Desperdício do medicamento

O trabalho “desperdício do medicamento no ambulatório em Portugal” revela que se desperdiça 21,7% da quantidade de medicamentos prescrita. Metade está associada à dimensão da embalagem e a outra metade à não adesão à terapêutica.

O custo global ligado ao desperdício é de 4,44 euros por medicamento, sendo que mais de 60% foram suportados pelo SNS. Em 2009 foram recolhidos no âmbito do Infarmed, cerca de 716 toneladas de embalagens de restos de medicamentos nas farmácias portuguesas o que equivale a 100 mil contentores. A realidade é muito superior porque a maioria da população pura e simplesmente deita para o lixo as embalagens a mais e não as entrega nas farmácias.

O redimensionamento das embalagens é a medida mais amigável para farmácias e indústria, não exigindo investimentos que cada farmácia teria que fazer e que monta a 150 mil euros, no caso da unidose. É um passo mas que não evita o custo da embalagem .

Até ao momento nenhuma farmácia aderiu à unidose, e o bastonário da OM diz que tudo isto é porque a ANF quer vender “medicamentos a granel”!

Sócrates e o polvo das farmácias

Vemos constantemente mexidas na lei dos medicamentos e das comparticipações, como ainda ontem se viu na conferência de imprensa da Ministra da Educação. Como sempre, o Estado vai poupar dinheiro mas os contribuintes, muitos deles desfavorecidos, vão gastar mais.
E continua sem haver uma verdadeira política de apoio aos genéricos. E a venda por unidose continua sem avançar. E a prescrição por denominação comum internacional continua sem avançar. Tudo porque não interessa. Ou às farmácias, ou à indústria farmacêutica.
Ontem, a Ministra da Saúde esqueceu-se de dizer que a margem de lucro das farmácias voltou a ser de 20%, quando antes era de 18%. Num momento de crise, percebe-se mal por que razão há um sector que é beneficiado desta forma em relação aos outros. Subida da margem de lucro nesta altura?
Uma medida tão pronográfica que até a Ministra da Saúde teve vergonha de a anunciar. Mas não há limites para a pornografia de que José Sócrates é capaz, nem mesmo por se ter sabido entretanto que o processo Face Oculta regista as ligações perigosas entre João Cordeiro e o primeiro-ministro.

Continuamos à espera da unidose, da prescrição por denominação comum e dos genéricos

Enquanto se vai entretendo a rever as comparticipações dos medicamentos, sempre para pior, o Governo vai esquecendo algo que realmente baixaria e muitíssimo a factura dos doentes e do próprio Estado: a venda dos medicamentos em unidose (depois de acauteladas todas as condições de segurança, o que não se prevê que seja um trabalho hercúleo), a obrigatoriedade da prescrição por denominação comum (o que permitira ao doente escolher o mais barato) e o verdadeiro incentivo aos genéricos.
Claro que isso não interessa à indústria farmacêutica nem às próprias farmácias. São grupos fortes – e todos sabemos que José Sócrates não tem estofo para lutar contra os grupos fortes. José Sócrates só tem coragem para se meter com os pequenos.