A unidade de esquerda chega?

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Parece que foi precisa uma vaga de calor para PCP e BE avançarem com propostas de encontros, visando, supõe-se, a construção de uma programa comum de esquerda em Portugal. Que o tempo não arrefeça.

Ainda antes de a direita entrar em histeria, como é hábito nestas ocasiões (não é muito difícil de fazer as contas: BE e PCP podem facilmente obter o segundo resultado eleitoral em próximas eleições, relegando o PSD para o velório e fazendo de Passos Coelho o seu cangalheiro), e abençoando a máxima de que o caminho é complicado e ainda bem, que de coisas fáceis está a troika cheia, registe-se uma primeira reacção radical de base em modo pequeno-burguês: vá de retro porque o BE também convidou o PS.

Convém perceber duas coisas. A primeira é simples: é no PS que se concentram os votos dos que estão fartos da troika, e os votos fazem falta. Não alinhando o PS numa coligação disfarçada com a direita é limpinho que assim será. Imaginemos que as conversações de 2ª, 3ª 4º e 6ª eram encabeçadas por Francisco Assis, teríamos este cenário muito bem traçado pelo Pedro Magalhães, referindo-se a um hipotético acordo:

Se esses objectivos consensualizados incluírem “concordar com despedimentos, cortes nas pensões”, a coesão interna no PS deverá estar em risco, se José Sócrates servir de barómetro para esse efeito (e provavelmente serve). E mesmo sem contar com isso, para o PS, a equação eleitoral não é inequivocamente favorável a qualquer espécie de acordo com os partidos de governo: CDU e BE espreitam, e um ano (até menos que isso) de “salvação nacional” é muito, muito tempo.

Mas quem está lá é o Alberto Martins. Não é bem o mesmo filme.

A outra coisa a entender vem nos manuais: o eleitor pacato, farto disto mas hesitante e bombardeado diariamente pela propaganda dos carreiristas televisivos, afasta-se se o PS, acossado de um lado e do outro, não tiver a possibilidade de continuar no velho argumento dos do arco da governação: que à esquerda não querem é governar, não passam de partidos de protesto e utopias.

Fez muito bem o PCP em convidar apenas o BE, e muito melhor o BE em responder favoravelmente e convidar o PS de 5ª feira, dia de moção de censura, para conversações. Estamos a falar de coisas sérias e decisivas, não há tempo a perder com purismos ditos revolucionários e na prática de puro e puto esquerdismo. Espero bem que neste capítulo Portugal não seja a Grécia e o PCP não se confunda com essa organização tipicamente maoísta designada por KKE, a quem já faltou mais para deixar de ter representação parlamentar.

Comments

  1. Mário Machaqueiro says:

    Apoio e assino por baixo!

  2. Mário Reis says:

    A palavra necessária é NÃO! Presentemente, parece-me, que o espirito de negar, de recusar, de dizer um NÃO a esta via de extorsão que põe os povos de cócoras é o que vai precipitar a transformação das coisas. O sim, declarou-se passivo e obdiente. Vergonhoso e indigno.
    Há que arriscar. E se a Esquerda pode fazer alguma coisa é agora. Há muito ruido e muita “rebeldia” convenientemente libertada para salvar o sistema, que se revela distante da ausência de consciência deste processo concebido para minar a Constituição da Republica, para liquidar ganhos sociais, para fazer recuar as nossas vidas décadas.
    O PS obreiro e co-responsável como a direita, teve e tem os seus principais dirigentes engajados como serventuários e fieis homens de mão do capital económico e financeiro. Não tem faltado, nem vão faltar posições oportunistas preocupadas em salvar a pele de grupos. A crescente situação de miséria transversal a cada vez mais portugueses e agregados familiares, não interessa para nada. O sistema permite a contestação, mas não a consciência! O PS nada tem feito para aumentar a contestação. Interpreta a luta como um direito, tal como a direita. Não se empenha, não corta com a troika e as orientações europeias. Revela quanto pior, melhor, para não ter que vir a fazer o caminho que o capital está a exigir ao PSD/CDS. “Qual é a pressa?”
    Neste cenário as corporações não querem negociar nada! Até aqui, não quiseram negociar seja o que for. O PSD/CDS assumiram-se como a firewall do capital especulativo e piratas financeiros e se o PS estivesse no governo era o PS a desempenhar esse papel.
    Perante uma situação dramática, dar a mão a este PS é promover um intermediário que se encarregará de apagar fogos que se manifestam numa sociedade portuguesa saturada. Vejo esta proposta do BE como mais um presente envenado.
    A palavra necessária do povo português e europeu é dizer NÃO!
    Quanto a votos, na minha opinião é demasiado importante o reforço do PCP e de outras forças de esquerda, mas não a qualquer preço.
    Desta vez não posso estar de acordo nem asinar de cruz…

Trackbacks


  1. […] da Troika e que acolha as suas políticas. O Bloco acredita que isso é possível, até porque sem PS mão há qualquer hipótese de a Esquerda chegar ao poder. O que querem com esta divisão entre PCP […]

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