Questões e alternativas (Memória descritiva)

Já aqui tenho falado desta revista que um grupo de amigos editou em 1984 e da qual se publicaram quatro números. Até reproduzi, com algumas alterações, textos ali publicados e que entendi manterem alguma actualidade. A «Questões e Alternativas» foi uma iniciativa editorial que se baseou em reuniões de alguns militantes de esquerda, maioritariamente saídos do PRP, mas também do MES, da FSP, da LCI, da LUAR. E alguns independentes. Pode contar-se assim a história:

No chamado núcleo duro do projecto, só sábios éramos nove: o Carlos Leça da Veiga, médico, o Rui de Oliveira, médico também, a Augusta Clara Matos, bióloga, o Jaime Camecelha, bancário e dirigente cineclubista, o Bruno da Ponte, editor, a Clara Queiroz, professora universitária, o João Machado, sociólogo, o Pedro Ramalhete, na altura ainda estudante de Sociologia, e, como dizia o outro, um nono sábio que a modéstia me impede de designar.

Corria o orwelliano 1984. Não se vivia a realidade distópica que o escritor irlandês criara na sua famosa ficção, mas vivia-se um tempo de difícil transição, de ajustamentos, de receios com fundamento. O socialismo real afogava-se no vómito dos erros cometidos, de numerosas traições ao espírito solidário e fraterno do comunismo. Aqui, Eanes ia, de hesitação em inacção, cedendo passo ao bloco central que chegava através de Mário Soares e do seu slogan de «socialismo em liberdade» (que nós prontamente traduzimos por «capitalismo à solta»).

Tínhamos uma numerosa e vistosa plêiade de apoiantes para as nossas iniciativas, mais de uma centena. de onde se destacavam alguns actores, professores universitários, músicos, escritores, jornalistas… Além da publicação da revista, organizámos bem sucedidos debates no Centro Nacional de Cultura.

Tínhamos também. além desses apoios, um objectivo, um sonho – unir a esquerda. Uma esquerda fragmentada por pormenores ideológicos que cada vez faziam menos sentido. No Portugal dos anos oitenta o que interessava aquilo que Lenine, Trotsky, Mao Tse-Tung ou Enver Hodja tinham dito décadas antes, em contextos sociopolíticos que nada tinham a ver connosco?

Éramos não-alinhados, na ordem interna e na externa, pois a dicotomia NATO -Pacto de Varsóvia não se extinguira ainda e o não-alinhamento, pese embora as posições assumidas por países como a Índia e a Indonésia começassem a fazer prever que o movimento internacional começado em Bandung não ia arribar a bom porto, mantinha ainda em aberto algum capital de esperança. Chegámos a criar uma Associação da Esquerda Portuguesa Não-Alinhada (AEPNA) cujos estatutos foram publicados em Diário da República.

Nos quatro números das «Questões e Alternativas» publicámos alguns textos que ainda hoje me parecem muito interessantes. No primeiro número, no editorial, dizia-se que «como de médico e de louco, todos temos um pouco», nós nos sentíamos tentados a prescrever uma receita para as incontáveis doenças que afligiam o País. E, na realidade, nas 200 páginas que os quatro números somam, receitámos que nos fartámos. Sobre o conceito de democracia, sobre a política energética do País, sobre as questões ambientais, a propósito do debate que então se travava sobre o aborto…

E sobre política internacional – a Nicarágua, o Chile, a África Austral – e um problema que ainda hoje constitui preocupação – Aquilo a que chamámos «as colónias da Europa»: começámos com a Irlanda, no quarto número, e íamos continuar com a Catalunha, a Galiza, o País Basco, as numerosas colónias europeias do império russo, as nações sufocadas pela Sérvia.

Acabávamos sempre com uma secção de pequenas notícias nacionais – «Nós por cá (quase) todos mal». E em todos os números se alertava para os perigos de uma ditadura do «bloco central». No nº 3, perguntávamos: «Com Soares – um segundo fascismo?».

Como é natural, levantámos mais questões do que alternativas apresentámos. O que é curioso é a actualidade da maioria dos textos – muitas dessas questões permanecem sem resposta. Vinte e cinco anos depois de termos publicado o 4º e último número.

Tínhamos o tal sonho de unir a esquerda. Na época, apesar da experiência negativa dos GDUPs, parecia, apesar de tudo, possível. Hoje parece uma loucura, de tal forma, essa esquerda se encontra dividida, estratificada e, sobretudo, desmobilizada.

Só sábios, éramos nove…

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