraterno do comunismo. Aqui, Eanes ia, de hesitação em inacção, cedendo passo ao bloco central que chegava através de Mário Soares e do seu slogan de «socialismo em liberdade» (que nós prontamente traduzimos por «capitalismo à solta»). [Read more…]